Um grupo de pesquisadores da Universidade de Ciência e Tecnologia da China publicou na revista Cell, um veículo conceituado em ciências da vida, a informação de que tinha desenvolvido um material que é capaz de, acoplado à lente de contato, fazer com que a visão perceba comprimentos de onda que são invisíveis aos olhos, o chamado infravermelho. Eduardo Rocha, oftalmologista e colunista da Rádio USP, explica que a capacidade de visão dentro do espectro das radiações é bastante estreita. Há um enorme número de comprimentos de onda, tanto abaixo do que é chamado o espectro da luz visível como acima, que os olhos não percebem.
“Esse estudo demonstra que, com algumas modificações, é possível tornar o olho mais sensível, e então se fazer uma aplicação prática dessa capacidade. Enxergar a luz infravermelha é possível hoje, mas com alguns equipamentos que precisam de energia própria, são grandes; nesse aspecto, o que se propõe aqui não foi uma redescoberta, uma releitura das ciências naturais ou da nossa capacidade biológica de enxergar. O que esse grupo propôs como uma real inovação e uma inovação interessante, mas ainda no campo científico-tecnológico, é a possibilidade de um item simples, de uso corriqueiro. Talvez, em alguns países, 10% ou mais da população sejam potenciais usuários de lentes de contato. Seria uma lente de contato especialmente produzida e desenhada, um trabalho de engenharia e de interesse mercadológico, que se tornaria então vendável, um produto que fosse capaz de enxergar comprimentos de onda de radiações que hoje não são visíveis.”
O que se propõe, com essa nova lente, é que, ao se colocar algumas substâncias inócuas, seguras, para ficar em contato com o olho na superfície da lente de contato, permita-se que o comprimento de onda filtrado, alterado pela lente, seja notado pelo olho, seja visível, seja sensibilizador das nossas células fotossensíveis, cones e bastonetes, que ficam na nossa retina.
Daltônicos
O processo para os daltônicos verem as cores corretamente é muito parecido com o da luz infravermelha, explica o especialista. “Ao colocar um óculos especial na frente dos olhos de uma pessoa que tem dificuldade para ver dentro do espectro verde e vermelho, o que se faz não é modificar a genética desses indivíduos, nem tratar definitivamente essa limitação. É simplesmente alterar, filtrar os comprimentos de onda que são confusos para essas pessoas, porque eles não têm cones sensíveis o suficiente para distinguir dentro do espectro do verde e vermelho, mas, ao jogar uma parte dessas cores mais próximas do azul, outras mais próximas do amarelo por meio de filtro, elas são notadas por eles como distintas, não especificamente, genuinamente verdes e vermelhos, porque para eles tem essa limitação genética.”
A grande inovação que existe com a nova lente é a possibilidade de um produto tecnológico que teria interesse comercial, utilizado com todas as precauções já preconizadas para lentes de contato: higiene, troca, evitar contaminação. “Teria talvez um mercado profissional para usuários apreciadores de eventos da natureza, noturnos, como ambientes naturais, e talvez outras, de interesse mercadológico. Por ser diferenciada, a lente deve ter um preço elevado em relação ao que já existe no mercado, algo em torno de US$ 200, o que é relativamente caro.”
Fonte: Jornal da USP



