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Cresce, de forma consistente, o reconhecimento de que o olho é uma fonte privilegiada de informações sobre doenças sistêmicas. Dois estudos recentes publicados em periódicos científicos de alto impacto reforçam essa visão ao demonstrar como exames oftalmológicos podem revelar alterações vasculares, neurológicas e cardiopulmonares, muitas vezes antes do diagnóstico clínico convencional.

Essa relevância é clínica e estratégica: o olho oferece uma visualização direta, não invasiva e sem barreiras dos sistemas vascular e neurológico, posicionando oftalmologistas e especialistas em cuidados visuais na linha de frente da detecção precoce de doenças sistêmicas graves.

IA aplicada ao rastreamento da retinopatia da prematuridade

Em um estudo diagnóstico nacional, pesquisadores utilizaram inteligência artificial (IA) para analisar imagens obtidas durante o rastreamento da retinopatia da prematuridade (ROP).
O trabalho demonstrou que essas imagens podem identificar sinais de displasia broncopulmonar e hipertensão pulmonar em recém-nascidos prematuros.

O estudo foi liderado por Praveer Singh, PhD, do Departamento de Oftalmologia da University of Colorado School of Medicine, e utilizou dados do consórcio Imaging and Informatics in Retinopathy of Prematurity (i-ROP). As imagens analisadas foram captadas em bebês com até 34 semanas de idade pós-menstrual, antes do diagnóstico clínico das doenças sistêmicas.

A displasia broncopulmonar afeta cerca de um terço dos prematuros extremos, o que corresponde a aproximadamente 18 mil bebês por ano nos Estados Unidos, sendo uma das principais causas de morbidade nessa população. A hipertensão pulmonar, frequentemente associada, eleva a pressão vascular pulmonar e também está ligada a aumento de mortalidade.

O que o modelo de IA demonstrou

O estudo incluiu 493 recém-nascidos, comparando modelos baseados apenas em dados demográficos, apenas em imagens retinianas e um modelo multimodal, que combinava ambos.

Os resultados mostraram que:

  • Para displasia broncopulmonar, o modelo multimodal apresentou maior acurácia (AUC 0,82) do que modelos baseados apenas em dados demográficos ou em imagens isoladas.
  • Para hipertensão pulmonar, o modelo multimodal alcançou AUC de 0,91, desempenho significativamente superior ao modelo demográfico.

De forma relevante, esses resultados se mantiveram mesmo quando o algoritmo foi treinado com imagens sem sinais clínicos evidentes de ROP.

Segundo os autores, os achados indicam que imagens retinianas obtidas rotineiramente podem ajudar a prever doenças cardiopulmonares em prematuros, possibilitando diagnóstico mais precoce e reduzindo a necessidade de exames invasivos no futuro.

Perda visual transitória como marcador de risco cardiovascular

Em outra frente, um grande estudo canadense reforçou o papel da oftalmologia na identificação de risco sistêmico ao avaliar as consequências da perda visual transitória (PVT).

A pesquisa, liderada por Tasha Miller, MD, da University of Toronto, analisou dados de pacientes com primeiro episódio de PVT e os comparou, em proporção 1:1, com indivíduos diagnosticados com olho seco. O estudo avaliou desfechos como:

  • eventos cardiovasculares maiores,
  • AVC,
  • infarto do miocárdio,
  • arritmias,
  • tromboembolismo venoso,
  • hospitalização,
  • mortalidade por todas as causas.

Ao todo, 37.750 pacientes foram incluídos em cada grupo, com idade média em torno de 57 anos.

Riscos elevados no curto e longo prazo

Os resultados mostraram que, nos primeiros 14 dias após a perda visual transitória, houve:

  • aumento de mais de 21 vezes no risco de AVC,
  • quase 10 vezes mais eventos cardiovasculares maiores,
  • aumento de 4 vezes no risco de arritmia,
  • risco 5 vezes maior de infarto,
  • quase 4 vezes mais hospitalizações, em comparação ao grupo controle.

Mesmo entre pacientes que não apresentaram eventos nos primeiros 90 dias ou no primeiro ano, o risco elevado de AVC, eventos cardiovasculares, arritmias e hospitalização persistiu por até 10 anos.

Os autores concluem que a perda visual transitória deve ser encarada como um sinal de alerta sistêmico, exigindo avaliação cardiovascular imediata e seguimento de longo prazo.

Implicações para a prática oftalmológica

Em conjunto, os dois estudos reforçam que o exame ocular vai muito além da saúde visual. A retina e os sintomas visuais funcionam como biomarcadores acessíveis de doenças sistêmicas graves, desde condições cardiopulmonares em recém-nascidos até risco cardiovascular elevado em adultos.

Oftalmologistas assumem, assim, um papel cada vez mais central na medicina preventiva e integrada, contribuindo para diagnósticos precoces, redução de morbidade e melhores desfechos sistêmicos.

 

Referências:

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  2. Thébaud B, Goss KN, Laughon M, et al. Bronchopulmonary dysplasia. Nat Rev Dis Primers. 2019;5:78. doi:10.1038/s41572-019-0127-7

  3. 3.Clark RH, Kueser TJ, Walker MW, et al. Clinical Inhaled Nitric Oxide Research Group. Low-dose nitric oxide therapy for persistent pulmonary hypertension of the newborn. N Engl J Med. 2000;342:469-74. doi:10.1056/NEJM200002173420704

  4. 4.Kinsella JP, Abman SH. Recent developments in inhaled nitric oxide therapy of the newborn. Curr Opin Pediatr. 1999;11:121-125. doi:10.1097/00008480-199904000-00004

  5. 5.The Neonatal Inhaled Nitric Oxide Study Group. Inhaled nitric oxide in term and near-term infants: neurodevelopmental follow-up of the neonatal inhaled nitric oxide study group (NINOS). J Pediatr. 2000;136:611-617. doi:10.1067/mpd.2000.104826

  6. Brown JM, Campbell JP, Beers A, et al. Imaging and Informatics in Retinopathy of Prematurity (i-ROP) Research Consortium. Automated diagnosis of plus disease in retinopathy of prematurity using deep convolutional neural networks. JAMA Ophthalmol. 2018;136:803-10. doi:10.1001/jamaophthalmol.2018.1934

  7. Miller T, Xie JS, Qureshi AR, Tao BK, Margolin E. Cardiovascular risk following transient vision loss. Br J Ophthalmol. 2026; published online first. https://bjo.bmj.com/content/early/2025/12/09/bjo-2025-328605

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