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O alongamento axial associado às altas dioptrias eleva o risco de descolamento de retina, glaucoma, catarata precoce e maculopatia miópica. Especialista reforça a importância do rastreio periódico e da intervenção precoce diante de sinais de alarme.

A miopia costuma ser tratada, no consultório e na percepção do público leigo, como uma simples questão refrativa, resolvida com óculos, lentes de contato ou cirurgia refrativa. Do ponto de vista clínico, no entanto, a alta miopia representa um espectro bem mais complexo: à medida que o comprimento axial do globo ocular aumenta, cresce proporcionalmente o risco de alterações estruturais que comprometem a integridade da retina, do nervo óptico e do cristalino.

Para Rafael Arruda, oftalmologista do HOPE – Hospital de Olhos de Pernambuco, essa distinção deveria orientar a conduta clínica desde o diagnóstico. “O problema deixa de ser apenas a necessidade de usar óculos. O olho mais comprido favorece o afinamento da retina e de outras camadas oculares, aumentando a chance de complicações que podem comprometer a visão”, explica.

Classificação por equivalente esférico e implicações clínicas

A estratificação por grau de miopia orienta a intensidade do acompanhamento. Segundo o especialista, considera-se miopia baixa até -3,00 D, moderada entre -3,00 e -6,00 D e alta acima de -6,00 D. Os casos de miopia patológica, geralmente acima de -10,00 D, merecem atenção redobrada, uma vez que a progressão pode persistir ao longo da vida adulta.

“Nesses pacientes, o globo ocular é mais alongado do que o normal, e esse crescimento torna as estruturas internas do olho mais frágeis”, pontua Arruda. O alongamento axial está associado ao afinamento coroidal e escleral, à formação de estafiloma posterior e a alterações degenerativas do epitélio pigmentar da retina, achados que fundamentam a classificação de maculopatia miópica amplamente adotada na literatura oftalmológica.

Fatores de risco: componente genético e carga ambiental

A etiologia multifatorial da miopia combina predisposição genética e exposição ambiental, com peso especial durante a infância. Crianças com início precoce da miopia tendem a apresentar graus mais elevados na vida adulta, sobretudo quando há histórico familiar da condição.

“O componente genético é um dos principais fatores de risco, mas o ambiente também interfere. Passar muito tempo em atividades de perto, como celular, computador e leitura, principalmente mantendo os objetos muito próximos do rosto, pode favorecer a progressão da miopia. Por outro lado, estimular brincadeiras e atividades ao ar livre por duas ou três horas diariamente ajuda a reduzir esse avanço”, orienta o oftalmologista.

Estratégias de controle da progressão miópica

O arsenal terapêutico para retardar a progressão, especialmente em crianças e adolescentes, inclui recursos ópticos e farmacológicos que devem ser individualizados conforme o perfil de cada paciente. “Hoje contamos com lentes de óculos desenvolvidas especificamente para controlar a progressão da miopia, lentes de contato especiais e colírios à base de atropina, indicados em situações específicas. O tratamento deve ser individualizado e sempre acompanhado pelo médico oftalmologista, com consultas periódicas para avaliar a evolução de cada paciente”, afirma.

Complicações associadas à alta miopia

O afinamento progressivo da retina periférica e a maior vulnerabilidade das estruturas oculares elevam o risco de complicações potencialmente graves:

  • Descolamento de retina, considerado emergência oftalmológica, decorre da formação de rasgos retinianos em áreas de degeneração lattice, mais prevalentes em olhos com alongamento axial significativo.
  • Glaucoma: o risco aumentado exige atenção redobrada na interpretação de exames, já que a avaliação do disco óptico em altos míopes pode ser dificultada por tilt papilar e atrofia peripapilar.
  • Catarata precoce, com opacificação do cristalino tendendo a ocorrer em idade inferior à da população emétrope.
  • Maculopatia miópica, que inclui atrofia coriorretiniana, estafiloma posterior, fissuras lacadas e neovascularização coroidal, com potencial impacto direto sobre a acuidade visual central.

“Como a retina fica mais fina e mais vulnerável, pequenos rasgos podem surgir e evoluir para um descolamento. Além disso, o risco de glaucoma, catarata em idade mais precoce e doenças da mácula também é maior. Por isso, pacientes com alta miopia precisam de acompanhamento constante, mesmo quando enxergam bem com os óculos”, ressalta o especialista.

Sinais de alarme que exigem avaliação imediata

A identificação precoce de sintomas prodrômicos de descolamento de retina é determinante para o prognóstico visual. Arruda destaca os principais sinais que devem motivar encaminhamento urgente: aparecimento súbito de miodesopsias em grande quantidade, fotopsias associadas, sensação de escotoma em cortina ou perda visual abrupta. “Esses sinais podem indicar descolamento de retina e, quanto mais cedo a cirurgia for realizada, maiores são as chances de preservar a visão”, diz.

Periodicidade recomendada de acompanhamento

Em pacientes com alta miopia, sobretudo na faixa pediátrica e na adolescência, quando a progressão tende a ser mais acelerada, a recomendação é de consultas semestrais, com intervalo máximo de um ano mesmo nos casos clinicamente estáveis. As avaliações devem incluir, além da refração, aferição da pressão intraocular, mapeamento de retina e demais exames complementares capazes de identificar alterações estruturais antes da manifestação sintomática.

“O acompanhamento frequente faz toda a diferença. Dependendo da evolução da miopia, o ideal é realizar consultas a cada seis meses. Mesmo nos casos mais estáveis, o intervalo não deve ultrapassar um ano. Nessas avaliações, além de medir o grau, é importante verificar a pressão ocular, realizar o mapeamento da retina e outros exames capazes de identificar alterações antes mesmo do surgimento dos sintomas”, explica.

Para o especialista, o principal ponto de atenção para a prática clínica é o reposicionamento da alta miopia como condição sistêmica ocular, e não apenas erro refrativo. “A alta miopia pode aumentar significativamente o risco de doenças que ameaçam a visão, mas muitas dessas complicações podem ser prevenidas ou tratadas quando identificadas precocemente. O diagnóstico precoce, o acompanhamento regular e a atenção aos sinais de alerta são as melhores formas de preservar a saúde dos olhos ao longo da vida”, finaliza.

Fonte: Dr. Rafael Arruda, oftalmologista do HOPE – Hospital de Olhos de Pernambuco

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