
Ismael Marques de Albuquerque, CFP®
Olá, meus amigos.
Trago hoje um estudo que me fez parar tudo o que eu estava fazendo para ler duas vezes.
Em 8 de agosto deste ano, a Mais Retorno, plataforma de dados de investimentos, publicou um censo de 2.112 fundos de previdência das cinco maiores casas do país: Brasilprev, Bradesco, Itaú, Caixa e Santander. Juntas, elas respondem por cerca de 80% de toda a previdência aberta do Brasil. Se você tem um plano, é grande a chance de ele estar nessa amostra.
Entre os 1.015 produtos com cinco anos completos de cota, apenas 15 bateram o CDI.
Quinze. Em mil e quinze.
Por que o método importa
O que dá peso ao estudo não é o resultado, é o desenho. Censo completo, cota diária líquida de taxa de administração, medido contra CDI, poupança e IPCA. E, principalmente: os 313 fundos já encerrados entraram na conta, medidos até a data em que pararam.
Vocês entendem essa decisão melhor do que qualquer economista. É o equivalente a não excluir da análise os pacientes que abandonaram o seguimento. Quando se olha só quem sobreviveu, olha-se para os vencedores por construção. Viés de sobrevivência é viés de sobrevivência, esteja ele num ensaio clínico ou na lâmina do gerente.
O CDI, aqui, é o grupo controle. E o grupo controle ganhou.
Os números
Na janela de cinco anos encerrada em agosto de 2026, o CDI acumulou 79,1%. O produto mediano de previdência entregou 59,8% ou 76% do CDI.
Em dinheiro: um milhão aplicado em agosto de 2021 virou R$ 1.790.861 no CDI e R$ 1.602.240 no produto mediano. São R$ 188.622 deixados na mesa em cinco anos.
Metade da amostra ficou entre 50% e 80% do CDI. Não é a cauda ruim da distribuição, é o centro dela. E 17,8% dos produtos ficaram abaixo da poupança, que é isenta de imposto. Aplicando o IR da faixa de quatro a seis anos, metade fica abaixo. Mesmo na melhor alíquota possível, a de 10%, ainda é um em cada quatro.
Uma ressalva de honestidade, que o próprio estudo faz: refazendo a conta ponderada por patrimônio, o cliente típico de varejo fica 9 pontos abaixo do CDI, não 24 — porque o dinheiro está concentrado nos fundos grandes. Continua perdendo, com folga menor. Ainda assim, 87,6% do R$ 1,08 trilhão aplicado está em fundo que perdeu do CDI.
E não foi troca de retorno por tranquilidade. O índice de Sharpe, que mede quanto retorno acima do CDI o fundo entregou por unidade de risco, é negativo em 98,5% dos produtos. O cliente oscilou, viu a cota cair, e terminou abaixo de onde ficaria sem correr risco nenhum. Pagou os dois preços.
O achado que muda a lição
Aqui está a parte que separa esse trabalho de um panfleto anti-banco.
Medir multimercado contra o CDI é discutível, então os autores mediram cada categoria também contra o índice da própria classe — que é o teste correto da gestão. Resultado: os multimercados de previdência bateram o IHFA, o índice da classe deles, em 57,2% dos casos. Eles fizeram o trabalho. O problema é que a classe inteira rendeu 57,1% no período, enquanto o CDI fez 79,1%.
Ou seja: o cliente não escolheu o multimercado errado. Ele carregou multimercado num ciclo em que a classe inteira perdeu do pós-fixado. O erro não foi de seleção. Foi de alocação.
Há, é verdade, um recorte indefensável: na categoria Renda Fixa Duração Baixa, cuja função é justamente acompanhar o CDI de perto, 4 fundos em 48 entregaram. Noventa e dois por cento dos produtos contratados para entregar o CDI não entregaram. Aqui não tem ciclo que explique — tem taxa.
O dado mais importante do estudo
Os autores refizeram o mesmo cálculo, mesmos fundos e mesmo método, terminando cinco anos antes. Entre os 519 produtos com dez anos de cota:
- Em agosto de 2021, olhando os cinco anos anteriores: 57,0% estavam acima do CDI.
- Em agosto de 2026, mesma amostra: 0,4%. Dois fundos.
Os mesmos fundos, as mesmas equipes. E nenhum dos dois vencedores atuais estava entre os vencedores da primeira metade, não é que os campeões antigos tenham falhado mais, falharam todos juntos.
O que mudou não foi a gestão. Foi a Selic. O primeiro quinquênio teve juros caindo de 14,25% para 2%, quando o CDI vira uma barra baixa e quase tudo com risco o supera. O segundo teve juros subindo de 2% para 15%, quando a mesma barra fica quase intransponível. O estudo quantifica: em janelas de três anos dentro de um ciclo de alta, 9,2% dos fundos superam o CDI; em ciclo de queda, 39,6%.
A conclusão honesta, e são os próprios autores que a escrevem, não é que a previdência de banco seja ruim. É que ela é refém do ciclo, e o histórico que o cliente olhou na hora de contratar era o retrato do ciclo anterior. Quem assinou em 2021 comprou cinco anos de resultado que já tinham acontecido, às vésperas de o cenário virar.
Isso muda a pergunta. Sai de cena “qual fundo rendeu mais nos últimos cinco anos?”. Entra “esse resultado veio da gestão ou do cenário que acabou de passar?”.
Vocês fazem esse tipo de pergunta o tempo todo. É a diferença entre correlação e causalidade, entre a melhora que veio do tratamento e a que veio da história natural da doença. Só que, quando o assunto é dinheiro, a maioria das pessoas, inclusive médicos brilhantes. aceita o gráfico bonito sem perguntar de onde ele veio.
O que isso vale, na prática
O estudo faz uma conta que considero a mais importante de todas. Com um milhão aplicado, quanto vale sair do produto mediano da prateleira para o quartil superior da mesma casa?
Entre R$ 60 mil e R$ 108 mil em cinco anos, conforme a instituição.
Repare: não se trata de acertar o campeão com o retrovisor. Trata-se de sair do meio da prateleira para o quarto de cima, algo que qualquer análise minimamente estruturada faz. Para o oftalmologista com R$ 2 milhões em um plano herdado do gerente do banco onde tem conta desde a residência, são entre R$ 120 mil e R$ 216 mil em cinco anos. Sem mudar de produto, sem sair da previdência, sem apostar em nada. Só saindo da inércia.
Por que isso é grave especialmente para vocês
Agora junto esse estudo com outro número: R$ 8.475,55. É o teto do INSS em 2026. O máximo que a Previdência Social paga a qualquer brasileiro — do oftalmologista que fatura R$ 100 mil por mês ao trabalhador que ganha R$ 5 mil.
E há um agravante estrutural na medicina. A maioria de vocês atende por pessoa jurídica, e nessa estrutura o contador, corretamente, do ponto de vista tributário, fixa pró-labore baixo e distribui o resto como lucro. O efeito colateral é que a contribuição previdenciária incide sobre uma fração pequena da renda real. Ou seja: o médico não vai receber o teto. Muitos vão receber bem menos. E mesmo o teto integral, para quem tem padrão de R$ 60 mil, é uma queda de quase 90%.
Não existe fundo de pensão da categoria que resolva isso. O médico brasileiro é o próprio INSS dele. E o instrumento escolhido pela maioria para essa missão foi exatamente o produto que o estudo acabou de radiografar.
O envelope é bom. O problema é o recheio.
Previdência tem três vantagens fiscais reais.
Não sofre come-cotas — fundos comuns têm antecipação semestral do IR; o previdenciário, não, e o dinheiro trabalha inteiro até o resgate. Na tabela regressiva, a alíquota cai a 10% após dez anos, a menor disponível para pessoa física no Brasil. E, a mais subaproveitada: a dedução de 12% do PGBL. Quem faz declaração completa e contribui ao INSS abate os aportes da base de cálculo até 12% da renda bruta tributável. Um médico com R$ 600 mil tributáveis pode aportar R$ 72 mil e economizar cerca de R$ 19,8 mil de imposto no ajuste anual.
Sobre esse terceiro ponto, sejamos precisos: não é isenção, é adiamento — no resgate o IR do PGBL incide sobre o valor total, aportes mais rendimentos. O ganho real vem de dois lugares: da diferença entre pagar 27,5% hoje e 10% depois de dez anos, e do que você faz com a restituição. Se aqueles R$ 19,8 mil voltarem para o investimento em vez de virarem consumo, são quase vinte mil por ano trabalhando para você que teriam ido para a Receita. A armadilha inversa eu vejo toda semana: médico com declaração simplificada carregando PGBL. Não aproveitou a dedução e vai pagar imposto sobre o principal na saída. O remédio se chama VGBL.
Somadas, essas vantagens são o motivo pelo qual se aceita o produto. É um envelope fiscal privilegiado e é justamente por isso que o estudo dói. Mesmo largando na frente, a maioria perdeu do CDI. O envelope era bom; o que colocaram dentro dele, não.
O que fazer com o plano parado no banco
Abra o extrato e olhe cinco linhas:
- Taxa de administração. Acima de 1,5% ao ano em renda fixa passiva é caro, e taxa explica boa parte daqueles 92%.
- Taxa de carregamento. Se descontam um percentual de cada aporte, é dinheiro que nunca chegou a render. Planos modernos não cobram.
- Tabela progressiva ou regressiva. Para aposentadoria, a regressiva quase sempre. (Este ponto se tornou menos relevante, pois hoje é possivel escolher a melhor alíquota no momento do benefício)
- PGBL ou VGBL, conforme sua declaração — e o que exceder os 12% vai para VGBL.
- Onde o dinheiro está alocado, e se esse recheio faz sentido para o ciclo atual. Plano 100% pós-fixado por 25 anos desperdiça o prazo mais valioso que você tem; multimercado carregado sem revisão pegou o pior ciclo possível. As duas coisas são falhas de alocação.
E confira os beneficiários. Casou, teve filhos, se separou? Já vi plano indicando ex-cônjuge.
O caminho para corrigir tudo isso é a portabilidade: transferir de uma instituição para outra não é fato gerador de imposto e preserva o prazo já corrido da tabela regressiva, enquanto o resgate cobra o imposto e zera esse relógio. Há limites, PGBL não porta para VGBL nem o contrário, e vale conferir carência e carregamento de saída. Mas ninguém está preso a um plano ruim. A inércia é uma escolha, e o estudo acabou de precificá-la.
Vale ainda registrar uma vantagem que o estudo não mede: os recursos vão diretamente aos beneficiários indicados, sem inventário. E, desde dezembro de 2024, com o Tema 1.214 do STF, está firmada a tese de que não incide ITCMD sobre o repasse de VGBL e PGBL em caso de morte do titular. Enquanto a família aguarda dois ou três anos de inventário, com imóvel e participação na clínica travados, esse dinheiro já está na conta de quem você indicou.
O que mudou em 2026
Três novidades atingem em cheio o médico de alta renda. Aportes em VGBL acima de R$ 600 mil por ano por CPF passaram a pagar 5% de IOF sobre o excedente (Decreto nº 12.499/2025), quem vendeu um consultório por R$ 1 milhão e aplica tudo de uma vez paga R$ 20 mil na largada, e a saída costuma ser diluir entre anos-calendário. Distribuições de lucro acima de R$ 50 mil por mês passaram a sofrer retenção de 10% de IR na fonte. E foi criado o IRPFM, tributação mínima anual para quem soma mais de R$ 600 mil de rendimentos no ano, chegando a 10% acima de R$ 1,2 milhão (Lei nº 15.270/2025).
Repare no movimento: a estrutura de PJ com distribuição de lucros, por três décadas o caminho mais eficiente para o médico, ficou mais cara. No mesmo período, o envelope previdenciário manteve seus 10% e a ausência de come-cotas. Não é solução mágica nem substitui o planejamento tributário da sua PJ, cada caso passa pelo contador, advogado tributarista e por nós. Mas é peça que merece ser reavaliada agora.
A conta que fecha
Um oftalmologista de 40 anos aportando R$ 5 mil por mês numa carteira bem construída, por 20 anos, a 5% reais ao ano acima da inflação, chega aos 60 com cerca de R$ 2,03 milhões em valores de hoje. Esse patrimônio gera uma renda perpétua de aproximadamente R$ 8.450 por mês, sem tocar no principal.
Ou seja: R$ 5 mil por mês durante 20 anos constroem, sozinhos, uma segunda aposentadoria (em termos reais) do tamanho exato do teto do INSS. Só que essa é sua, é vitalícia, não depende de reforma nenhuma e, se você não usar, vai integralmente para quem você indicou.
Conclusão
O oftalmologista passa a carreira dizendo ao paciente que prevenção é mais barata que tratamento, que glaucoma detectado cedo é controlável e, descoberto tarde, já levou o campo visual embora.
Previdência é a mesma lógica aplicada ao patrimônio, com um agravante a favor: aqui o exame é gratuito e leva vinte minutos.
Quinze fundos em mil e quinze bateram o CDI. Não é motivo para desespero nem para sacar tudo amanhã, boa parte disso é ciclo, e ciclo vira. É motivo para parar de tratar a previdência como decisão de um minuto no caixa do banco e passar a tratá-la como o que ela é: o instrumento que vai bancar a segunda metade da sua vida.
Se você quer entender qual estrutura faz sentido para o seu caso, ou simplesmente uma segunda opinião sobre aquele plano parado no banco há oito anos, conte comigo. Fazemos essa análise sem custo, e ela costuma revelar coisas que o cliente não imaginava.
Vamos juntos construir o plano para que, lá na frente, operar seja uma escolha e não uma necessidade.

Obrigado, e concluo dizendo: “Estamos de olho no mercado!”
Fontes
- “As cinco maiores previdências do país contra o CDI” — estudo proprietário da Mais Retorno, 8 de agosto de 2026, janela encerrada em 06/08/2026. A Mais Retorno é plataforma de dados; não distribui, não recomenda e não recebe remuneração das casas analisadas. https://drive.google.com/file/d/1S0qbDuDrz7gpmG870w4DMJkjy4yDrPK2/view?usp=sharing
- Teto do INSS 2026: Portaria Interministerial MPS/MF nº 13/2026.
- IOF sobre aportes em VGBL: Decreto nº 12.499/2025. Dividendos e IRPFM: Lei nº 15.270/2025.
- ITCMD sobre VGBL e PGBL: STF, Tema 1.214 (RE 1.363.013), dezembro de 2024.
- Simulação de R$ 5.000/mês por 240 meses a 5% a.a. real: cálculo próprio. Rentabilidade passada não garante resultado futuro; nada aqui constitui recomendação de investimento.



