Hospitais e especialistas reforçam a importância de protocolos padronizados para prevenir lesões oculares em pacientes hospitalizados
Por Marina Almeida
Em ambientes hospitalares, a atenção à visão nem sempre recebe o destaque que merece — sobretudo quando se trata de pacientes em estado crítico, sedados ou sob ventilação mecânica. No entanto, o ressecamento e as lesões da superfície ocular podem surgir de forma silenciosa, evoluindo para complicações graves se não forem prevenidas.
Especialistas ouvidos pela Revista Universo Visual — Regina Noma, presidente da Sociedade Brasileira de Lentes de Contato e Córnea (Soblec); José Álvaro Pereira Gomes, presidente da Sociedade Brasileira de Córnea (SBC); e Ione Alexim, oftalmologista do Hospital Alemão Oswaldo Cruz (HOC) — apontam que o manejo ocular de pacientes internados está ganhando espaço nas práticas hospitalares, mas ainda carece de padronização ampla e capacitação continuada das equipes assistenciais.
Onde estão os riscos
A superfície ocular é um dos tecidos mais vulneráveis durante a hospitalização prolongada — sobretudo em pacientes sedados, sob ventilação mecânica, com lagoftalmo, ou submetidos a cirurgias longas. Na prática, uma combinação de exposição corneana + fluxo de ar (máscaras/CPAP/ventiladores) + redução do piscar pode desencadear ressecamento, ceratites, úlceras estéreis e infecciosas, até perfuração. São eventos previsíveis — e, por isso, preveníveis — quando protocolos simples e bem treinados são incorporados às rotinas da enfermagem e validados pela oftalmologia hospitalar.

José Álvaro Pereira Gomes
Segundo o oftalmologista José Álvaro Pereira Gomes, da SBC, durante a internação, especialmente em Unidades de Terapia Intensiva (UTIs), fatores como sedação, ventilação mecânica e fechamento incompleto das pálpebras (lagoftalmo) favorecem o ressecamento da superfície ocular. “Essas condições podem levar ao aparecimento de úlceras, ceratites e até perfurações, comprometendo a recuperação do paciente e aumentando os riscos infecciosos”, explica.
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Regina Noma
ina Noma, da Soblec, complementa que os sinais de alerta — como olho vermelho, lacrimejamento, manchas brancas na córnea ou embaçamento visual — exigem atenção imediata. “O exame dos olhos deve fazer parte da rotina de avaliação diária das equipes assistenciais. Garantir a proteção da superfície ocular é fundamental”, reforça
Protocolos e práticas de prevenção
No Hospital Alemão Oswaldo Cruz, a adoção de um protocolo formal de cuidado ocular reflete o compromisso institucional com a segurança do paciente. “O cuidado ocular é inserido desde a admissão, com a identificação de fatores de risco e medidas preventivas. A equipe assistencial observa diariamente sinais de ressecamento e, quando necessário, aciona o time de Oftalmologia”, afirma Ione Alexim.

Ione Alexim
Os especialistas destacam medidas simples, porém decisivas, como:
- Aplicação de lubrificantes oculares mais viscosos (géis com dexpantenol ou pomadas) em pacientes sob ventilação;
- Oclusão palpebral com gaze ou micropore para evitar exposição;
- Atenção especial durante cirurgias prolongadas e no uso de agentes antissépticos próximos aos olhos;
- Capacitação da equipe de enfermagem e fisioterapia para identificar precocemente sinais de irritação ocular.
“Esses cuidados são simples, mas salvam olhos”, resume Pereira Gomes. “Quando o paciente acorda de uma sedação prolongada e consegue enxergar sem dor, estamos preservando não apenas a visão, mas sua qualidade de vida.”
Hidratação ocular: um pilar essencial no conforto e recuperação
A lubrificação adequada é considerada o pilar central do cuidado ocular hospitalar. De acordo com Regina Noma, colírios, géis com dexpantenol e pomadas com propriedades cicatrizantes e hidratantes ajudam a manter a integridade epitelial, acelerar a regeneração da córnea e proporcionar conforto visual.
“Alguns lubrificantes têm agentes que absorvem moléculas de água e mantêm a umidade na superfície ocular, oferecendo mais estabilidade e proteção”, explica. Além disso, associações com vitaminas ou antibióticos podem ser indicadas para potencializar a cicatrização
Já Ione Alexim, do HOC, ressalta que o uso regular desses produtos deve ser parte da rotina de prevenção: “A observação do fechamento das pálpebras e o uso de lubrificantes quando indicado são práticas simples que preservam o conforto e previnem complicações, sempre com base em segurança e humanização do cuidado”
Educação e cultura de segurança
Embora muitos hospitais já incorporem protocolos de saúde ocular, os especialistas são unânimes: é preciso fortalecer a educação continuada e a integração multiprofissional. “A cultura de segurança e a troca de experiências entre anestesistas, intensivistas, enfermeiros e oftalmologistas é o caminho para reduzir lesões e padronizar boas práticas”, defende Regina Noma.
A SBC e a Soblec têm atuado para difundir essas orientações entre serviços hospitalares e profissionais de diferentes áreas, destacando a importância do acompanhamento oftalmológico mesmo em internações não relacionadas diretamente à visão.
Conclusão
O cuidado com os olhos dentro dos hospitais é, antes de tudo, uma questão de dignidade e prevenção. A atenção multiprofissional e o uso de colírios e lubrificantes adequados reduzem complicações, melhoram o conforto e refletem o compromisso com o cuidado integral do paciente.
Como resume Ione Alexim, “olhar para os olhos do paciente é enxergar além do tratamento: é garantir bem-estar, segurança e qualidade em cada etapa da internação”.
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O núcleo do protocolo: prevenção, proteção e hidratação
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