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Especialistas discutem critérios de indicação, riscos e benefícios de um procedimento que ainda divide opiniões na oftalmologia pediátrica.

Até o ano 2000, a cirurgia refrativa em crianças era praticamente um tabu na oftalmologia. O cenário mudou a partir dos estudos pioneiros de Evelyn Paysse, da Baylor, que avaliou a PRK em um grupo específico de crianças com ambliopia anisometrópica e observou ganhos consistentes de acuidade visual, abrindo caminho para novas pesquisas na área.
Donny W. Suh, do UCI Health Gavin Herbert Eye Institute, reforça que a indicação segue reservada a um perfil bem específico: crianças com atrasos de desenvolvimento que não conseguem cooperar com tratamentos convencionais, como tampão ocular, óculos, lentes de contato ou atropina. A cirurgia só é considerada depois que essas alternativas se esgotam, e não deve ser confundida com procedimentos estéticos eletivos.

Barry N. Wasserman, do Wills Eye Hospital, explica que esses pacientes precisam de correção óptica para funcionar, mas não toleram óculos ou lentes por razões neurossensoriais ou comportamentais, muitas vezes ligadas a quadros de autismo severo. Sem uma imagem nítida do mundo, a criança acaba isolada social e visualmente, um estado que ele compara a um “casulo”. Devolver nitidez à visão costuma trazer ganhos rápidos de conforto e adaptação ao ambiente.

Avaliação e indicação

O tratamento tradicional da ambliopia combina óculos ou lentes de contato com oclusão, mas pode causar aniseiconia, diplopia ou ceratite microbiana, além de desconforto psicossocial que se estende à vida adulta. A cirurgia só entra em pauta quando essas opções falham. A avaliação da acuidade visual exige técnicas específicas, como cartões de Allen, e exames como retinoscopia, biometria e ceratometria muitas vezes precisam ser feitos sob anestesia, dada a dificuldade de cooperação do paciente.
Diferentemente do adulto, o olho da criança ainda está em desenvolvimento, mas esperar por estabilização pode ser mais arriscado do que operar, já que erros refrativos altos na infância aumentam o risco de ambliopia permanente por falha na formação das vias visuais.

Técnicas e riscos

A PRK é a técnica mais usada nesse grupo, já que o risco de deslocamento do flap torna o LASIK mais arriscado nesses pacientes. Em erros refrativos muito altos, a lente intraocular fácica é alternativa, com a vantagem de reduzir o haze corneano e o desconforto pós-operatório típicos da PRK. Um estudo de 2016 com 23 crianças mostrou que 88% atingiram a meta de refração, com 85% dos casos com transtorno neurocomportamental relatando melhora de atenção e interação social.
O procedimento pediátrico costuma exigir anestesia geral e estrutura de centro cirúrgico completa. Segundo Wasserman, a técnica já é praticada há cerca de 15 a 20 anos, com poucas complicações registradas na literatura, embora a ectasia corneana siga como principal preocupação, sobretudo em pacientes com síndrome de Down, grupo em que muitos cirurgiões evitam operar.

Pós-operatório e orientação da família

Os primeiros dias após a PRK costumam ser desconfortáveis, e o acompanhamento precisa ser mais próximo do que em adultos, pelo risco de opacidades e pela tendência a esfregar os olhos. Ainda assim, um estudo de 2004 com 11 crianças mostrou melhora de acuidade visual em 75% dos casos avaliáveis, com haze corneano mínimo aos 12 meses. Segundo os especialistas, mesmo antes de qualquer medida objetiva, os pais costumam notar mudanças de comportamento já na primeira semana.
Alinhar expectativas é etapa essencial: a cirurgia não elimina a necessidade de óculos nem cura a ambliopia por completo, e o crescimento ocular pode exigir novas intervenções no futuro. Para os dois médicos, no entanto, o ganho vai muito além da acuidade visual medida em consultório, impactando a rotina familiar e a capacidade da criança de conviver socialmente.

Baseado em reportagem publicada pela Review of Ophthalmology, com falas de Donny W. Suh (UCI Health Gavin Herbert Eye Institute) e Barry N. Wasserman (Wills Eye Hospital / Thomas Jefferson University Hospital).

 

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