Tempo de leitura: 4 minutos

Por Marina Almeida

O mercado de inovação em oftalmologia no Brasil vive um momento raro. Pela primeira vez, startups nacionais, nascidas em cidades médias, universidades e laboratórios, começam a disputar espaço com soluções internacionais e, mais importante, a preencher lacunas históricas de acesso à saúde ocular.

Phelcom Technologies, RedCheck e outras iniciativas tiraram o ecossistema da posição de consumidor de tecnologia e o colocaram como produtor de soluções que nascem de urgências locais.

O que se vê agora é um movimento que mistura ciência, propósito e execução. Não é apenas tecnologia: é a tentativa de resolver problemas reais, como a desigualdade de acesso, a falta de integração de dados e a sobrecarga de profissionais que atendem regiões inteiras com poucos recursos.

 

Um ecossistema que nasce de dores reais

Lucas Leardini, COO da RedCheck

As narrativas das startups brasileiras de oftalmologia raramente começam em salas de reunião. Quase sempre, nascem de vivências concretas — muitas delas longe dos grandes centros. A RedCheck, por exemplo, surgiu da experiência de seus fundadores no Pará, região onde o acesso ao oftalmologista é limitado e desigual. “O acesso é ainda pior por limitações geográficas e a distribuição assimétrica dos profissionais. Vivendo o problema diariamente, chegamos à conclusão de que era preciso criar algo que entregasse impacto real”, explica o CPO da empresa, Rafael Scherer.

Essa percepção ecoa no relato do COO Lucas Leardini, que vive no interior de Goiás e testemunha diariamente o vazio assistencial: “Trinta por cento da população nunca foi ao oftalmologista. Há cidades que mandam ônibus cheios para consultas a três horas e meia de distância. Com a tecnologia que temos hoje, isso não faz mais sentido”.

É nesse contexto que a RedCheck cresceu: oferecendo uma plataforma capaz de unificar imagens, gerar laudos, integrar equipamentos antigos e conectar especialistas remotos, abrindo caminho para triagens itinerantes e programas públicos de grande escala.

Segundo o CMO Alexandre Rosa, a proposta inicial era pragmática: “A RedCheck surgiu para resolver uma dor muito grande do médico: o gerenciamento de imagens e laudos. Com o tempo, evoluímos para uma central de imagens completa, que dá mais liberdade ao médico e mais organização ao cuidado”.

 

Phelcom: quando ciência aplicada encontra escala global

José Augusto Stuchi, CEO da Phelcom Technologies

Se a RedCheck nasceu do vazio assistencial, a Phelcom Technologies nasceu da interseção entre ciência aplicada e histórias pessoais. Criada por três pesquisadores, um físico, um engenheiro eletrônico e um cientista da computação, a empresa buscou transformar equipamentos complexos em soluções portáteis, conectadas e inteligentes. “A virada aconteceu quando levamos os primeiros protótipos para campo, ouvimos médicos, ajustamos tudo na prática e validamos o uso em larga escala”, lembra o CEO José Augusto Stuchi.

Transformar o protótipo no retinógrafo portátil Eyer significou criar fábrica própria, estrutura regulatória e padrões de qualidade equivalentes aos exigidos pelo FDA e por mercados como EUA e Japão. “Foi decisivo evoluirmos técnica e culturalmente. Passamos a operar como empresa global de dispositivos médicos, com disciplina, processos e adaptação a diferentes mercados”, explica Stuchi.

Mas o futuro da empresa não está apenas no hardware. “Somos uma plataforma: hardware, nuvem e IA. O hardware é essencial, mas os dados e a análise inteligente serão cada vez mais parte central do nosso impacto”, afirma.

 

IA, colaboração e o papel do médico

Se há um tema que une todas as entrevistas, é a convicção de que a inteligência artificial não substituirá o oftalmologista, mas ampliará seu alcance. A RedCheck resume isso com precisão ao defender o conceito de human in the loop: “O médico sempre tem a decisão final. Nenhum laudo sai sem um clique do médico. A IA é usada para apoiar — melhorar contraste, sugerir escrita, apresentar exames similares, mas nunca para substituir”.

O COO Lucas Leardini reforça o caráter ético e prático da solução. “Nossas ferramentas fazem o médico ganhar tempo sem perder controle. A cada exame, economizamos até dois minutos. No fim do mês, isso vira produtividade, cirurgias a mais, consultas a mais, e mais pacientes assistidos”.

Paulo Schor, coordenador-adjunto de Pesquisa para Inovação na FAPESP

Para oftalmologista e coordenador-adjunto de Pesquisa para Inovação na FAPESP, Paulo Schor, referência nacional em inovação, a relação entre médico e IA exige lucidez: “A IA é uma ferramenta poderosa para ver o que não vemos e aumentar a produtividade. Mas também traz angústia porque acelera processos que levaram séculos. Vamos precisar desenvolver uma sensibilidade humana extra-máquina para usá-la bem”.

Schor faz uma provocação importante: inovação não é só novidade, é uso, acesso, aplicação real. “Inovação não é a tecnologia mais moderna, mas aquilo que chega à população. É resolver problemas como prescrição de óculos e acesso básico. O gargalo está menos na ciência e mais na implementação”.

 

Quando a inovação convida a pensar sobre o futuro

No fim, estamos diante de uma transformação silenciosa e profunda. Para Schor, fazer empreendedorismo científico como hobby é receita para o fracasso. “O que falta é dedicação total, responsabilidade e propósito verdadeiro. A inovação em saúde ocular no Brasil não é mais tendência, é realidade. E a pergunta agora não é se ela virá, mas qual papel cada um de nós terá nesse movimento”.

No país das desigualdades, transformar ideias em impacto talvez seja o gesto mais revolucionário que a oftalmologia pode oferecer.

 

Qual é o papel das ideias?

Mais do que destacar tecnologias, é importante refletir sobre o valor das ideias quando aplicadas com propósito. Schor deixa a frase que sintetiza essa nova era: “Inovação é uso. É fazer chegar. É tornar acessível.”

É nessa interseção, entre a ciência que encontra campo, a tecnologia que encontra propósito e a clínica que encontra eficiência, que nasce a verdadeira revolução da saúde ocular brasileira. E, no centro desse movimento, permanece uma pergunta essencial:

Que ideias ainda estão presas no laboratório, e o que falta para que elas finalmente cheguem a quem precisa enxergar?

 

Compartilhe esse post