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Três décadas se passaram e há um mês reencontrei o amigo Olaf Kraus. Alemão, Bahiano, Médico e hoje Professor Associado da McMaster University, Hamilton, Canadá. Escrevemos juntos esse discurso de formatura na Faculdade de Medicina da USP de Ribeirão Preto. São inúmeras as semelhanças com os dias de hoje. Agora mais maduros, críticos e socialmente referenciados, seguimos mudando, sendo humanos.
“A escola vai passar!
A comissão de frente aparece em tons de verde simbolizando as trinta e duas turmas que por aqui já passaram, Centro Acadêmico e Associação Atlética Rocha Lima além da própria Faculdade de Medicina. Atrás dela vem o primeiro bloco, pessoas meio perdidas com “orelhas cor-de-violeta”, cabeça quase sem cabelo, calca de brim manchada por tinta e no rosto uma alegria brilhante que dança de uma a uma, e se espelha na multidão.
Jornal picado comemora a primeira ala, e impresso nos pedacinhos lê-se: Otavio Augusto, Denise Maria, Pinheiro Barbosa, Raquel Araujo. Quase junto a esta vem uma ala imensa, com uma atitude circunspecta, pessoas que parecem gigantes, inacessíveis. No meio do grande bloco vemos uma alegoria. Um ser pequeno e franzino tentando subir numa pilha de livros – Stryer, Gardner, Lenninger, Sobotta, Junqueira, Ham, para alcançar os ouvidos seletos de um destes grandes senhores.
Estamos ainda em 1984, e já tínhamos percebido que haviam mais inúmeras barreiras a se ultrapassar. As pessoas de nossa escola imaginária iam crescendo e ficando mais próximas aos “enormes” professores. Criavam-se entidades e grupos se formavam com objetivo de morar junto, comer junto, estudar junto ou simplesmente estar junto.
A escola continua a sua marcha e calada ficou quando perdemos um dos nossos grandes nomes. Fundador do Departamento de Clínica Médica, ex-reitor da USP, exilado político e diretor da Faculdade de Medicina, falecia a 14 de março de 1985, o professor Hélio Lourenço de Oliveira, exemplo de médico, professor universitário e pesquisador. Defensor dos interesses da instituição pública, dos alunos, preocupado com a autonomia universitária e com o modelo de saúde, antecipando em anos a participação da faculdade na assistência extramuros na comunidade.
Blocos se sucedem sem muita variação, são na sua maioria grandes carros com mecanismos complexos. Chegam alguns mecânicos e muitos curiosos tentando entendê-los. Continuam os curiosos sem saber bem sua função. Começa a se formar um outro bloco, que virou “coração de mãe”, nele temos companheiros que vieram de outras turmas e que mais cedo ou mais tarde foram adotados. Continua como fundo uma mania da classe, a de ganhar incessantemente as competições esportivas do Interclasses, tendo nas mulheres sua maior força.
Depois de muito tempo aparece uma porteira com os dizeres “Adeus Básico”. Era o primeiro grande passo. E a festa desce de novo as ruas comemorando o fim da teoria pura e a busca do médico que sonhávamos ser.
Dezenas de estetoscópios enfeitam as fantasias brancas de jovens médicos que faziam das mãos seu instrumento de trabalho, e foram ensinados a ter no raciocínio seu maior aliado.
Maravilhados fomos divididos e cada subturma ficava com uma parte do corpo. Primeiro vinha o sangue, depois coração e pulmão, aí os rins e por fim o estômago com intestinos. Isto pela manhã pois ã tarde tínhamos sistema retículo endotelial, órgãos reprodutores, drogas e medicamentos, mortalidade infantil e o estudo de catástrofes. Não tínhamos ideia do que nos esperava adiante: Vinte e cinco micros estágios com cinco semanas de duração, período integral e prova final.
O samba começou a ficar quadrado, virou marcha e bossa nova. No fim de cada curso éramos doutores em Imunologia, Otorrinolaringologia ou mesmo Medicina Legal, mas no final do ano parecia que o sol da praia evaporava nossa erudição, e a água do mar lavava o que tinha sobrado.
Começamos aí a conhecer nossas forças, passando em claro o primeiro plantão na Toxicologia e tendo de dormir projetando slides no dia seguinte, ou tremendo na hora de suturar mais uma episiotomia no plantão interminável do Centro Obstétrico. A roupa branca já tinha manchas de sangue, e isso ainda era um troféu para os valentes alunos.
Estamos no meio da avenida.
Começava a ficar patente a necessidade de nos inclinarmos por uma ou outra área, e a escolha era nossa. Dúvidas, pesos e medidas, intuição e vocação, dados que se fundiam e muito nos confundiam. No fim do vigésimo primeiro estágio éramos neurologistas. No começo do vigésimo terceiro éramos anestesistas, cirurgiões, intensivistas? Carregamos deste quinto ano toda a preparação para um grande final, sabíamos tratar um pulmão de choque, e até os passos de uma histerectomia, agora era passar em frente aos jurados.
Começo de ano e vemos os nossos doutores com as caras cansadas, mas de malas novas, agora sem espaço para cadernos, acreditando que as informações e ações tinham passado do papel para os neurônios, mas temendo por não saber bem como isso tinha ocorrido. Parou a bateria da escola no primeiro dia de estágio. Dia nove de janeiro foi o dia “D” (de desespero). Alguns não sabiam a dose de Lidocord, outros não sabiam o que era Lidocord.
O tempo voava. Contávamos os itens das prescrições, o número de pacientes, não conseguimos contar quantas vezes perguntamos a mesma coisa ao residente do lado. O comentário era geral: preciso estudar, e estudamos. E no fim do primeiro mês as informações voltaram a aparecer. Sem tanta afobação fomos aprendendo inúmeras vezes mais do que nos anos anteriores, crescemos para além de nossos limites e no fim de cada estágio éramos mais médicos.
Em alguns locais houve mais respeito que em outros, sendo que na maioria deles tivemos que brigar para sermos ouvidos, em poucos nem brigando fomos considerados. Parecia que este tempo não ia mais ter fim, que o crescimento ia ser uma constante e a segurança chegara para ficar. Tudo era interessante, tudo importante, a fantasia ia ficando cada vez mais branca, impecável. A imagem do profissional foi sendo esculpida com todo o cuidado, atentando-se a detalhes, formas, cor, movimentos. A ansiedade de poder assinar o nome nas fichas rosa de atendimento, pedir exames, definir um diagnóstico, era incontrolada.
E assim a Escola foi entrando pela portaria principal no corpo de nosso Hospital.
Descobrimos que o elevador 1 era o mais rápido, mas o que ficava mais longe, que no 7 encontrávamos todo mundo, era o mais próximo, mas demorava horas, que o 2 só levava pacientes e o 9, roupas. Que o crachá era indispensável, até que se pendurasse o estetoscópio no pescoço, e que nas salas que acabavam com 30 tínhamos aulas. Que à direita ficava a ala “B” e a esquerda a “A”, só na psiquiatria e que tinha só ala “A”, e a “B” ficava trancada. Que o hospital tinha mesmo 12 andares e que o vão do primeiro para o segundo andar era maior que os outros, para que pudéssemos assistir as cirurgias por vidros, que nunca existiram.
Vasculhamos, rastreamos e descobrimos toda a nossa Unidade de Emergência, e lá aprendemos a tratar de pacientes, não de doenças. Desmanchamos a relação médico-paciente do papel e construímos outra relação ao vivo, apreendendo, cada um a seu modo, a lidar com o sofrimento e a morte.
Nos professores homenageados tivemos verdadeiras raridades de dedicação e competência profissional. Eles nos foram exemplo de como ser professor, sem deixar de ser médico. São pessoas que tem um compromisso com a qualidade. Nos trataram como alunos e futuros médicos, e não como um estorvo, um mal necessário que faz parte da carreira universitária. Nos fizeram assumir responsabilidades por acreditarem em nós, e não porque representássemos mão-de-obra fácil. Com eles pudemos dividir a alegria de sermos úteis e o orgulho de estarmos sendo competentes.
Família e amigos aqui presentes, vindo compartilhar felicidade, e nós ainda cheios de dúvidas e ameaças, problemas a resolver. Uns impedidos de voltar ao seio de suas famílias, outros de casar, porque as Forças Armadas nos querem, como se durante nosso curso, cuidando da saúde do povo brasileiro, não estivéssemos servindo a pátria.
Hoje nos formamos médicos. Temos a ciência de quem somos, do que podemos e até aonde, sabendo a quem recorrer e quando.
Coincidentemente nos mantivemos todos juntos até aqui, e brigávamos por um ideal, mais que isso, por um direito, o de escolher. Tínhamos com inimigo mais do que pessoas. O pais se voltava para si mesmo, contra as interferências, pelo seu crescimento, para seu bem-estar. Exigimos estar cientes de nosso amanhã.
Queremos escolher o presidente do Brasil.
Lutamos e gritamos para ter uma identidade, para influir no nosso destino, para sermos respeitados como ser único e valorizados pelo nosso desempenho, para isso apreendemos a sensação de ser um em um milhão, e na Praça da Sé ou no Vale do Anhangabaú vivemos um momento sublime ao gritarmos em Coro:
Diretas já!
Era a esperança de poder continuar gritando sem ter de ouvir em cadeia nacional que “eu prendo e arrebento” Os postes que iluminavam a nossa passarela pintavam-se de verde e amarelo, e havia a promessa de uma urna no fim do caminho. Madrugada de 26 de abril de 1984 e só a voz no rádio dizia, diretamente de Brasília, que o caminho era mais longo. Que ainda estamos submissos a um grupo escolhido de “doutores”.
Todos vocês foram muito importantes para que pudéssemos chegar até aqui, chegar ao que somos. E somente cada um de nós sabe o que sente agora, resultado de seis anos de Faculdade de Medicina. Chegamos ao final do desfile.
Parabéns mestres, pais, amigos, e especialmente a vocês colegas. Começamos hoje conseguindo passar um marco importante e finalizar de pé. Ainda não vencemos, alguns com certeza perderam, foram abandonados pelo caminho, parabéns a estes pela honestidade e coragem.
Amanhã. A realidade pintada de amarelo, o fim do caminho com a urna prometida. Hoje um diploma, amanhã um voto. Dois atos simples e claros que não se encerram em si. Hoje mais oitenta e dois doutores. A mescla de sonho e realidade, o sentimento puro e a euforia, que no fim do desfile da escola, a escola que já passou, se transforma em apoteose.
Convidamos todos vocês a compartilhar desse momento.
Obrigado.”

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