Um estudo clínico realizado no Japão sugere que homens que consomem álcool regularmente podem desenvolver presbiopia avançada mais cedo do que aqueles que não têm esse hábito. A pesquisa reforça a importância de considerar fatores de estilo de vida na saúde ocular, especialmente em uma condição fortemente relacionada ao envelhecimento, como a presbiopia.
Publicado na revista Clinical Optometry, o estudo foi conduzido por pesquisadores da Keio University School of Medicine, em Tóquio, e avaliou 6.258 pacientes entre 40 e 79 anos atendidos em uma clínica oftalmológica em Kanagawa, no Japão, entre dezembro de 2018 e abril de 2024.
A análise considerou a potência de adição para perto, ou seja, o grau necessário para restaurar a visão de perto, como marcador da progressão da presbiopia. Os pesquisadores avaliaram sua relação com hábitos de vida e parâmetros oftalmológicos, incluindo consumo de álcool, tabagismo, níveis de HbA1c, presença de retinopatia diabética, equivalente esférico, astigmatismo e espessura do complexo de células ganglionares.
Os resultados indicaram que sexo masculino, consumo de álcool, equivalente esférico míope, erros astigmáticos e complexo de células ganglionares mais fino estiveram associados a maiores níveis de adição para perto, tanto no limiar de +1,50 D, considerado presbiopia sintomática, quanto no de +2,50 D, definido pelos autores como presbiopia avançada.
Segundo os autores, o hábito de beber foi identificado como fator de risco para maior adição de perto apenas entre os homens. A análise também mostrou que homens que consumiam álcool atingiram o estágio de presbiopia avançada mais cedo do que homens não consumidores, especialmente na faixa etária entre 50 e 59 anos.
Por outro lado, tabagismo, níveis de HbA1c e presença de retinopatia diabética não apresentaram associação significativa com os desfechos avaliados no estudo. Para os pesquisadores, esse achado sugere que o sinal de risco relacionado ao álcool não foi explicado, ao menos nessa amostra, por alterações glicêmicas medidas ou por complicações oculares do diabetes.
Embora o estudo não comprove que o álcool cause diretamente a progressão da presbiopia, os autores discutem possíveis mecanismos biológicos. Entre eles está o papel do acetaldeído, subproduto do metabolismo do álcool, que pode induzir dano celular por espécies reativas de oxigênio e disfunção mitocondrial. O consumo crônico de álcool também já foi associado em outras investigações à elevação da pressão intraocular e ao risco de glaucoma de ângulo aberto.
Esses mecanismos poderiam, em tese, comprometer a função acomodativa do músculo ciliar e contribuir para o enrijecimento mais precoce do cristalino, fenômenos envolvidos na perda progressiva da visão de perto.
Os próprios autores, no entanto, ressaltam limitações importantes. O consumo de álcool e o tabagismo foram autorreferidos, o que pode introduzir viés de memória. Além disso, o desenho observacional e transversal não permite estabelecer causalidade. O estudo também não avaliou variáveis como escolaridade, ocupação, distância habitual de trabalho, frequência exata, quantidade ou tipo de bebida alcoólica consumida.
Ainda assim, os pesquisadores consideram que os achados podem complementar investigações anteriores e contribuir para ações de educação em saúde, chamando atenção para os possíveis efeitos do consumo de álcool também sobre a saúde ocular.
Fonte: Ophthalmology Times


