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O oftalmologista Paulo Schor entrevistou, no dia 17 de março de 2022, no Programa RX – Por dentro da sua próxima receita médica!, a médica infectologista e consultora em saúde pública global Luana Araújo, que leva os ouvintes a refletirem sobre a importância de entendermos que a saúde pública é feita pelas pessoas e para as pessoas, e administrada, fomentada e organizada por governos em todas as suas esferas.  

Ela aborda também a relação entre saúde pública, educação, segurança, emprego, economia, bem-estar e saúde mental, e deixa claro, ainda, que a produção de vacinas contra a Covid-19 foi possível porque o mundo se uniu em busca de informações, seguindo crivos específicos e rígidos, o que possibilitou a produção em tempo recorde, uma vez que houve investimento recorde. Confira abaixo a entrevista na íntegra com a especialista.  

 

Paulo Schor: A Luana possui uma história bastante interessante e parecida em algumas partes com a história da minha família. Ela se formou no curso de medicina da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e depois cursou residência em infectologia na mesma universidade. Depois ela foi para Baltimore (EUA), na Johns Hopkins University, para fazer um programa de mestrado em saúde pública. Voltou para o Brasil, em que testemunhou e participou do processo de combate ao novo coronavírus, quando foi convidada para ocupar o cargo de secretária Extraordinária de Enfrentamento à Covid-19 do Ministério da Saúde (MS), saindo posteriormente da secretaria 

No momento ela está envolvida com o Hospital Albert Einstein, em big data e construção de políticas públicas. Luana, eu acho que vale muito a pena a gente ouvir tudo o que você tem para falar a respeito da importância da saúde pública em um país que é conhecido por ter criado o Sistema Único de Saúde (SUS), mas, ao mesmo tempo, sabemos que é um país que tem uma grande deficiência, não só de financiamento do SUS, mas de acesso ao SUS, de modernização do SUS e de incorporação de tecnologias; enfim, existe muita coisa para a gente abordar. Muito obrigado, Luana, por ter aceitado o convite. 

Luana Araújo: Imagina, Paulo, eu também estava ansiosa para participar do podcast. Te agradeço imensamente. Sou uma admiradora do seu trabalho e fico muito feliz pelo convite e vamos, sim, falar sobre isso tudo. 

 

Schor: Legal. Acredito que poderíamos começar falando um pouco de receita pública. Eu tenho pensado sobre quanto o Estado participa do processo de prescrição e de saúde do cidadão sem o cidadão perceber. O nome do podcast é por dentro de sua próxima receita médica”, e eu acho que existe uma confusão entre o que é direito e o que é dever, o papel do Estado no cuidado da saúde, e um desconhecimento mesmo das pessoas em relação a como o Estado cuida do seu cidadão. Não quer falar um pouco sobre isso? Eu acredito que é bem básico e filosófico para as pessoas entenderem o conceito de saúde pública. 

 

Luana: Pois é, Paulo, no final das contas, isso de filosófico tem muito pouco, a gente acha que é filosófico porque há uma dificuldade de compreensão da tangibilidade de determinados conceitos. Mas quando entendemos o que é, a gente vê que é o nosso dia a dia, é a nossa prática, é a nossa vivência enquanto cidadão. Saúde pública é muito mais do que oferta de um serviço de saúde, é muito mais do que uma consulta médica, do que um exame, do que uma internação; isso não está restrito a um posto de saúde, a um laboratório, a um hospital. A saúde pública, na verdade, engloba educação, segurança, emprego, economia, bem-estar, saúde mental, quer dizer, são muitos outros aspectos que envolvem a saúde pública, porque ela vai muito além do conceito de não estar doente”. Essa ideia de que saúde simplesmente é negação de doença é completamente anacrônica.  

Nós já passamos por um período em que considerávamos isso, hoje vivemos uma época em que já compreendemos que a saúde individual e a saúde pública vão muito além dessa história. E isso é tão na prática que acabamos de passar por um problema gravíssimo, quer dizer, acabamos de passar não, estamos ainda caminhando para sair da fase mais grave da pandemia. Portanto, quando olhamos para a pandemia, entendemos o quanto ela rompeu com todos esses laços que compõem a saúde pública, porque não se trata apenas de uma doença. A Covid-19 atrapalhou a educação das pessoas, se alimentou dessa deficiência educacional, mexeu com a economia, com o emprego, com a segurança das pessoas. E se entende que não adianta estarmos sem a doença quando estamos sem emprego. Isso influencia a sua saúde e a saúde da população como um todo. No final das contas, são duas coisas importantes. A primeira é que a saúde pública não tem esse nome à toa. Ela depende das pessoas, depende da população; e a segunda questão é que ela é muito mais palpável do que as pessoas estão normalmente acostumadas a pensar. 

 

Schor: Ótimo. Isso qualifica e traz para o chão uma discussão que poderia ser vista como sendo teórica, que é o que você fala. Saúde pública é feita sempre por governo? 

Luana: Saúde pública nunca é feita por governo! saúde pública é feita pelas pessoas. Ela é administrada, é fomentada, é organizada por governos em todas as suas esferas, seja ele um governo comunitário, dependendo do país onde as pessoas estejam, um governo local, municipal, estadual, federal, mas isso é apenas uma organização, uma gerência a saúde pública é feita por e para as pessoas. Aí de novo a gente sai da teoria e volta para a prática. E eu volto para o exemplo da pandemia, porque é o mais atual na cabeça das pessoas. Não adianta nada, por exemplo, o governo dizer para as pessoas usarem máscara se as pessoas não usam máscara. Não adianta eu fornecer vacina se as pessoas não vão tomar a vacina. Quer dizer, essa organização, esse gerenciamento existe em todos os níveis governamentais. Mas a execução, a produção da saúde, que é um conceito que as pessoas também não levam muito a sério, não cai do céu. A produção da saúde é feita pelas pessoas e para as pessoas. 

 

Schor: E isso é muito significativo quando a gente vai estudar alguns exemplos de tentativa de imposição de modelos “goela abaixo”, top-down versus bottom-up, na qual também já passou a época de nós, imperialisticamente falando, irmos para povos menos favorecidos, falar como é que eles devem fazer, e de as pessoas virem aqui também e fazer como a gente tem que fazer. Ainda bem. 

Luana: Sim, é o neocolonialismo das pessoas saírem dos seus lugares, irem lá e acharem que sabem mais sobre aquela comunidade do que as próprias pessoas da comunidade. Essa ideia de que a saúde é construída pelas pessoas traz uma outra ideia muito clara, que é de contextualização: o que serve para um lugar não necessariamente serve para outro. Pode ser até que sirva, mas em um outro momento; isto é, é preciso granularizar sempre a saúde pública e entender o que funciona para determinado contexto, para que consigamos chegar ao final, e que deve ser sempre o resultado perseguido por todo mundo, que é a melhoria da saúde das pessoas, dos desfechos clínicos. Às vezes medimos saúde pública por indicadores que são muito errados, não é simples, mas eles não são exatamente reveladores da realidade. Ter pessoas em tratamento ou ter pessoas em diagnóstico, que às vezes são indicadores utilizados, não significa que elas estão tendo a sua vida melhorada por conta da sua intervenção. Portanto, entender isso, contextualizar isso, é fundamental na saúde pública. 

 

Schor: Tem que levar a cultura em consideração e acho que a funcionalidade também, que é uma coisa que também tem se falado muito, se essa pessoa se sente funcional naquele estado ou disfuncional. Isso não quer dizer que o paciente concorde com o nosso diagnóstico de funcionalidade ou não, a questão da funcionalidade tem que ser perguntada para ele. 

Luana: Exatamente, e tudo tem que ser centralizado na pessoa e não em nós. Esse é um movimento que tem acontecido na saúde pública como um todo, mas deve acontecer na medicina, por exemplo, e também tem sido tentada a inclusão desse pensamento da medicina ser centrada no paciente, assim como a saúde pública deve ser centrada nas pessoas. Houve uma guinada muito grande do que é feito em termos tanto de medicina quanto de saúde pública, e não digo nem nas últimas décadas, mas nos últimos séculos. É um movimento difícil, mas que eu considero irreversível. 

 

Schor: Eu sou absolutamente a favor desse pensamento, acredito que a gente só consegue navegar nisso ouvindo as pessoas, mas ouvindo as pessoas nos últimos detalhes. Se as pessoas forem bem esclarecidas, e aí não estou falando de politização de pandemia, mas se elas forem realmente bem esclarecidas, eventualmente podem tomar decisões pessoais que afetam o público, mesmo com o seu esclarecimento. Como que se maneja isso? Da autonomia total” do paciente e do público sendo afetado pela decisão que o paciente toma ou não toma. Entende um pouco dessa dicotomia? 

Luana: É, entendo e vivo isso, todos vivemos. Bom, eu acho que a primeira grande lição desse tipo de circunstância é a de que educação é parte da saúde pública. E quando estamos falando de educação, não é só de comunicação em saúde, quer dizer, você falar para a pessoa sobre aquele tópico específico, mas educação básica, compreensão de conceitos básicos, interpretação de texto, coisas que, para a pessoa que está longe, que está fora desse ambiente, parecem que não são conectadas, mas são absolutamente interligas. Um povo mais esclarecido, mais educado nesse sentido, mais bem formado na sua base educacional, é um povo que sempre responde de maneira mais rápida e mais eficaz às ameaças que chegam e que colocam a sua resiliência em jogo. Povos que, infelizmente, têm uma dificuldade educacional básica são povos muito mais vulneráveis. A gente viu isso acontecer, e de novo não estamos falando em nenhum momento sobre questões políticas, partidárias. Estamos falando de formação educacional de um povo.  

Isso posto, precisamos sempre ouvir as pessoas, mas é preciso também que a gente compreenda e que faça esse meio de campo entre o que as pessoas podem fazer na sua liberdade, na sua autonomia, mas lembrar que não existe liberdade e autonomia sem responsabilização e que ninguém tem direito de colocar a vida da outra pessoa sob risco. Nem sempre é fácil entender isso, nem sempre é fácil aplicar isso, mas eu acredito que os grandes balizadores são esses; as pessoas têm direito de fazer o que elas quiserem, contanto que não coloquem outras pessoas sob risco. Infelizmente, essa não é uma exclusividade nossa, essa dificuldade existe em muitos outros países que, teoricamente, têm um nível educacional melhor do que o nosso, e eles também respondem com essas fragilidades. Mas o que eu acho que nós compreendemos agora é o quão heterogêneo é a nossa população, temos pessoas que compreendem e tentam ajudar, assim como temos também uma quantidade de pessoas que acaba, pelas mais diversas razões, por deficiência cognitiva, moral, educacional, por interesse, por dolo, colocando outras pessoas em risco.  

 

Schor: Eu acho que é brilhante essa colocação, simples e clara, você não pode colocar o outro em risco e isso é o que você falou, não é partidário, é simplesmente do ser humano. Vamos entrar um pouco, então, na história de confiabilidade do sistema e acho que vale a pena passar alguns conceitos de evidência, que para nós são óbvios, mas falar para as pessoas sobre o que tem sido oferecido a elas, que tem uma validade e uma confiabilidade maior ou menor, e que isso é estudado, ou seja, que não é da minha cabeça ou da tua cabeça, não é assim. Existem níveis de evidência de uma vacina, de um medicamento, e não existem níveis de evidência, por exemplo, quando eu vou em um congresso e falo “na minha opinião”, esse nível de evidência é zero. Mas acho que é importante falarmos para as pessoas que existe um estudo nesse sentido e que existe um nível de confiabilidade, apesar da ciência ser probabilidade, e da probabilidade ser muito menor da coisa dar errada, ou ter acontecido ao acaso, porque existe um nível de evidência grande por trás disso. 

Luana: É, e isso é tão sério, Paulo, que eu acho que esse período pelo qual passamos recentemente é muito marcante para a maior parte das pessoas, porque é a primeira vez que elas estão vendo a ciência por dentro. Nós estamos fazendo ciência sob o escrutínio público. É a primeira vez que isso acontece assim, de forma tão ostensiva. E aí eu entendo que as pessoas tenham dificuldade com a inconstância do processo científico, porque acho que na cabeça de todo mundo existe uma ideia bastante rudimentar de como é que isso funciona, como se fosse um trem que fosse inexoravelmente caminhando numa reta até chegar no resultado final. Mas não é assim, a gente dá um passo à frente, dois para trás, três para o lado, cinco para frente e por aí vai. Essa noção dessa dificuldade, de como isso funciona dessa maneira, eu entendo que leva algumas pessoas a não compreender da melhor forma, ou a se sentirem mais tensas, digamos assim, com o processo.  

Por isso é muito importante falar sobre essa questão das evidências. Quando nós emitimos uma opinião na ciência, vamos falar da medicina propriamente dita ou da saúde pública, mas quando emitimos uma opinião é porque não temos evidência daquilo. Quer dizer, não temos uma base de informações sólidas, confiáveis, testadas no mundo inteiro, com todo um protocolo que é feito para que isso tenha solidez. Quando não temos isso, a gente fala eu acho”, mas a partir do momento que isso existe, não tem mais o achismo”, não tem mais a minha opinião, não existe isso. A gente até pode ouvir alguém falar na minha opinião faz assim”, e podemos levar a sério se for uma doença raríssima, que é a primeira vez que a pessoa está ouvindo falar, um quadro completamente fora do habitual, o que talvez pudesse, inclusive, ser tolerado em algum grau por um breve período lá no começo da pandemia.  

Mas o que aconteceu na pandemia foi que o mundo inteiro passou a produzir informações sobre essa doença e na hora que se faz isso, vai engordando esse colchão” de evidências, de informações. E não adianta produzir só informação, ela tem que ser de qualidade para que consiga ser agrupada de forma a ajudar as pessoas a chegar a uma conclusão. Sendo assim, a gente vai desde a minha opinião”, que é zero evidência, até aqueles estudos randomizados, controlados, duplocegos, que são ferramentas que vamos utilizando para fortalecer as conclusões às quais a gente consegue chegar quando emprega esse tipo de ferramenta. E conforme isso vai acontecendo, temos que ouvir cada vez menos o eu acho”, porque a evidência mostra assim e eu preciso investir nisso. É muito importante compreender que as coisas só devem chegar até o consumidor final – e no caso da indústria, o consumidor final é o paciente quando passou por essas coisas todas.  

E aí, quando a gente fala da vacina, isso desmonta uma das maiores fake news, que é ah eu sou cobaia, não vou ser cobaia disso”. Vejam, se tem alguém sendo cobaia nesse processo é a ciência, uma vez que ela está tentando organizar tudo de maneira que seja mais rápido, mais eficaz e o mais confiável possível. Isso nunca é produzido e nem passa por tantas agências de saúde ao redor do mundo, que têm crivos tão específicos e rígidos, para que chegue a alguém; essa vacina não pula nada disso, tudo isso aconteceu, todos esses crivos foram feitos, e em tempo recorde porque houve um investimento recorde nessa história. Quando chega ao consumidor final, isso é seguro e eficaz o suficiente para proteger as pessoas. Portanto, é fundamental na pandemia, e em todas as outras situações, entender que o processo é rígido, só quem faz entende como difícil e o tanto que se investe nesse processo, porque existem reveses até o ponto em que se consegue levar um produto para alguém lá na ponta. 

 

Schor: E eu acho tão importante isso, e você falou perfeitamente que se ele passa pela Anvisa, ele já passou por todas essas fases experimentais, não é mais experimental, está incorporado à prática, e isso significa que a gente mais ou menos dentro da probabilidade da ciência sabe o que vai acontecer, porque se é uma coisa inicial, experimental, sem evidência em nada, é chute, é arte, é medicina arte. A medicina arte até tem seu lugar em alguns aspectos, como você falou, em doenças raras, por exemplo, quando não tem mais o que fazer, mas para a população não existe medicina arte. Medicina tem que ser mais cuidado. 

Luana: E tem que entender isso, tanto a população em geral quanto profissionais de saúde, porque, infelizmente, nós vimos isso também. Existe uma egolatria, que também infelizmente está atrelada a um outro conceito muito ruim, que é a hipermedicalização da saúde. É a pessoa achar que para tudo tem um comprimido, para tudo tem uma tecnologia, um exame novo, uma ferramenta nova, que são fundamentais, ajudam muita gente e avançaram muita coisa, mas que não compõem a saúde propriamente dita, não ajudam nessa base da coisa. Assim, entender isso é a chave para muito menos dor de cabeça ao longo da vida. 

 

Schor: Luana, deixa eu te perguntar outra coisa do seu trabalho atual, que também é uma linha fina. Você está atuando muito com big data e depois queria até que você definisse big data e grandes volumes de dados. Aliás, saiu uma notícia essa semana, não sei se você já viu sobre a Rede DOr comprando a SulAmérica, e aí isso vai fazer com que exista um enorme volume de dados para trabalhar em evidências e diminuir, esperamos, o custo das mensalidades da SulAmérica, e também seria interessante se conseguíssemos fazer isso no SUS, talvez podemos conversar um pouco sobre isso, de protocolos no SUS.  

Mas queria fazer uma pergunta antes, você falou muito de entender o processo, de inteligência artificial e machine learning, que são modos de extrair informações e conclusões a partir de dados, e isso muitas vezes passa por processos que a gente não entende, e tem alguma chance da gente se enrolar mais ainda na explicação para o paciente de por que aquilo funciona se até mesmo a gente não sabe exatamente como ele funciona? ou não?  

Luana: Eu acho que existe uma similaridade entre essa dificuldade e muitas terapias que utilizamos normalmente. Muitas vezes usamos medicações que a gente considera que sabe exatamente o que elas levam para o nosso organismo. Mas temos que lembrar que a gente tem um metabolismo muito mais complexo do que conseguimos entender. Então, muitas outras coisas acontecem e podem concorrer para aquele desfecho que a gente quer, mas não necessariamente sabemos o que está acontecendo. A história do big data é a seguinte, quando falamos em grande volume de dados não são 30 pacientes, trata-se de populações inteiras, estamos falando de grupos muito grandes e a extração de informações sobre esses grupos é de forma anônima, ou anonimizada, para que as pessoas entendam que isso não tenha uma repercussão, ou que não deve ter uma repercussão, em termos de proteção dos dados delas.  

Porém, usamos isso como se fosse uma mineração, utilizamos aqueles dados e vamos minerando aquilo, tentando achar padrões nessa história para responder perguntas específicas. E é muito importante que a gente trabalhe com grandes populações, porque, dessa maneira, diminuímos a chance daquele resultado encontrado acontecer de forma aleatória. Quanto maior a nossa base, maior o nosso N, menor a aleatoriedade da conclusão que a gente chega. Por isso que o big data é tão importante e hoje muita gente está caminhando para isso, seja em outras indústrias, seja na saúde, que é dos últimos setores que está se beneficiando do big data. Para que as pessoas compreendam onde entra o big data, onde entra a inteligência artificial e machine learning, tudo o que fazemos atualmente tem isso. Quando você entra em rede social, o algoritmo nada mais é do que essa inteligência artificial a partir dos seus dados e dos dados populacionais, trazendo para as pessoas coisas para elas verem. Quando você entra na Netflix, por exemplo, é isso que acontece, e por aí vai.  

E o que estamos tentando fazer na saúde é isso. E é esse o exemplo que você cita da Rede DOr e SulAmérica, é tentar compreender o que acontece com aquela população, e isso leva a um outro conceito que podemos falar depois, que é saúde pública de precisão, que é uma outra história. A gente fala muito de medicina de precisão, mas a saúde pública de precisão está batendo na nossa porta. E o que é isso? É você compreender aquela população que você atende de uma forma muito mais específica, mais granular e poder oferecer a essas pessoas ferramentas que não irão apenas curá-las das suas doenças, mas irão, prioritariamente, produzir saúde para elas, evitar que elas adoeçam e melhorar a qualidade de vida delas. E quando fazemos isso, é sempre mais barato, nós sabemos disso, é melhor do que tratar as doenças lá na frente. Portanto, a ideia é sempre atuar nessa questão de prevenção e de produção de saúde. Agora, não adianta ter o dado se a gente não faz nada com ele.  

Esse é um dos grandes gargalos que temos hoje, nós podemos chegar a conclusões populacionais, mas como é que implementamos isso de maneira a favorecer as pessoas de uma forma tangível? O outro problema que você falou é o SUS, em que temos um grande desequilíbrio da disponibilidade de dados entre o setor privado e o setor público; 75% da população brasileira é dependente exclusivamente do SUS, então, para fazermos esse tipo de benefício chegar a essa população, precisamos investir, por exemplo, em grandes bancos de dados e informatização do SUS, em prontuário eletrônico para todo mundo e por aí vai. Usar essa tecnologia de uma maneira diferente, integrar serviços, integrar níveis de cuidado. Se você é atendido num posto de saúde e está em casa, precisou de uma ambulância, de repente o pessoal da ambulância já pode ter acesso a sua lista de alergias, por exemplo. São essas coisas que podem ir mudando na prática a vida das pessoas, mas, infelizmente, ainda estamos distantes disso, e se não começarmos agora vai demorar ainda mais. Mas a ideia toda essa. 

 

Schor: Legal. A gente vê muito protocolo na rede privada como modo de economizar dinheiro e prever gasto no fim do mês para o gestor, e no SUS eu acho que a gente vê pouco protocolo. Você tem toda razão em relação a não termos informatização da rede, não termos integração. A gente tem números repetidos, tem nome igual para várias pessoas no mesmo serviço. Agora não mais, mas tínhamos uma pasta para o paciente dentro do Departamento de Oftalmologia da Escola Paulista de Medicina, e era uma pastinha do glaucoma e uma pastinha da catarata, imagina. Esse é um micro exemplo do que acontece com o macro universo, então claro que existem prioridades de digitalização, de organização do sistema, de ver os dados, de confiar nos dados.  

Mas me chama muito a atenção isso, o sistema privado vai muito atrás de protocolos e de um modo de atender que seja baseado em evidências e menos dependendo da vontade do médico. E eu posso estar enganado, e queria ouvir tua opinião, mas no SUS, eu tenho a impressão, e eu vivo SUS há muitas décadas e você também, que a gente tem uma liberdade um pouquinho maior, e também tem a outra linha fina, ter liberdade médica é super importante senão a gente fica travado, não consegue dar o melhor para o paciente que eles poderiam ter. Mas como que é essa receita? Como você vê esse equilíbrio? 

Luana: Eu acho que tem duas questões importantes. No setor privado você tem menos autonomia, mas mais recurso; no SUS, você tem mais autonomia e menos recursos e isso é uma dificuldade. Mas eu tenho algumas considerações, algumas ponderações com relação a essa questão do protocolo, porque estes deveriam funcionar de maneira custo efetiva para chegar ao resultado para o paciente e não é exatamente isso que a gente observa na prática, a gente vê como uma ferramenta de redução de custos, independentemente do resultado final para o paciente. Não estou dizendo que isso seja uma questão generalizada, mas em muitos lugares é usado como uma ferramenta de gestão e não como uma ferramenta de assistência. Nesse sentido, eu acho que no setor privado isso é bastante complicado, e tem uma outra coisa, nem sempre e de novo a gente viu isso recentemente isso é realmente baseado em evidência.  

Esse é um grande problema, porque como as pessoas, de uma maneira geral, não sabem exatamente o que é uma evidência, não sabem exatamente como esse sistema funciona, elas estão num momento frágil e acabam aceitando aquilo que vem. Portanto, não necessariamente isso é a melhor posição para elas. Já no SUS, a ideia de protocolo serviria para uma tentativa de uniformização do resultado. Uma uniformização de conduta para que o resultado seja sempre o mesmo. Você citou a Escola Paulista de Medicina, um lugar excepcional, o cuidado que é oferecido na Oftalmologia da EPM não deveria ter o mesmo resultado de outro local em qualquer outra região do país? Deveria. É preciso haver outros locais com a possibilidade de oferecer o mesmo tipo de resultado, mas temos muita dificuldade com isso, é só observar as diversas UTIs pelo Brasil. Se pegarmos um mesmo tipo de cuidado, que é o cuidado intensivo, temos resultados diferentes dependendo do local onde estamos.  

E qual é o problema disso? É que a gente tem muitas deficiências, fragilidades, inconsistências na base desses serviços. Então, quando jogamos um protocolo em cima disso, não estamos contando com todas as dificuldades que as pessoas têm para cumprir um protocolo como esse. Essa é uma das dificuldades, por exemplo, até desses serviços de tele-UTI, porque você está lá na sua UTI bonitona, bem informada, organizada, bem treinada, e aí eu vou orientar essa UTI lá do outro lado do país, mas você não consegue uniformizar as coisas, porque a base é muito diferente, portanto, protocolos são interessantes em determinadas circunstâncias dentro do SUS. Em situações, principalmente, nas quais você sabe que aquele cuidado é tão básico ou que aquele serviço é tão básico ou amplamente distribuído que não terá dificuldade em exercer.  

Quer ver um exemplo? Na própria infectologia, temos protocolos para sífilis. Vou usar sífilis como exemplo porque é um problema grave de saúde pública e as pessoas pouco falam dela. Mas temos lá, e isso tem disponível no país inteiro, o exame VDRL, que não é difícil de conseguir, mesmo nos postos de saúde e em locais distantes. Mas está lá escrito no protocolo pede o VDRL e aí faz tal coisa.” Mas eu cansei de ver, por exemplo, colegas dizendo “ah esse VDRL é um para 128, está pequenininho, não preciso fazer nada.” Isso acontece porque falta compreensão do que aquilo significa e falta a mensuração de um resultado real para a vida das pessoas. Mas tudo isso é para dizer que eu acho que os protocolos são importantes e são uma tentativa de uniformização, mas precisa ser de uniformização de um resultado de qualidade. Não pode ser um instrumento só de gestão. E não podemos achar que simplesmente ter a ferramenta significa que vamos prover um cuidado melhor para o paciente. 

 

Schor: Perfeito, acho que tendo esse foco final fecha com chave de ouro a nossa conversa, e eu não vou te segurar muito mais. Mas eu queria te agradecer muito pela conversa, acho que ela ilumina um monte de pontos que são importantes, como centralidade no paciente, centralidade no serviço, na vida do paciente. Como funciona o sistema, qual a função do Estado, qual a função das pessoas, educação, educação básica, saber raciocinar, então matemática é importantíssimo, saber se comunicar, e aí português é fundamental. Enquanto a gente não tiver isso, fica muito mais difícil. Já é complexo e se a gente não conseguir a adesão com crítica fica mais difícil ainda. Te agradeço muito e, claro, pode dizer suas palavras finais se quiser falar mais alguma coisa. 

Luana: Primeiro, eu quero te agradecer. Eu acho que esse trabalho de levar informações para as pessoas é muito interessante, porque a gente sempre fez isso dentro do consultório e a gente foi levado agora a fazer isso, a expandir isso, para muito mais pessoas, e na hora que você se coloca, ou é colocado nesse lugar, como foi no meu caso, em termos de esclarecer as coisas com uma população muito carente de informação confiável, na hora que você entende onde está, compreende que esse trabalho tem que ser um trabalho para a vida. Não é um trabalho que você começa a fazer e depois fala não quero mais”; da mesma forma como a gente fez um juramento médico, no final das contas compreendemos que isso é parte do que temos que fazer aqui, a parte de funcionar como um agente de saúde para as pessoas. Então eu agradeço pelo convite e acho que você resumiu muito bem essa história toda, a gente precisa que as pessoas compreendam o poder que elas têm nas mãos.  

E não estou falando, novamente, de poder político partidário, não tem nada disso, é o poder da cidadania, de você entender o que acontece com você, de como o que acontece com você influencia tudo o que acontece ao seu redor, e a saúde das outras pessoas, entender que um governo gerencia a saúde pública e, portanto, como você escolhe o seu governo e como você cobra o seu governo faz parte da sua saúde, não é só uma questão teórica. Vou dar um outro exemplo que aconteceu hoje, há uma votação na Câmara dos Deputados em caráter de urgência, para que um projeto de lei que visa a autorização de incorporação pelo SUS de medicações com validação diversa daquela da Anvisa seja possível, bastando apenas a autorização da Conitec. Isso é tão grave e tão absurdo e isso influencia tão diretamente na saúde das pessoas, que eu fui para a minha rede social, que é o lugar onde eu falo para o maior número de pessoas, acho que está em torno de 350 mil mais ou menos, e fui falar com essas pessoas vamos lá, pressione o seu deputado para que eles não aprovem uma coisa como essa.”  

Mas quem é que lembrava em quem votou para deputado federal? Isso mostra, portanto, que precisamos evoluir como cidadãos para que a gente consiga, inclusive, demandar dessas pessoas os investimentos que a gente precisa. É um círculo muito difícil, porque isso depende da educação, que depende da informação, que passa por isso tudo. Mas eu acredito que essa é uma grande oportunidade de rompermos isso e passarmos para um outro nível. E esse tipo de oportunidade que você está me dando aqui, por exemplo, para a gente discutir e aprender mais um com o outro sobre essas coisas é absolutamente fundamental. Então, obrigada de novo. Estou aqui à sua disposição quando você precisar e vamos em frente. Acho que a gente tem muita coisa ainda para discutir juntos. 

 

Schor: Sem dúvida nenhuma a gente consegue fazer um podcast atrás do outro toda semana. Obrigado! 

Luana: É isso aí. Obrigada, Paulo. 

 

 

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