
Ismael Marques de Albuquerque, CFP®
Olá, meus amigos.
Estou aqui novamente trazendo um conteúdo de qualidade que acredito ser de grande interesse e, arrisco dizer, de vital importância para a saúde, não a dos seus pacientes, mas a do seu bolso.
Uma situação que presencio com frequência no meu dia a dia como assessor de investimento, e que talvez você já tenha observado na sala dos médicos ou no estacionamento do hospital, é a seguinte: profissionais extremamente competentes, com faturamentos mensais que dariam inveja em 99% da população brasileira, mas que, por alguma razão, vivem com a corda no pescoço. A pergunta que fica no ar é: “Ismael, como é possível ganhar R$ 40 mil, R$ 60 mil ou até R$ 80 mil por mês e não conseguir construir patrimônio?”.
Vou responder essa questão não com um “depende”, mas com um conceito fundamental da economia comportamental: a Inflação de Estilo de Vida, ou, como gosto de chamar, a “Armadilha do Padrão de Vida”. Hoje quero dissecar esse fenômeno, apresentar números realistas e mostrar por que o aumento de renda, isoladamente, não é a cura para a pobreza de patrimônio.
O Fenômeno do “Eu Mereço”
Tudo começa, geralmente, no final da residência médica. Foram anos de estudo intenso, noites mal dormidas, plantões exaustivos e uma remuneração que raramente condiz com o esforço. Quando o título de especialista chega e os primeiros plantões ou atendimentos particulares começam a cair na conta, o cérebro do médico aciona um mecanismo de compensação imediata: o famoso “eu mereço”.
- “Eu mereço um carro importado porque sofri muito no internato.”
- “Eu mereço morar no bairro nobre porque agora sou doutor.”
- “Eu mereço jantar fora toda semana nos lugares mais caros.”
Não me entendam mal: celebrar conquistas é essencial. O problema reside quando o aumento do consumo é diretamente proporcional, ou até superior ao aumento da receita. Se o seu faturamento pula de R$ 10 mil para R$ 30 mil e o seu custo de vida pula de R$ 9 mil para R$ 29 mil, você continua sendo, financeiramente falando, uma pessoa que vive no limite. Você apenas trocou um limite barato por um limite caro.
As Algemas de Ouro
Aqui entramos em um ponto crítico que chamo de “Algemas de Ouro”. Ao elevar o padrão de vida precocemente, o médico assume Custos Fixos elevadíssimos. Financiamento de imóvel de alto padrão, prestação de carro de luxo (com seguro e IPVA proporcionais), escola bilíngue para os filhos, mensalidade do clube, empregados domésticos…
Observem a perigosa matemática por trás disso: Um custo fixo alto retira a sua liberdade de escolha. O médico que tem boletos mensais somando R$ 50 mil precisa trabalhar insanamente para cobrir esses custos. Ele não pode se dar ao luxo de tirar um ano sabático, de reduzir a carga horária para estudar, ou de simplesmente descansar. Ele se torna escravo do próprio estilo de vida que criou. O burnout médico, muitas vezes, não vem apenas da medicina em si, mas da pressão financeira de manter um “personagem” de sucesso que custa caro demais para ser mantido.
A Ilusão da Riqueza vs. A Realidade do Patrimônio
É crucial diferenciarmos dois conceitos que a sociedade costuma confundir: Renda e Riqueza.
- Renda é quanto dinheiro entra na sua conta todo mês. É o fluxo.
- Riqueza (Patrimônio) é o que sobra e se acumula. É o estoque.
Muitos médicos têm altíssima renda, mas baixíssima riqueza. Eles são exímios geradores de caixa, mas péssimos acumuladores de capital. E o mercado, meus amigos, é implacável: ele não quer saber quanto você ganha, mas sim quanto você retém.
Vamos fazer uma simulação prática, para ilustrar o impacto da Armadilha do Padrão de Vida no longo prazo.
Imaginem dois colegas, Dr. Torra tudo e Dr. Poupador, ambos com 30 anos e ganhando líquidos R$ 30.000,00 por mês.
Cenário 1: Dr. Torra tudo – O Dr. Torra tudo adota o estilo de vida máximo que a renda permite. Ele gasta R$ 29.000,00 por mês para manter seu status. Sobram R$ 1.000,00 para investir. Em 20 anos, mantendo essa constância (e assumindo uma rentabilidade real de 5% a.a. acima da inflação), o Dr. Torra tudo terá acumulado aproximadamente R$ 405 mil + Inflação. Pode parecer algum dinheiro, mas lembre-se: o custo de vida dele é de R$ 29 mil mensais. O patrimônio de 20 anos de trabalho não paga nem 15 meses do estilo de vida dele se ele parar de trabalhar. Ele não pode parar.
Cenário 2: Dr. Poupador O Dr. Poupador decide que, embora ganhe R$ 30 mil, ele viverá com um padrão de vida excelente, mas custando R$ 20.000,00. Ele “finge” que ganha menos. Sobram R$ 10.000,00 para investir todos os meses. Nos mesmos 20 anos, com a mesma rentabilidade, o Dr. Poupador terá acumulado R$ 8,1 milhões + Inflação. Além de ter 20 vezes mais patrimônio, o “número de independência” dele é menor, pois ele se acostumou a viver bem com R$ 20 mil, não com R$ 29 mil. Com R$ 8,1 milhões investidos a 5% a.a., ele gera uma renda passiva de cerca de R$ 34 mil mensais para sempre, sem tocar no principal. Ele já é praticamente livre.
A diferença brutal não veio da capacidade de ganhar dinheiro (ambos ganham igual), mas da capacidade de não cair na armadilha de gastar tudo.
O Efeito Diderot na Medicina
Existe um conceito antropológico chamado “Efeito Diderot”, que explica que a introdução de um item de luxo na sua vida cria uma insatisfação com os seus outros pertences, gerando uma espiral de consumo. Você compra o carro de luxo. De repente, suas roupas parecem velhas para andar naquele carro. Você renova o guarda-roupa. Agora, sua casa parece simples demais para estacionar aquela máquina na garagem. Você muda de casa. A mobília da casa nova não combina com a antiga… e assim sucessivamente. Na medicina, isso é potencializado pelo convívio social. Congressos em hotéis 5 estrelas, jantares com representantes, a comparação constante com o colega que trocou de carro. É preciso muita inteligência emocional para dizer: “Isso não é para o meu momento atual”.
Como Escapar da Armadilha?
Se você se identificou com esse cenário, calma. Não estou aqui para julgar, mas para trazer a solução. Sair da armadilha exige método e mudança de mindset.
- Pague-se Primeiro: Antes de pagar o financiamento do carro ou a fatura do cartão, o dinheiro do seu futuro (o aporte mensal) deve sair da conta. Trate o investimento como um boleto que vence dia 05 e que, se não for pago, “corta” sua liberdade futura.
- Defina um Teto de Gastos: Se sua renda é variável (comum em quem faz plantão ou cirurgia), defina seu padrão de vida pelo seu “pior mês”, não pelo melhor. O excedente dos meses bons deve ir 100% para os investimentos, não para o consumo.
- Evite Passivos que Geram Passivos: Cuidado com bens que, além de custarem caro na compra, geram despesas recorrentes (casas de praia, barcos, carros esportivos). Prefira Ativos que geram Renda (FIIs, Ações, Imóveis para aluguel, Títulos Públicos).
- A Regra dos 70/25/5: Viva com até 70% da sua renda, invista 25% dela e guarde 5% para imprevistos. Lembre-se do gráfico que mostrei no artigo sobre o primeiro milhão: o tempo joga a favor de quem começa forte.
Conclusão
A verdadeira riqueza é o que você não vê. São os carros que não foram comprados, as joias que não foram adquiridas, as viagens de primeira classe que foram trocadas por econômica. É essa renúncia momentânea que se transforma nos dígitos da sua conta de investimentos, trabalhando silenciosamente 24 horas por dia para você.
Não caia na ilusão de que “parecer rico” é o mesmo que “ser rico”. O médico rico de verdade é aquele que pode se dar ao luxo de largar o plantão noturno aos 45 anos porque seus rendimentos já cobrem suas despesas. O médico que apenas parece rico é aquele que, aos 60 anos, ainda precisa acordar de madrugada para operar porque as contas não param de chegar.
A escolha de qual médico você será daqui a 10 ou 20 anos é tomada agora, a cada vez que você decide entre elevar seu padrão de vida ou elevar seu patrimônio.
Escrevi esta coluna porque sei que a pressão social nesta área é gigantesca, mas acredito que a tranquilidade de colocar a cabeça no travesseiro sabendo que seu futuro está garantido vale muito mais do que qualquer status passageiro.
Vamos juntos fazer o necessário para atingir esse objetivo de liberdade. Se você sente que seu padrão de vida está consumindo todo o seu potencial de riqueza e precisa de uma estratégia para reverter esse jogo, conte comigo. Posso ajudá-lo a organizar a casa e traçar um plano eficiente para que seu dinheiro cuide de você tão bem quanto você cuida dos seus pacientes.
Precisa de ajuda com seu planejamento financeiro ou quer rever sua carteira de investimentos? Dúvidas ou sugestões? Por favor nos envie no email: [email protected] ou através do nosso Whatsapp no QR-Code.
Obrigado e concluo dizendo: “Estamos de olho no mercado!”





