A apneia obstrutiva do sono (AOS), tradicionalmente associada a doenças cardiovasculares e metabólicas, tem sido cada vez mais relacionada a alterações oculares estruturais e funcionais. Evidências recentes indicam que a hipóxia intermitente característica do distúrbio pode comprometer desde a superfície ocular até estruturas mais profundas, com potenciais implicações para a prática oftalmológica.
Um estudo recente publicado pela American Academy of Ophthalmology (AAO) avaliou 284 pacientes com AOS e identificou alterações relevantes no limbo ocular, região que abriga células-tronco responsáveis pela regeneração da superfície corneana. Os resultados demonstraram que pacientes com apneia grave apresentaram redução significativa da espessura limbar quando comparados àqueles com formas leves ou moderadas do distúrbio .
Hipóxia, inflamação e impacto na superfície ocular
A fisiopatologia da AOS envolve episódios repetidos de interrupção respiratória durante o sono, levando à hipóxia intermitente, inflamação sistêmica e aumento do estresse oxidativo. Esse ambiente inflamatório pode afetar diretamente a homeostase da superfície ocular.
Segundo o oftalmologista Leôncio Queiroz Neto, do Instituto Penido Burnier, há evidências de que a AOS também pode estar associada a:
- Afinamento retiniano
- Maior risco de glaucoma
- Instabilidade da superfície ocular
A disfunção das células-tronco limbares pode comprometer a regeneração epitelial da córnea, favorecendo sintomas como:
- olho seco persistente
- hiperemia
- oscilação visual
Ceratocone e alterações corneanas
Outro ponto de atenção é a possível relação entre AOS e ceratocone. A instabilidade corneana, associada ao ambiente inflamatório e ao estresse oxidativo, pode favorecer o desenvolvimento ou progressão da ectasia.
O ceratocone é uma doença progressiva caracterizada pelo afinamento e deformação da córnea, levando à piora da qualidade visual e, em casos avançados, à necessidade de transplante corneano.
Sinais clínicos e fatores agravantes
Os sintomas iniciais podem ser inespecíficos e frequentemente negligenciados:
- visão embaçada
- ardor ocular
- fotofobia
- vermelhidão
Além disso, fatores comportamentais e terapêuticos podem agravar o quadro:
- Coçar os olhos, que fragiliza as fibras de colágeno corneano
- Uso inadequado de CPAP, podendo induzir ressecamento ocular
Subdiagnóstico e abordagem integrada
A prevalência da AOS pode chegar a até 30% da população adulta em diferentes graus, porém permanece amplamente subdiagnosticada no Brasil. Diante disso, a avaliação oftalmológica pode desempenhar papel importante na identificação de sinais indiretos da doença.
A abordagem integrada entre oftalmologia e medicina do sono é fundamental, especialmente em pacientes com:
- sintomas persistentes de superfície ocular
- ceratocone ou ectasias corneanas
- suspeita de glaucoma sem causa aparente
Conclusão
O impacto da apneia do sono na saúde ocular reforça a necessidade de uma visão sistêmica na prática oftalmológica. A identificação precoce e o manejo adequado da AOS podem não apenas melhorar a qualidade do sono, mas também contribuir para a preservação da função visual.



