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Foi ao ar a entrevista que Adriana Mallet concedeu a Paulo Schor, médico oftalmologista que há 30 anos se dedica à pesquisa direcionada à inovação e a novas tecnologias, para o podcast RX – Por dentro da sua próxima receita médica! Adriana Mallet é médica intervencionista, tem treinamento multidisciplinar, e desde 2013 lidera a associação sem fins lucrativos SAS Brasil.

 

Abaixo você confere o bate-papo na íntegra.

 

Paulo Schor – Olá, bem-vindos a mais um episódio do nosso podcast RX sobre o que está por trás, por dentro e, entre aspas, na sua próxima receita médica! Hoje eu tenho o prazer de conversar com Adriana Mallet. Adriana, o sonho de consumo de todo mundo que conversa sobre acesso, sobre atividades que são desenvolvidas no terceiro setor, leia-se empresas sem fins lucrativos, com organização e com sustentabilidade na área de saúde. E Adriana é uma médica intervencionista, que tem um treinamento multidisciplinar. Ela tem uma história de vida riquíssima, que vocês vão ouvir e tenho certeza que vão ficar apaixonados também. Ela trabalhou em serviços de emergência, no Samu – de 2013 a 2020, ela criou o 192 Smart. Depois, queria até que você falasse um pouquinho disso, e desde 2013, ela lidera a associação sem fins lucrativos, a ONG SAS Brasil. Ela fez isso inicialmente para levar alegria para as pessoas que margeavam ou protagonizavam, e protagonizam, o Rally dos Sertões, que são os moradores locais e a associação se desenvolveu muitíssimo e a Adriana hoje vai contar pra gente um pouco da governança dessa associação. E hoje ela faz serviços de telemedicina, incluindo teleoftalmologia, teledermatologia, teleginecologia, e leva soluções locais para problemas locais.

Nessas últimas seções eu tenho tentado falar um pouquinho do aspecto de acesso à saúde e eu queria, Dri, dissecar um pouco com você essa questão ao longo da nossa conversa, porque parece alguma coisa trivial e que, de vez em quando passa pela cabeça das pessoas, que se tiver uma super tecnologia, uma super equipe ou um super preço, eu vou ter um ótimo acesso e as pessoas vão conseguir usar e vão se beneficiar da minha solução. E a gente sabe que não é bem assim. A gente precisa ter tudo isso e mais várias coisas. Essa temática de acesso num país absolutamente desigual, com condições muito desfavoráveis e, com certeza você consegue falar muitíssimas horas sobre isso, é algo que tem que ser visto e ouvido, e a tua experiência é fantástica. O que você aprendeu e está desenvolvendo tem tudo a ver com isso. É como a gente faz, efetivamente, uma boa tecnologia, que vem de uma boa ideia, que tem uma boa equipe ser utilizada pelas pessoas e aí sim a gente pode falar em inovação, né? Que inovação é o uso, não é uma boa ideia, é uma boa ideia, é uma boa ideia. O uso é a inovação, a inovação é o uso e vice-versa. Então Adriana, muitíssimo obrigado por ter aceito a conversa e queria te deixar as primeiras palavras. Se você quiser pegar esse gancho aí do acesso, seria um prazer.

Adriana Mallet – Prazer poder ter essa conversa com você e passar um pouquinho dessa história e da visão da SAS, que é um grupo que nasce dessa missão de transformar o acesso à saúde através de tecnologia e inovação, sempre levando junto com o acesso à saúde, a alegria, essa é nossa marca. Tem três coisas que você falou e acho que a nossa conversa vai passar por elas. A primeira é acesso, e quando a gente fala de acesso, não falamos só das pessoas que moram numa cidade remota, em que só se consegue chegar de barco e que não tem internet, a gente tá falando de 86% do nosso país, e de periferias em grandes cidades, que não têm acesso adequado, que não conseguem encontrar um suporte em saúde quando precisa. Junto com acesso, a gente precisa falar de resolubilidade, porque dar acesso e não resolver é tão ruim quanto resolver para poucos, né? Resolver sem acesso. A nossa forma de enfrentar o problema de acesso e resolubilidade é com inovação, é pensando novas tecnologias, é não importa se a gente está falando qual é a especialidade ou qual é a distância que eu tô do paciente, o fato é que sempre, na nossa visão, tem um jeito melhor de alcançar essa missão de dar certo.

Paulo Schor – Eu queria talvez começar com a história da alegria, Dri, que não é alguma coisa óbvia na maioria das empresas. A gente não coloca isso como sendo uma missão, visão, valor, e você coloca isso logo de cara, no nome da iniciativa. E você mantém isso, e você faz com que isso passe a ser um valor central e que quem lida com gente sabe que se você não tiver sentimento envolvido, a iniciativa esfria em todos os sentidos, né? Ela carece de emoção e ela esfria, porque acaba, as pessoas passam a não ter mais motivação. De onde veio a história da Alegria. Como é que você consegue manter isso?

Adriana Mallet – Bom, a alegria está de fato na nossa missão escrita é, e aí preciso contar o início de tudo. A SAS teve uma inspiração que foi o documentário “Quem se Importa”, da Mara Mourão, onde a gente conheceu em abril de 2013, faz 10 anos, né? Completamos na semana passada 10 anos de vida, o filme fala sobre empreendedores sociais e conta a história do Doutores da Alegria, Do Saúde e Alegria da Amazônia, que foi a nossa inspiração. Lá a gente escutou a frase de uma das mulheres que eles atendem que “saúde e alegria do corpo, alegria é a saúde da alma”. E quando a gente pensa em cuidar de saúde, a gente se desconectou muito disso, né? A gente não percebe o quanto a falta de alegria é central nos processos de doença. Para nós, quando a gente falou bom, nós vamos criar uma ferramenta, seja uma tenda de campanha, juntar quatro ou cinco  amigos e levar acesso a saúde, que foi como a gente começou com essas populações, a gente já falou isso, tem que fazer algo que tem que ser legal cuidar da saúde, tem que ser uma mensagem de alegria, tem que ser um dia inesquecível para ficar marcado e eu querer cuidar da saúde de novo A gente, que é médico, é muito técnico e a gente esquece esse componente. É um valor central da SAS, a gente falou que queria ser o Saúde e Alegria dos Sertões, foi assim que nasceu o SAS. A gente carrega isso como cultura, como marca, todo mundo que está envolvido na SAS percebe isso porque é o jeito que a gente trabalha mesmo, é o jeito como a gente entende que a gente gera valor para todos os envolvidos, seja para um voluntário, ou seja para um profissional contratado, da estrutura da fila, se a gente está trabalhando com alegria, se está sendo atendido com alegria, é tão diferente.

Paulo Schor – Eu quase ouço saindo da boca do Wellington, que é o marido da Mara, que são um casal amicíssimo, essa frase, alegria é a saúde da alma. Acho que tem tudo a ver e os Doutores da Alegria trazem muito isso no seu bojo, mas não como marca, né? Como ação efetiva. E não é só a risada, que é muito interessante, é alegria no sentido de algo elevado, alguma coisa que é motivacional, que tira você daquele estado de torpor. E você tem, obviamente, toda razão, a gente tem estudos mostrando toda a consequência da tristeza em relação a pioras de estados não só emocionais, mas imunológicos também. E quanto que o inverso funciona e você está puxando aqui uma coisa que eu queria que você comentasse um pouco quase do autocuidado, se a pessoa tiver uma vivência que seja relevante para ela, ela provavelmente vai se envolver nisso de um jeito mais efetivo do que se ela tiver deslocada, até fisicamente do lugar onde ela está confortável, onde ela mora. Faz sentido isso? Você incorporar a vivência na efetividade do tratamento?

Adriana Mallet – Sem dúvida. A gente achava muito bonito enfeitar a enfermaria das crianças. A gente esquece que adulto também gosta de estar alegre, de ter alguma experiência. Quem não gosta? E na saúde muitas vezes a gente abandona isso por um extremo tecnicismo, isso é uma visão, é um jeito de fazer. A gente fala que na SAS é proibido dizer não. A gente pergunta como, e isso é acolhimento, quando a gente percebe que o outro está de fato interessado em resolver nosso problema, que ele está fazendo isso com alegria. É a chance de a gente encontrar junto com a solução, mesmo que a priori a gente não tenha. É muito maluco. E quando a gente fala, eu estou falando de alegria, de inovação, do terceiro setor, mas eu também estou falando de high tech. Isso faz a SAS a ocupar hoje esse espaço pouco óbvio porque a gente tende a pensar em organização sem fins lucrativos como um projeto muito menos focado em tecnologia, ou quando a gente fala saúde, coisa muito mais técnica e menos focada na alegria. E quando a gente começa a colocar esses componentes juntos, dá um belo molho. Essa é a nossa visão.

Paulo Schor – E você acha que isso também tem a ver com a tua sustentabilidade? Obviamente, sim, mas acho que é uma angústia que quem olha projetos muito bonitos, mas que tem um voluntariado por trás tem que é: como é que você vai se sustentar? É uma pergunta isso, mas já imagino que tendo essa motivação – e eu conheço muita gente que participa do movimento junto com você – as pessoas são altamente motivadas exatamente pelo que você está propondo e como você faz isso. Não é nem pelo que você está fazendo, é como, é a vivência efetiva no campo e a modificação efetiva na vida das pessoas. Qual é o segredo e quanto que isso te angustia em relação à sustentabilidade e ao projeto ter vida eterna?

Adriana Mallet – Muito boa a pergunta. Isso nasce de uma iniciativa absolutamente voluntária, minha e da Sabine, e aí, um grupo de amigos que se juntou e foi assim durante sete anos. O que a gente tinha de melhor para doar era o nosso tempo, quando começou tudo começou há 10 anos e é assim para muita gente. Tem muita gente que está buscando uma experiência de alegria, de contato, às vezes até com a razão que ‘eu que eu quis ser médico, que eu quis ser dentista’, e no dia a dia eu estou muito desconectado disso. Quando eu faço voluntariado eu me reconecto, mas hoje em dia a área de voluntariado é uma das áreas de atuação dentro dos projetos estratégicos. A gente acredita que o novo voluntariado – e que o voluntariado agrega horrores para quem é atendido -, e quem atende também. O que mais a gente escuta das pessoas que saem para uma expedição, e voltam é ‘achei que eu ia ajudar e, na verdade, quem foi ajudado, quem descobriu e percebeu o valor dessa experiência fui eu’. Mas não significa que se encerra aí. A SAS tem uma área de projetos estruturantes, com equipes contratadas e que consegue, e vem crescendo, em função de patrocínios, apoios, e agora também de uma área da health tech, que gera recursos para que essa a SAS Brasil calha o seu impacto. É uma roda positiva, né? A gente consegue criar produtos para o mercado que geram receita para o impacto, e é assim que a gente tem a visão de crescimento. São duas coisas e não preciso escolher. Eu posso ter projetos que rodam com equipe voluntária e que oferecem como contrapartida, tanto para quem está sendo atendido quanto para quem está indo nessa questão da experiência, e, ao mesmo tempo, criar esses projetos estruturantes que escalam a partir da entrada de recursos ou porque vem de patrocínios ou porque vem da escalabilidade do lado de negócio.

Paulo Schor – Não é óbvio esse raciocínio que você fez e não é nada óbvio para quem não é da área de negócios. E você tem informação médica, então, de onde vem essa clareza de raciocínio empresarial moderno e não vale siliciano e nem de empresas familiares muito clássicas. Onde você aprendeu isso?

Adriana Mallet – Eu sou uma mistura boa, Paulo, sou filha de um engenheiro que tem pós-graduação em administração em Harvard, com uma mulher extremamente simples e do amor e da conexão. Então essa mistura acabou criando a Adriana, mas a minha visão sempre foi que não dava para separar os mundos. O mundo de impacto, de injustiça social, no judaísmo a gente fala que não é uma questão de caridade, é uma questão de justiça. Quando eu olho para uma criança que não enxerga e quero dar a chance dela saber se precisa dos óculos e ofereço acesso aos óculos, eu estou falando de justiça social. Esse lado do impacto da justiça social precisa andar junto com o lado de geração de receita, inteligência, novas tecnologias. Quando eu plugo esses dois mundos é muito potente e quando esse Brasil, nosso lado de impacto, ganha a escala que ganhou, a provocação que vem em seguida é como é que a gente usa toda essa inteligência para um mercado que também está carente? Porque o mercado de saúde tá muito carente de se reinventar, de olhar para acolhimento e de olhar para a alegria. Então a gente entendeu que poderia ser justamente um lado de negócios que alimentaria o lado de impacto, e o lado de impacto alimenta o de negócios e nessa roda positiva, na nossa visão, todo mundo ganha. Ganham os pacientes que não têm condição, ganham os pacientes que têm condição, o mercado e a indústria, parceiros aí de longo prazo.

Paulo Schor – Essa sua resposta tem que ser ouvida, guardada e repetida um bilhão de vezes no ouvido e na mente das pessoas que querem fazer a diferença, porque eu vejo muitas vezes o lucro ser glamourizado, e tudo bem em algum estágio, isso poder aparecer em algum discurso. Agora ele não mantém valor e nem a missão de nenhuma empresa. A gente tem casos muito recentes, de grandes tombos que vieram pelo lucro se alguma coisa como único motivo, objetivo de empresas. E queria só andar um pouquinho mais aqui pra gente passar um pouco pra área da tecnologia, que acho que interessa a todo mundo. Mas é uma coisa que me interessa muito. Empresas sem fins lucrativos, ou instituições sem fins lucrativos, versus empresas que, por definição, tem fim lucrativo, isso é uma coisa que eu aprendi há pouco tempo que empresa é uma entidade  com fins lucrativos, e fins lucrativos existem, mas se a gente puder pensar um pouco mais amplamente nas ONGs, o superávit – que não se chama lucro, que é reinvestido, ele faz com que a gente seja sustentável. E o lucro, na minha cabeça, monta outra organização de interesses que, de vez em quando, ele é deletério para a própria organização. Na hora que você tem investidores esperando ter uma fatia maior de lucro a cada ano, não necessariamente é um alinhamento com a missão efetiva da tua iniciativa. Faz sentido para você? Porque você não virou uma empresa com fins lucrativos? Talvez essa seja uma pergunta objetiva pra contextualizar um pouco essa história, que eu acho que é importante entrar. A gente fala muito pouco sobre isso.

Adriana Mallet – Primeiro, talvez, a gente devesse renomear, a gente fala com e sem fins lucrativos e as duas estão buscando o superávit, também estão procurando ser mais eficientes, ou deveriam procurar ser mais eficientes. O brasileiro é muito ruim nisso quando a gente pensa em organização sem fins lucrativos não vem na nossa cabeça o Einstein, que é uma organização sem fins lucrativos. Então, no fundo, no fundo, o que diferencia não é buscar ou não superávit, é distribuir isso para pessoas físicas que são sócias ou não.

A gente deveria é mudar fins lucrativos de quem? Porque quando o lucro é da sociedade, quando o lucro é da própria organização, isso é muito bacana. E não tem problema também quem investir apurar lucro. Eu não condeno isso de forma nenhuma, desde que não perca o propósito, desde que esteja guiado por um manifesto, por uma diretriz que seja, de fato, que se mantenha hoje a essa. A SAS é um grupo, que tem um braço, que é a SAS Brasil, sem fins lucrativos, tem um braço com fins lucrativos que nasceu da health tech, SAS Smart, que recebeu investimento e que agora cresce, três empresas que já estão operando. O que a gente fez foi criar um modelo de governança em que a decisão de para onde os negócios com fins lucrativos vai, quem tem mais peso para tomar essa decisão, é a organização sem fins lucrativos. E, portanto, eu crio um modelo de governança positivo e, na minha concepção, até porque estou aprendendo muito sobre isso, é um espiral de bons resultados. A gente teve cases como o da Patagônia, que é um grande case, teve um da Novo Nordisk, que é uma empresa sem fins lucrativos, dona de empresas com fins lucrativos.

Isso é novo para o brasileiro, mas a gente precisa falar sobre isso porque você fala, e fala muito bem, que quando o único objetivo da organização é o resultado de distribuir isso para acionistas ou para seus donos, a sociedade perde. Será que a gente poderia ter isso, mas não ter só isso? Será que tem que fazer parte da agenda e das metas o impacto positivo da organização? E aí nasce o conceito de negócio de impacto, que eu acho que é pra onde, como sociedade de fato, a gente precisa olhar. De novo, não precisa reinventar o mundo, a gente já tem modelos que funcionam. A gente, talvez, só precise plugá-los de forma positiva.

Paulo Schor – Concordo em gênero, número e grau. Não a obsessão pelo resultado, né, que é o que estava escrito na missão de uma das que tinha isso como sendo um dos valores da empresa. Vamos falar um pouco de tecnologia e aí tua visão também me parece super alinhada com o mundo moderno, que é tecnologia para quê? Eu não vejo você desenvolver uma peça de tecnologia para chamar de sua, para falar ‘nossa, eu fiz uma coisa super legal’. É um aparelho que olha através de janela preta falando, pra que que você fez? Não, ele olha através da janela preta, olha que é super legal. Não vejo você mover uma palha nesse sentido. Imagino que não faça sentido nenhum para você tecnologia pela tecnologia. Você consegue, eu acho e queria teu comentário, por estar na linha de frente e por entender profundamente a dor, a condição onde essa coisa vai ser aplicada, ir no ponto correto e na dose correta de desenvolvimento tecnológico profundo e usabilidade que seja adequada do modo mais simples possível, mas você usa bastante – cada vez usa mais – a palavra tecnologia e os desenvolvimentos tecnológicos e os desenvolvedores tecnológicos que estão a tua volta, em Campinas, por uma “sorte” do destino, é um polo tecnológico avançadíssimo que a gente tem no Brasil a teu favor. É isso mesmo? Como é que você dosa esse negócio? Como é que você escapa do tecnicismo de vamos fazer uma coisa, já que eu estou aqui, vamos colocar mais dez botões pra ficar mais legal. Ou não, quero algo mais simples. Eu quero que as pessoas consigam usar. Onde você consegue ter essa dosimetria?

Adriana Mallet – A gente nunca teve tanta tecnologia no mundo e a gente nunca teve tanta desigualdade. No tempo recente da nossa sociedade humana, a gente avançou muito na tecnologia e avançou muito na desigualdade. Então, a pergunta norteadora de tudo, o que a gente faz na SAS é essa tecnologia vai aumentar ou diminuir a desigualdade? Mais tecnologia que menos pessoas tenham acesso não nos interessa. Tudo que a gente faz, a gente busca pensar como eu faço isso ser acessível para mais gente, como eu faço essa solução caber no dia a dia das pessoas? Acho que isso foi o grande boom da SAS em relação à telessaúde, foi fazer telessaúde com quem mora no interior, seja em uma comunidade de pescadores, uma comunidade quilombola ou uma periferia de grande cidade. A gente colocou as primeiras cabines de telessaúde do Brasil dentro da Favela da Maré. Antes de qualquer pessoa com condição financeira melhor poder acessar a telessaúde. E justamente porque o motor é esse, eu já arrumei várias brigas em eventos que eu falo, somos uma startup social. Não, não existe startup social, ou é startup ou é social, não existe. A única diferença é que a gente não pega o resultado e coloca exclusivamente no bolso de poucas pessoas. A gente devolve isso, né, para a sociedade, então, é sim pensar a tecnologia, mas com um motor de acesso. Com motor de dizer será que isso vai melhorar ou vai piorar a condição atual das pessoas que hoje não têm alternativa? Porque mais alternativa para quem já tem alternativa não julga. Acho que é uma agenda inclusive importante, mas não é nossa agenda. A nossa agenda é mais solução para quem hoje não tem nenhuma. E aí fica fácil tomar a decisão no que a gente vai investir e no que a gente não vai investir, né? Porque a gente tem uma pergunta muito fácil de ser respondida.

Paulo Schor – E você passou de trator em relação à discussão de telemedicina porque eu entendo que seja obviamente uma coisa que aumenta acesso para quem não tem acesso e para quem já tem acesso, telemedicina não precisa, né? Você pega o helicóptero, vai ao Einstein, mais ou menos isso. Quanto te coçou a história a regulamentação, ou da não regulamentação, da telemedicina? Você estava exatamente nesse momento, nesse lugar, né?

Adriana Mallet – Eu já estava nesse lugar há muito tempo, você inclusive citou a história do 192 Smart, deixa eu contar onde nasce isso, a nossa health tech. Em 2016, eu tive uma história muito triste, eu perdi uma amiga atropelada. Eu trabalhava no Samu nessa época, quando eu fui levantar como tinha sido ela foi levada para o HC e ela estava a 300 metros do HC, a 700 metros da base do Samu e dos Bombeiros, e demorou 24 minutos o atendimento dela, em São Paulo. E aí quando a gente foi levantar o chamado, eu conhecia o pessoal do Samu, eu fiquei muito inconformada porque a pessoa que ligou, não sabia dizer o endereço. E aí a ambulância não conseguia achá-la e nem ambulância tinha iniciativa de colocar isso num Google. Isso parece bobeira, mas em 2016 não era tão comum usar o Google Maps. A gente tá com uma aceleração muito rápida. Aí eu falei, não é possível que a gente não consegue ter uma solução que identifique um acidente e faça um chamado já com geolocalização, a ficha de atendimento. E assim nasceu a SAS Smart, um projeto que desenvolveu o primeiro aplicativo capaz de detectar a colisão e fazer chamadas, foi uma super experiência do ponto de vista de tecnologia e um desastre do ponto de vista de negócio, porque a gente fez produtos para governo, o atendimento de emergência é essencialmente feito pelo governo no Brasil, e a gente sofreu todas as dores de um produto voltado para governo e aí chegou uma hora que eu falei, porque a gente tinha a solução de, na hora do chamado, já abriu uma chamada de vídeo, já tinha um prontuário eletrônico na plataforma do lado de quem recebia esse chamado, já usava o celular, a gente tem uma plataforma de telemedicina no final. E comecei a pesquisar, nessa época ainda voluntariamente, e se a gente usasse isso pra triar lesões de pele? A telemedicina não era proibida, a única coisa que precisava era ter um médico em cada ponta. E aí eu comecei a entender e buscar isso lá em 2017, e desenvolvemos no comecinho de 2018, o Sias que é o nosso sistema da SAS Smart, desenvolvido pela SAS Smart, ele foi meu mestrado, então focado no câncer de colo de útero, em geração de imagem para diagnóstico de câncer de colo de útero, e quando a pandemia veio, a gente já tinha um sistema. E eu falei nem que seja por desobediência, porque eu acompanhei toda a discussão de 2019, vai liberar a telemedicina, e celebra, aí poucos dias depois revoga, e toda a discussão que eu acho precisa acontecer, mas ela precisa ter como agenda principal as pessoas que não têm uma alternativa, não pode barrar se ela é a única forma de acesso. A maior forma de humanização é acesso. E a telessaúde, para nós,  já era essa alternativa para quem não tem hoje nenhuma outra forma de passar por um pediatra, ainda mais que você começa a estudar e sabe que é possível sim auscultar uma criança, é possível sim ter uma imagem de qualidade e por aí vai. E aí acho que nessa esteira, quando a pandemia veio, a gente virou a chave do sistema que já existia, já operava, para uma ferramenta de dar acesso facilmente ao paciente. Isso fez a SAS Brasil, com a tecnologia da Smart, escalar até o ponto de chegar uma hora em que falei não dá mais pra SAS Smart só trabalhar para SAS Brasil, vamos deixar a SAS Brasil ter o seu software, fazer suas customizações, e isso foi muito sofrido porque no começo eu passei acho que um ano, um ano e meio, militando pela telessaúde como forma de acesso de quem mora longe, e  enquanto isso via os grupos discutirem questões que para mim eram secundárias, do ponto de vista de uma criança morrer porque não fez um diagnóstico de pneumonia, porque a realidade é essa. A gente tem 86% dos municípios que não fixam os médicos adequadamente, que não têm um especialista e por aí vai. De novo, a telessaúde vai resolver tudo? Não, mas 80% dá pra resolver, né? Regra de Pareto, já dá para ser muito efetivo.

Paulo Schor – Estar no lugar certo, na hora certa. E se a pessoa certa fez toda a diferença, aí não é sorte. É ter se preparado e estar com todas as ferramentas à mão e afiadas para que acontecesse o que aconteceu. Dri, vamos falar um pouco do que vem pela frente, o que você está inventando do teu polo na praia? Das outras iniciativas que você abre para motivar um pouco as pessoas, pra dizer um pouquinho de qual vai ser o futuro?

Adriana Mallet – Eu vou resumir a nossa visão hoje em três grandes pilares dentro do grupo SAS. Primeiro assistência, aquilo que a gente faz diretamente entrega para o paciente. O segundo disseminação, a gente sabe que a gente não vai transformar a saúde só a partir do que a gente faz, precisamos transferir o know how do que aprendemos para faculdades, para serviços de saúde e outros serviços públicos ou privados, e a inovação. Então, na assistência a SAS tem crescido principalmente em projetos de linhas de cuidado e como usar a tecnologia para ter melhores dados, isso acho que é uma grande tendência. Na disseminação a gente vai, ainda no primeiro semestre, inaugurar o primeiro living lab SAS Brasil que vai ser em Campinas, é uma experiência de ensino e de pesquisa integrados, muito próximo das faculdades que justamente a gente quer que os alunos tenham experiência de telessaúde pelas duas pontas para que eles aprendam a fazer um tele ultrassom, aprendam a guiar uma telecolposcopia, fazer telepropedêutica, tudo isso a gente precisa levar para a faculdade, e o living lab sempre estará muito próximo das faculdades. E aí a gente tem projetos de ampliação disso no Nordeste e por aí vai. E na área de inovação, talvez as grandes vertentes hoje são projetos mais técnicos, como robótica, 5G, usando a tecnologia para conseguir dar mais resolutividade para a ponta, e a Compensas, que é minha filha mais nova, que foi o projeto, inclusive, que nos levou agora para a premiação na Espanha e a gente está envolvendo junto com o pessoal do Fórum Econômico, que é uma, se a gente tem a tese de que dá para resolver o problema de um paciente com a telessaúde sem ele viajar, a gente entendeu que é possível gerar créditos de carbono a partir dos quilômetros que eu evito e ter uma nova fonte de receita para a saúde. Então é um projeto ambicioso,  global, já está em prova de conceito, com grandes parceiros, já é uma tecnologia validada com grandes parceiros também para esse processo de validação de certificação e que acho que fecha a nossa tríade de digitalização, descentralização da saúde e incentivo.

Paulo Schor – Eu acho que a essa conversa da gente é fundamental para todos os atores da cadeia. Estava pensando num adjetivo, talvez seja você seja a mulher mais contemporânea que eu conheço, que junta as facetas mais diversas e coloca as boas práticas ou as boas ideias que vem dessas facetas dentro de uma atividade que dá resultado e que muda a vida das pessoas e que muda, eu sei, porque acompanho muita gente que está perto de você. E a vida de quem está perto de você é uma delícia. Acho que você irradia muito do que você está falando. E você, parece piegas, mas é exemplo, né? Você faz o que você está falando e você vive desse jeito. E você tem uma vida que, socialmente, podia ser extremamente exposta e você não faz assim, você vive do jeito que você quer. Isso é uma coisa muito contemporânea também, muito genuína, e eu acho que isso é uma coisa gostosa de ouvir, não é frequente, te diferencia um monte, e  te agradeço muito, muito, muito por ter compartilhado esse teu jeito original e próprio de ser, Dri, obrigadíssimo pela conversa.

Adriana Mallet – Super obrigada, é um prazer conversar com você, que também é exemplo pra mim. É, acho que ninguém é formado do nada e tem pessoas que são referências. Você sem dúvida, é uma das minhas, e acho que é isso. É juntando propósito, gente boa e tecnologia, a gente faz a magia acontecer na saúde, e em outras áreas, né? Acho que o Brasil está precisando disso e o mundo está precisando disso. Vamos que vamos, obrigada, Paulo.

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