
Emílio Rintaro Suzuki Jr. – Professor Oftalmologia – PUC Minas; Presidente da Sociedade Brasileira de Glaucoma

Marcelo Jarczun Kac – Mestre em Ciências Médicas – UFF; Professor Oftalmologia – UFF
O Inimigo Que Ninguém Vê Chegar Ele não provoca dor. Não causa incômodos.
Não dá sinais até estar muito avançado.
O glaucoma é, por definição, uma doença silenciosa — e é justamente esse silêncio que o torna tão devastador. É a principal causa de cegueira irreversível no mundo, afetando hoje mais de 76 milhões de pessoas. Em 2040, serão mais de 111 milhões.
E o custo dessa invisibilidade é enorme: a OMS estima que a deficiência visual gera uma perda anual superior a US$ 410 bilhões, e o glaucoma é um dos principais responsáveis por esse impacto econômico.
O Brasil dentro dessa tempestade
No Brasil, calcula-se que 1,5 a 2 milhões de pessoas convivam com glaucoma. A maior parte não sabe.
O retrato mais preciso que temos vem do “Projeto Glaucoma”, que avaliou 1.636 adultos acima de 40 anos no Sul do país:
– Prevalência total: 3,4%
– 87% tinham glaucoma de ângulo aberto (GPAA)
– 13% tinham glaucoma de ângulo fechado (GPAF)
– Mais de 90% não sabiam do diagnóstico (Sakata et al., 2007)
Os números são alarmantes — e eles se repetem, com poucas variações, em centros de referência de diversas regiões.
Em Minas Gerais, um estudo clínico-epidemiológico encontrou a seguinte distribuição entre pacientes atendidos:
47,6% — Glaucoma primário de ângulo aberto (GPAA)
3,7% — Glaucoma primário de ângulo fechado (GPAF)
2,0% — Glaucoma de presão normal (GPN)
1,9% — Glaucomas secundários
0,9% — Glaucoma neovascular (Diniz et al., 2021)
Ou seja: o GPAA domina o cenário brasileiro, seguido do PACG, e o glaucoma secundário — embora menos frequente — é o mais agressivo e de maior custo funcional e econômico.
| Os Tipos de Glaucoma no Brasil
Glaucoma primário de ângulo aberto (GPAA) ✔ 47–88% dos casos ✔ Assintomático por anos ✔ Principal causa de cegueira irreversível
Glaucoma primário de ângulo fechado (GPAF) ✔ 3–13% dos casos ✔ Pode causar crises dolorosas ✔ Mais frequente em hiperopes e povos asiáticos
Glaucoma de pressão normal (GPN) ✔ 2% dos casos ✔ Danos com PIO “normal” ✔ Exige investigação minuciosa
Glaucomas secundários ✔ 1,9% dos casos ✔ Neovascular é o mais grave (0,9%) ✔ Associado a diabetes, trombose, uveítes e trauma |
A face mais cruel da doença: o diagnóstico tardio
Em países de renda média como o Brasil, até 35% dos pacientes chegam ao especialista já cegos em um dos olhos.
A explicação é simples e assustadora:
– o glaucoma não dá sinais precoces;
– o brasileiro procura o oftalmologista apenas quando tem sintomas;
– 30% fazem “exames” em óticas e acreditam estar seguros;
– o desconhecimento sobre a doença é profundo.
E a consequência disso é um país convivendo com uma epidemia silenciosa de cegueira evitável.
O maior estudo já realizado sobre o tema — com 1.104 participantes em todas as regiões do Brasil — revelou um abismo informacional.
Que o brasileiro realmente sabe sobre glaucoma?
– 52,5% não sabem diferenciar glaucoma de catarata
– 41% acreditam que o glaucoma tem cura
– 47% acham que a cegueira é reversível
– 13,9% sabem que é uma doença do nervo óptico
– 35% não conhecem o risco dos corticoides
– 30,3% já fizeram “exame” em óticas
– 58,7% querem mais informações
Quem menos sabe sobre glaucoma?
– jovens (< 40 anos)
– moradores do Norte
– pessoas com baixa escolaridade
– quem nunca consultou um oftalmologista
Os Mitos Mais Perigosos
– Glaucoma tem cura
– Glaucoma melhora com óculos
– Cegueira por glaucoma é reversível
– Catarata e glaucoma são a mesma coisa
Maio Verde: A revolução silenciosa da conscientização
Criado pela Sociedade Brasileira de Glaucoma (SBG) em 2014, o Maio Verde tornou-se a maior campanha nacional dedicada à prevenção da cegueira por glaucoma.
Durante o mês de maio, o país se ilumina — literalmente — de verde. Monumentos, hospitais, pontes e prédios públicos ganham luzes temáticas. Mutirões orientam a população.
Lives informativas alcançam milhares.
Materiais didáticos chegam a escolas e unidades de saúde. O Brasil finalmente começa a falar sobre glaucoma.
Mas ainda é pouco.
Estudos mostram que o conhecimento melhora durante o Maio Verde — mas o efeito se perde nos meses seguintes.
O futuro da campanha precisa ser permanente, e não apenas sazonal.
O custo da cegueira: a conta que o Brasil não quer pagar, a cegueira por glaucoma custa caro — e não só para o SUS.
Para o paciente e família:
– perda de emprego ou renda
– dependência de cuidadores
– depressão, isolamento
– risco de quedas e fraturas
Para o país:
– aposentadorias precoces
– aumento de internações
– menor produtividade laboral
– custo direto de tratamentos avançados
– impacto sobre cuidadores familiares
Estudos internacionais e dados da OMS apontam que a perda de produtividade global ultrapassa US$ 410 bilhões/ano. E a maior parte desse prejuízo está associada a doenças irreversíveis como o glaucoma. Investir em educação, diagnóstico precoce e campanhas como o Maio Verde não é gasto, é economia.
A hora de virar o jogo
O glaucoma não avisa. Não dói. Não espera. E continua cegando milhões de brasileiros. Mas há uma boa notícia: a cegueira por glaucoma é evitável quando a doença é detectada cedo. Por isso, o Brasil precisa ampliar o acesso ao oftalmologista; integrar a Atenção Primária ao rastreamento; combater mitos e desinformação; fortalecer e tornar permanente o Maio Verde; educar a população antes que a doença avance. A tecnologia existe. O tratamento existe. A informação precisa existir também — e chegar antes da cegueira.
Referências
- Guedes RA, Suzuki Jr ER, Belfort AF, Chaoubah A. Conhecimento e hábitos da população brasileira em relação ao glaucoma. Rev Bras Oftalmol. 2025;84:e0071.
- Suzuki Júnior ER, Belfort AF, Pereira VC. Global and national epidemiology of glaucoma: prevalence, burden, and public health implications. Rev Bras Oftalmol. 2025;84:e0094.
- Sakata K, Sakata LM, Sakata VM, Santini C, Hopker LM, Bernardes R, et al. Prevalence of glaucoma in a South Brazilian population: Projeto Glaucoma. Invest Ophthalmol Vis Sci. 2007;48(11):4974–4979.
- Diniz ER, Ferreira GFM, Cotta BSS, Chiodi VLS, Assumpção PV, Magalhães LL, et al. Perfil clínico epidemiológico de pacientes com glaucoma atendidos em um serviço de referência em oftalmologia do estado de Minas Gerais. Rev Med Minas Gerais. 2021;31:e31103.
- World Health Organization. Blindness and Vision Impairment — Factsheet, 2023–2024.
- IAPB — International Agency for the Prevention of Blindness. Vision Atlas, 2024.



