Condição pode impactar a superfície ocular, interferir na qualidade visual e comprometer a experiência do paciente em cirurgias como a catarata
A otimização da superfície ocular deixou de ser um detalhe no preparo de pacientes cirúrgicos e passou a ocupar papel central na busca por melhores desfechos visuais. Nesse contexto, a blefarite por Demodex vem ganhando destaque por sua prevalência, por sua associação com sintomas persistentes de olho seco e pelo impacto potencial nos resultados de cirurgias oftalmológicas, especialmente em pacientes com altas expectativas visuais.
De acordo com discussão publicada pela Ophthalmology Times, a blefarite por Demodex tem sido reconhecida como uma condição mais comum do que se imaginava. Dados citados a partir do estudo TITAN indicam que 56% dos pacientes programados para cirurgia de catarata apresentavam sinais compatíveis com a doença, identificados pela presença de colaretes na base dos cílios.
A discussão foi conduzida por Alice Epitropoulos, MD, diretora do Dry Eye Center of Excellence, do The Eye Center of Columbus, em Ohio, durante uma mesa-redonda baseada em casos clínicos. O objetivo foi discutir estratégias práticas para reconhecer e tratar o Demodex em pacientes com indicação cirúrgica e em quadros crônicos de doença da superfície ocular.
Quando o paciente não tem queixas evidentes
Um dos casos apresentados envolveu um paciente de 78 anos com degeneração macular relacionada à idade úmida no olho direito, em tratamento com injeções intravítreas, e DMRI seca com atrofia geográfica no olho esquerdo pseudofácico. O paciente relatava piora progressiva da visão, dificuldade para leitura, dificuldade para enxergar placas de rua e ofuscamento noturno, mas negava sintomas como prurido, vermelhidão ou crostas nas pálpebras.
Ao exame, foram observados colaretes moderados, catarata nuclear esclerótica visualmente significativa no olho direito e dermatocálase. Após tratamento com lotilaner, os colaretes desapareceram antes da cirurgia de catarata e o paciente relatou maior conforto ocular.
O caso reforça uma mensagem importante: a ausência de queixa palpebral não exclui blefarite por Demodex. Em pacientes cirúrgicos, a avaliação ativa das margens palpebrais e dos cílios pode ajudar a identificar uma condição tratável antes do procedimento.
Demodex em pacientes com olho seco crônico
O segundo caso envolveu um paciente de 54 anos com histórico de 20 anos de rosácea ocular, blefarite por Demodex e disfunção das glândulas meibomianas. O paciente relatava vermelhidão, ressecamento nas pálpebras, ardor, prurido e crostas, descrevendo grande impacto dos sintomas em sua qualidade de vida.
Ao longo dos anos, já havia realizado diferentes abordagens terapêuticas, incluindo higiene palpebral, compressas mornas, produtos à base de tea tree, ácido hipocloroso, antibióticos e anti-inflamatórios tópicos, pulsação térmica, spray nasal de vareniclina, suplementação com óleo de peixe e óculos de umidificação, com melhora apenas parcial ou temporária.
No exame, foram identificados colaretes intensos, biofilme, margens palpebrais telangiectásicas, disfunção das glândulas meibomianas, tempo de ruptura do filme lacrimal reduzido, edema palpebral e hiperemia conjuntival moderada.
Após tratamento direcionado com lotilaner, houve resolução dos colaretes e melhora de edema, ardor, crostas, prurido e vermelhidão. A necessidade de anti-inflamatório tópico foi suspensa e o escore de sintomas apresentou redução expressiva.
Um diagnóstico que pode estar sendo subestimado
Para Alice Epitropoulos, os casos mostram que o Demodex não deve ser tratado como uma blefarite “comum”. A presença de colaretes na base dos cílios é um achado clássico e deve levar o oftalmologista a considerar a infestação por Demodex como um diagnóstico específico e tratável.
Essa mudança de olhar é especialmente relevante no pré-operatório. Pacientes que serão submetidos à cirurgia de catarata, cirurgia refrativa ou implante de lentes intraoculares premium dependem de uma superfície ocular estável para medidas biométricas mais confiáveis, melhor qualidade visual e maior satisfação no pós-operatório.
A discussão também chama atenção para pacientes com olho seco crônico ou doença das glândulas meibomianas que não respondem como esperado às terapias convencionais. Nesses casos, examinar cuidadosamente as margens palpebrais e os cílios pode revelar um fator etiológico que vinha sendo negligenciado.
Tratamento direcionado e impacto na prática clínica
Estudos recentes apontam que a solução oftálmica de lotilaner 0,25% pode reduzir significativamente a infestação por Demodex, eliminar colaretes e melhorar a função das glândulas meibomianas em pacientes com blefarite associada à doença glandular.
A mensagem prática para o consultório é clara: quando o paciente apresenta sintomas persistentes de olho seco, blefarite recorrente, disfunção meibomiana ou será submetido a uma cirurgia ocular, a avaliação de Demodex deve fazer parte do exame. O diagnóstico pode ser simples, baseado na identificação dos colaretes, mas seu impacto clínico pode ser relevante.
Ao reconhecer e tratar a blefarite por Demodex, o oftalmologista amplia as possibilidades de controle da inflamação palpebral, melhora a estabilidade da superfície ocular e contribui para uma jornada cirúrgica mais segura e previsível.



