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A síndrome do olho seco, condição que se agrava no inverno e em ambientes de baixa umidade, atinge cerca de 36% dos brasileiros e vem ganhando um novo capítulo na literatura sobre diabetes. Segundo o oftalmologista Leôncio Queiroz Neto, do Instituto Penido Burnier, a estimativa é de que metade dos 16,6 milhões de diabéticos brasileiros apresente olho seco neurotrófico, forma da doença associada à perda progressiva e silenciosa da visão.

Mecanismo neurotrófico

No paciente diabético, a hiperglicemia crônica promove um estado inflamatório sistêmico que destrói progressivamente as pequenas fibras nervosas da córnea. A perda de sensibilidade corneana reduz o reflexo de piscar e diminui o estímulo aferente para a produção lacrimal, quadro agravado pelo uso prolongado de telas, explica Queiroz Neto.
O risco clínico do olho seco neurotrófico está justamente na dissociação entre sintoma e gravidade: a progressão costuma ser pouco sintomática, o que leva parte significativa dos pacientes a desenvolver úlceras de córnea e infecções graves já em estágio avançado, sem o alerta prévio de desconforto proporcional ao dano tecidual.

O que mostra a evidência

Um estudo de coorte publicado no periódico JAMA Network Open identificou redução de 22% no risco de olho seco em pacientes diabéticos em uso de inibidores de SGLT2 (gliflozinas), quando comparados a outras terapias sistêmicas para diabetes.
Segundo Queiroz Neto, o benefício ocular observado seria explicado por três mecanismos combinados:
● Preservação neurotrófica: ao evitar picos glicêmicos, a droga reduz a progressão da neuropatia e mantém a inervação corneana funcional.
● Redução da inflamação crônica: menor circulação de células inflamatórias sistêmicas que comprometem as glândulas lacrimais e as glândulas de Meibômio.
● Proteção contra estresse oxidativo: diminuição de radicais livres que agridem os tecidos da superfície ocular.

Considerações para a prática clínica

Na rotina do consultório, Queiroz Neto reforça que a gliflozina não substitui a lubrificação ocular e deve ser prescrita em conjunto com colírio hidratante sem conservantes, já que conservantes tendem a agravar a irritação em uma córnea já comprometida.
O especialista alerta ainda que o uso de inibidores de SGLT2 exige avaliação conjunta com endocrinologista, sobretudo pela contraindicação em pacientes com insuficiência renal, e que a automedicação com a classe, ainda frequente, pode comprometer tanto o controle metabólico quanto a saúde ocular.

Entre os recursos terapêuticos citados para o manejo do olho seco neurotrófico associado ao diabetes estão:
● Imunomoduladores e anti-inflamatórios: ciclosporina e lifitegrast, no controle da resposta inflamatória associada à hiperglicemia.
● Lubrificantes de alta viscosidade e sem conservantes: hialuronato de sódio em alta concentração, fórmulas lipídicas ou géis de uso noturno.
● Terapias biológicas e regenerativas: colírio de insulina tópica e soro autólogo, indicados em lesões corneanas mais complexas.

Orientações para pacientes diabéticos

Para orientação aos pacientes em acompanhamento, Queiroz Neto sugere um conjunto de medidas complementares ao tratamento farmacológico:
● Hidratação sistêmica: pacientes em uso de inibidores de SGLT2 eliminam mais água pela urina, o que exige atenção redobrada à ingestão hídrica diária, calculada em cerca de 35 ml por quilo de peso corporal.
● Lubrificação sem conservantes de 4 a 6 vezes ao dia, independentemente da presença de sintomas.
● Controle ambiental, evitando exposição direta e prolongada a ar-condicionado ou ventiladores e priorizando o uso de umidificador nos ambientes de maior permanência, desligado cerca de uma hora antes de dormir para evitar proliferação de fungos.
● Higiene palpebral, com compressas mornas por 5 minutos à noite para desobstrução das glândulas de Meibômio.
● Suporte nutricional com ômega 3, a partir de peixes, frutos do mar, linhaça e chia.
● Pausas visuais regulares diante de telas, seguindo a regra de 20 minutos, 20 segundos e 20 pés (cerca de 6 metros).

Queiroz Neto reforça que a lágrima artificial, apesar do alívio imediato, atua em diferentes camadas do filme lacrimal e não deve ser vista como solução isolada. A gliflozina, por sua vez, tem contraindicações relevantes e seu uso oftalmológico deve permanecer condicionado à prescrição e ao acompanhamento médico.

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