Pesquisadores da Harvard Medical School utilizaram dados do IRIS Registry para aprofundar o conhecimento sobre a ceratopatia neurotrófica (CN) em crianças, uma condição rara, porém potencialmente devastadora para a visão.
Os resultados trazem novas informações sobre prevalência, características clínicas, evolução visual e estratégias de tratamento nessa população, destacando a necessidade de reconhecimento e manejo precoces.
A ceratopatia neurotrófica apresenta prevalência estimada de cerca de 21 casos por 100 mil habitantes nos Estados Unidos, mas sua ocorrência em crianças ainda era pouco compreendida. Para preencher essa lacuna, Asmas A. Zidan, MD, e colaboradores realizaram um estudo retrospectivo com base em dados do IRIS Registry, apresentado como ePoster no congresso anual da American Academy of Ophthalmology 2025, em Orlando.
Segundo os autores, “a ceratopatia neurotrófica não é incomum na população pediátrica e exige reconhecimento precoce e manejo proativo para preservação visual”.
Particularidades da ceratopatia neurotrófica em crianças
Diferenças estruturais e de espessura da córnea entre olhos pediátricos e adultos sugerem que a CN pode se manifestar de forma distinta nas crianças. Além disso, os pesquisadores ressaltam que pacientes pediátricos apresentam maior risco de cicatrização corneana e ambliopia, o que exige monitoramento de longo prazo e protocolos de tratamento adaptados.
Ao analisar dados do IRIS Registry entre 2016 e 2022, os autores identificaram 67.855.466 pacientes. A aplicação do código CID para ceratopatia neurotrófica revelou 47.700 casos de CN, dos quais 429 ocorreram em pacientes com menos de 18 anos. Aproximadamente dois terços dos casos pediátricos eram unilaterais.
A prevalência estimada de CN pediátrica em 2022 foi de 9,1 casos por 100 mil pacientes pediátricos cadastrados no IRIS Registry. Já a incidência média anual, no período analisado, foi de 3,98 casos por 100 mil pacientes.
Perfil demográfico e desfechos visuais
A maioria das crianças afetadas (cerca de 75%) tinha entre 6 e 17 anos. Outros 11% tinham menos de 3 anos, e 13% estavam na faixa etária entre 3 e 5 anos. A idade mediana ao diagnóstico foi de 10 anos, com leve predominância do sexo masculino (52%).
A acuidade visual foi o principal desfecho analisado. Dados estavam disponíveis para 392 casos, abrangendo até um ano antes do diagnóstico e até dois anos após.
Os resultados mostraram que, no momento do diagnóstico, houve piora significativa da visão, com a acuidade média passando de 0,50 logMAR (equivalente a 20/63) no ano anterior para 0,68 logMAR (20/100) (p < 0,001).
Com o seguimento e o tratamento, observou-se melhora gradual da acuidade visual, e entre 19 e 24 meses após o diagnóstico, a média foi de 0,52 logMAR (20/63) (p < 0,012), indicando potencial de recuperação visual quando há manejo adequado.
Comorbidades e abordagens terapêuticas
A análise também identificou as principais condições associadas à CN pediátrica. As mais frequentes foram:
- Úlcera de córnea (29,5%)
- Opacidade corneana (29%)
- Ceratite herpética (4,9%)
Lesões químicas e distúrbios corneanos relacionados ao uso de lentes de contato foram observados em 2,3% dos casos cada.
Quanto às intervenções, as mais utilizadas foram:
- Tampões de ponto lacrimal (6,5%)
- Lentes terapêuticas, incluindo lentes esclerais (5,6%)
- Transplante de membrana amniótica (5,2%)
A tarsorrafia foi realizada em 2,9% dos pacientes, e 0,7% dos olhos evoluíram para ceratoplastia penetrante.
Implicações clínicas
Os dados reforçam que a ceratopatia neurotrófica em crianças, embora menos discutida, não é rara e pode levar a impacto visual significativo se não for identificada precocemente.
O estudo destaca a importância de vigilância clínica, seguimento prolongado e estratégias terapêuticas individualizadas, visando reduzir cicatrizes corneanas, ambliopia e perda visual permanente.



