Análise de prontuários eletrônicos nos Estados Unidos identificou redução relativa de risco entre 56% e 71% para uveíte idiopática de início recente em indivíduos vacinados contra covid-19, HPV, varicela e herpes-zóster. Autores destacam hipótese de imunomodulação, mas descartam inferência causal.
Um estudo publicado no American Journal of Ophthalmology traz um dado de interesse direto para a prática clínica em uveítes: a vacinação contra determinadas infecções virais pode estar associada a menor incidência de uveíte idiopática, quadro inflamatório intraocular cuja etiologia permanece indefinida na maioria dos casos avaliados em ambulatório.
Desenho do estudo
A pesquisa foi conduzida a partir de dados de prontuários eletrônicos de diferentes sistemas de saúde norte-americanos, coletados entre 2006 e 2025. Os autores compararam coortes de indivíduos vacinados e não vacinados contra covid-19, HPV, varicela e herpes-zóster (nas formulações atenuada e recombinante), com seguimento da incidência de novos casos de uveíte idiopática aos três, seis e 12 meses após a imunização.
Segundo o médico oftalmologista João Marcello Fortes Furtado, professor da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (FMRP-USP), a análise identificou diferença consistente entre os grupos. “Foi visto que, comparados os grandes grupos de pessoas vacinadas e não vacinadas, o grupo de pessoas vacinadas tinha menores taxas de inflamação nos olhos”, relata.
Definição e repercussões clínicas da uveíte
Furtado reforça a definição do quadro para fins de padronização terminológica. “A úvea é um tecido dentro do olho, mas, mesmo quando a inflamação ocorre em alguma região que não é especificamente a úvea, mas está dentro do olho, a gente chama de uveíte. O ‘ite’ tem a ver com inflamação”, esclarece. O professor diferencia o quadro de processos inflamatórios restritos a estruturas externas do bulbo ocular, como a conjuntivite, que não se enquadram na definição de uveíte.
O impacto funcional do processo inflamatório depende da intensidade e da duração do quadro, com potencial de gerar sequelas irreversíveis mesmo em episódios de curta duração, quando suficientemente intensos. As estruturas mais frequentemente comprometidas incluem:
- Retina e nervo óptico, tecidos sem capacidade de regeneração, sujeitos a dano funcional permanente.
- Trabeculado e vias de drenagem do humor aquoso, com inflamação crônica associada a hipertensão ocular e desenvolvimento de glaucoma secundário, também de caráter irreversível.
- Cristalino, com aceleração do processo de opacificação (catarata).
- Córnea, com risco de leucoma corneano, decorrente de opacificação da superfície ocular mais externa.
Magnitude da redução de risco por tipo de vacina
Todas as vacinas incluídas na análise foram associadas a menor risco de uveíte idiopática de início recente no período de 12 meses após a imunização, com achados consistentes mesmo após exclusão de indivíduos com diagnóstico prévio das respectivas infecções virais:
- Covid-19: redução relativa de risco de 65%.
- HPV: redução relativa de risco de 56%.
- Varicela: redução relativa de risco de 71%.
- Herpes-zóster (vacina atenuada): redução relativa de risco de 68%.
- Herpes-zóster (vacina recombinante): redução relativa de risco de 69%.
Hipótese imunológica subjacente
Entre as hipóteses discutidas para explicar a associação está o papel da vacinação na modulação da resposta imune a exposições virais subsequentes. “As hipóteses que a gente tem são de que a vacinação vai melhorar a imunidade da pessoa; então, se em algum momento ela entrar em contato com algum desses vírus mencionados, ou ela não se infecta ou se infecta de uma forma mais branda”, explica Furtado.
Essa resposta imunológica mais eficiente poderia, segundo o professor, atenuar processos inflamatórios de base autoimune desencadeados por infecção viral. “Isso diminuiria a produção de inflamação e a agressão que o nosso próprio sistema imune faz contra tecidos do nosso corpo. Essas são algumas das explicações que podem levar à correlação encontrada.”
Limitações metodológicas: associação não implica causalidade
Por se tratar de um estudo retrospectivo de coortes, o desenho não permite estabelecer relação de causalidade entre vacinação e redução da incidência de uveíte. “Esse tipo de estudo não tem uma conclusão de causa, porque é uma comparação de dois grandes grupos. São várias hipóteses e várias possibilidades. A gente não consegue, nesse tipo de estudo, fazer uma correlação causal”, pondera Furtado.
Ainda assim, o professor destaca a relevância do achado para a formulação de hipóteses a serem testadas em estudos prospectivos. “Comparações de grandes grupos, com essa diferença entre vacinados e não vacinados, e encontrar essa diminuição nas uveítes no grupo vacinado sugerem para a gente um efeito protetor.”
Uveíte não é contraindicação para vacinação
Do ponto de vista da conduta clínica, Furtado é categórico quanto à ausência de contraindicação vacinal associada ao diagnóstico de uveíte, atual ou prévio. “Para quem tem ou já teve uveíte, ela, por si só, não é contraindicação para qualquer vacinação”, afirma.
O professor ressalva que contraindicações específicas podem existir em função de comorbidades associadas, e não da uveíte isoladamente. “Pessoas com problemas específicos, normalmente aquelas que têm, por alguma razão, imunidade baixa, podem ter contraindicações para alguns tipos de vacina.” A mesma lógica se aplica a pacientes com histórico pregresso da doença: “O fato de a pessoa ter qualquer inflamação nos olhos, tanto no momento atual como no passado, por si só, não é uma contraindicação.”
Fonte: Jornal USP. João Marcello Fortes Furtado, professor da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (FMRP-USP). Estudo publicado no American Journal of Ophthalmology.


