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Por Francisco Irochima

Entre os dias 1º e 13 de abril de 2026, um grupo seleto de oito gestores e líderes da saúde brasileira embarcou para uma imersão estratégica em dois dos maiores centros globais de inovação do planeta: Beijing e Shanghai. Sob coordenação do Prof. Dr. Francisco Irochima Pinheiro, médico oftalmologista, professor universitário, pesquisador e gestor de inovação, a Missão China Health 2026 nasceu com um propósito claro: compreender, de dentro, como a China se tornou uma potência mundial em tecnologia, inteligência artificial, manufatura e saúde.

A iniciativa reuniu gestores interessados em inovação, importação tecnológica, transformação digital e novos modelos de saúde. Mais do que uma viagem técnica, a missão representou uma verdadeira jornada ao futuro da medicina e da indústria da saúde. A escolha da China não aconteceu por acaso. Hoje, o país ocupa posição central na corrida tecnológica mundial. Em 2025, os investimentos chineses em pesquisa e desenvolvimento ultrapassaram 3,9 trilhões de yuans, aproximadamente 569 bilhões de dólares, alcançando 2,8% do PIB nacional. (english.www.gov.cn) A China lidera atualmente o número global de depósitos de patentes, possui alguns dos maiores clusters de inovação do planeta e se consolidou como uma das maiores forças em inteligência artificial, robótica, biotecnologia e manufatura avançada. (wipo.int)

Mais impressionante ainda é a velocidade dessa transformação. Em 2024, a China instalou cerca de 295 mil robôs industriais em suas fábricas, mais da metade de todas as instalações globais. (nypost.com). Em paralelo, o país acelera investimentos em chips, IA aplicada à saúde, robótica humanoide e automação hospitalar. (reuters.com). Foi nesse cenário que a Missão China Health 2026 mergulhou.

 

Pequim: tecnologia, medicina e inteligência hospitalar

A primeira parada da missão foi em Beijing, capital chinesa e um dos maiores polos científicos do mundo. Entre os destaques esteve a visita técnica ao Beijing Tsinghua Changgung Hospital, hospital vinculado à prestigiada Tsinghua University, considerada uma das universidades mais avançadas da Ásia.

O complexo hospitalar impressiona não apenas pela arquitetura futurista e pela integração tecnológica, mas também pela sua dimensão estrutural. O Beijing Tsinghua Changgung Hospital é um hospital público de grande porte, com capacidade planejada para aproximadamente 1.500 leitos, consolidando-se como uma das mais modernas estruturas hospitalares da capital chinesa. (btch.edu.cn)

Projetado dentro de um conceito de medicina inteligente, o hospital integra assistência, pesquisa, ensino e inovação em uma estrutura altamente conectada, com forte presença de inteligência artificial, automação, big data e sistemas digitais de gestão hospitalar.

Mas a experiência mais marcante talvez tenha acontecido quando o próprio Prof. Dr. Francisco Irochima decidiu ir além da observação institucional. Para compreender de maneira real o funcionamento da saúde inteligente chinesa, fez questão de passar pessoalmente por toda a jornada de atendimento dentro do hospital. “A ideia era simples: sentir na prática aquilo que apresentações e visitas guiadas nem sempre conseguem traduzir”, diz Irochima. O resultado impressionou profundamente o grupo brasileiro.

Desde a recepção inicial até a retirada dos medicamentos prescritos na própria farmácia hospitalar, praticamente todo o processo ocorreu integrado por inteligência artificial, automação e sistemas digitais inteligentes. Em poucos minutos, o atendimento já havia iniciado com etapas automatizadas de pré-exame, coleta digital de dados e integração instantânea das informações clínicas em um único sistema hospitalar.

Sem filas visíveis, sem excesso de burocracia e com uma eficiência quase cirúrgica, todo o percurso, cadastro, triagem, consulta, exames iniciais, prescrição e retirada da medicação, levou aproximadamente 30 minutos. Até mesmo a farmácia chamava atenção. Robôs automatizados realizavam parte da logística de separação e entrega dos medicamentos prescritos, reforçando a sensação de estar diante de um modelo hospitalar que parece operar muitos anos à frente em integração tecnológica.

Os números financeiros também surpreenderam. Em um hospital de ponta da capital chinesa, o custo total da experiência foi de apenas 85 yuans, aproximadamente 56 reais na conversão. Desse valor, cerca de 50 yuans (aproximadamente 35 reais) corresponderam ao atendimento médico e outros 35 yuans (aproximadamente 21 reais) aos medicamentos prescritos e retirados na própria unidade hospitalar.

A vivência também ajudou a desconstruir uma percepção muito comum no Ocidente: a ideia de que a saúde na China seria totalmente gratuita para toda a população. Na prática, o sistema funciona de maneira mais complexa. Embora exista ampla cobertura estatal e seguros vinculados ao sistema público, muitos cidadãos chineses realizam algum nível de coparticipação financeira no atendimento, especialmente de acordo com a categoria do seguro de saúde ao qual pertencem. Mesmo os planos mais simples normalmente exigem pagamentos complementares reduzidos para consultas, procedimentos ou medicamentos. O que impressiona não é apenas o custo relativamente baixo, mas a combinação entre escala populacional gigantesca, velocidade operacional, automação intensiva e forte incorporação tecnológica.

Para os integrantes da missão, ficou evidente que a China não está apenas investindo em hospitais modernos. O país está redesenhando toda a experiência da jornada do paciente através da inteligência artificial, integração digital e eficiência operacional em larga escala.

 

Shanghai: o coração financeiro e tecnológico da nova China

Se Pequim impressiona pela força acadêmica e institucional, Shanghai revela a face futurista, cosmopolita e empresarial da China moderna. Um dos momentos mais emblemáticos da missão foi a recepção oficial no Shanghai Hongqiao International Central Business District (CBD), um dos mais importantes centros estratégicos de negócios, inovação e conectividade da Ásia. O gigantesco complexo urbano ocupa uma área aproximada de 151,4 quilômetros quadrados e foi concebido pelo governo chinês como uma plataforma internacional de integração entre comércio global, tecnologia, logística, inovação e investimentos.

O Hongqiao CBD tornou-se também a sede permanente da China International Import Expo (CIIE), consolidando a região como uma verdadeira porta de entrada entre empresas internacionais e o mercado chinês. Arranha-céus futuristas, mobilidade extremamente eficiente, hubs logísticos inteligentes, integração ferroviária de alta velocidade, centros empresariais internacionais e forte presença tecnológica transformam o distrito em um símbolo da nova estratégia chinesa de desenvolvimento econômico e inovação.

Foi nesse ambiente altamente estratégico que o grupo brasileiro participou de uma importante apresentação conduzida pela ChinaLink, representada por Thiago Cidogno, abordando de maneira prática e objetiva as possibilidades de importação direta de fornecedores chineses para o Brasil. A apresentação despertou enorme interesse entre os gestores da missão ao demonstrar como hospitais, clínicas, distribuidores e empresas brasileiras podem acessar diretamente fabricantes chineses de insumos médicos, equipamentos hospitalares, dispositivos tecnológicos e até máquinas industriais voltadas ao setor da saúde.

Mais do que uma simples intermediação comercial, a proposta apresentada mostrou um novo modelo de conexão entre Brasil e China, reduzindo barreiras de importação, aproximando compradores de fabricantes e criando oportunidades estratégicas de acesso a tecnologias emergentes com maior competitividade.

Dentro do próprio Hongqiao CBD, ficou evidente como a China vem estruturando um ecossistema gigantesco voltado à internacionalização de negócios, inovação tecnológica e cadeias globais de suprimentos.

 

Medicina tradicional e inovação convivendo lado a lado

A missão também visitou o Shuguang Hospital Affiliated to Shanghai University of Traditional Chinese Medicine, hospital ligado à prestigiada Shanghai University of Traditional Chinese Medicine, uma das mais importantes instituições de medicina tradicional chinesa do mundo. O contraste é fascinante: ao mesmo tempo em que a China lidera avanços em inteligência artificial, automação e robótica, também preserva e integra sua medicina tradicional milenar ao sistema moderno de saúde.

E talvez o mais surpreendente tenha sido perceber que tradição e alta tecnologia não competem entre si naquele ambiente, elas coexistem de forma absolutamente integrada. O Shuguang Hospital é reconhecido na China como um hospital terciário de referência nacional em medicina tradicional chinesa integrada à medicina ocidental, com forte atuação em assistência, ensino, pesquisa clínica e inovação tecnológica. Durante a visita, um dos pontos que mais chamou atenção do grupo brasileiro foi a impressionante infraestrutura voltada à pesquisa clínica inteligente e monitoramento digital de pacientes.

O hospital vem utilizando tecnologias vestíveis integradas a plataformas digitais capazes de realizar monitoramento contínuo e em tempo real de pacientes participantes de pesquisas clínicas e protocolos terapêuticos. Sensores corporais inteligentes permitem acompanhamento de parâmetros fisiológicos, comportamento clínico e deslocamento dos pacientes dentro da própria estrutura hospitalar. Em alguns setores, os sistemas utilizam inclusive recursos avançados de geolocalização tridimensional (3D indoor positioning), permitindo rastreamento preciso da movimentação hospitalar em tempo real dentro do complexo médico. A sensação era a de estar observando uma fusão entre hospital, centro de pesquisa, laboratório de inovação e plataforma tecnológica integrada.

Para os integrantes da Missão China Health 2026, ficou evidente que a China não vê a medicina tradicional como algo preso ao passado. Pelo contrário: o país parece estar utilizando sua tradição milenar como base cultural para impulsionar novos modelos de pesquisa translacional, inovação clínica e medicina personalizada apoiada por tecnologia.

Outro momento de enorme impacto da etapa em Shanghai foi a visita à United Imaging Healthcare, uma das maiores empresas de tecnologia médica da China e atualmente uma das gigantes globais do setor de diagnóstico por imagem e equipamentos hospitalares de alta complexidade. Fundada em 2011, a empresa tornou-se referência internacional no desenvolvimento de soluções avançadas em ressonância magnética (RNM), tomografia computadorizada, PET/CT, PET/MR, radioterapia, medicina nuclear e inteligência artificial aplicada ao diagnóstico médico.

Os integrantes da Missão China Health 2026 foram recebidos pela direção da empresa e tiveram acesso não apenas às áreas institucionais e de demonstração tecnológica, mas também à própria planta industrial da companhia. A experiência permitiu observar de perto um processo produtivo altamente automatizado e impressionantemente tecnológico.

Ao longo da visita, o grupo percorreu linhas de produção onde era possível acompanhar etapas extremamente precisas de fabricação, desde soldagem robotizada, montagem estrutural dos equipamentos, integração eletrônica, instalação dos sistemas computacionais, calibração tecnológica até o envelopamento final dos produtos destinados ao mercado global. A sensação era a de estar dentro de uma indústria aeroespacial aplicada à saúde. Braços robóticos, sistemas automatizados de movimentação, linhas inteligentes de produção e rigorosos protocolos digitais de controle de qualidade mostravam como a China vem consolidando sua independência tecnológica em equipamentos médicos de altíssima complexidade.

Durante as apresentações técnicas, os gestores brasileiros puderam observar equipamentos de última geração desenvolvidos pela própria United Imaging, incluindo plataformas avançadas de ressonância magnética de ultra-alta definição, tomografia computadorizada com inteligência artificial embarcada, sistemas híbridos de PET Scan e soluções modernas de radioterapia guiada por imagem.

O grupo também discutiu possibilidades futuras envolvendo inovação, incorporação tecnológica, importação de equipamentos médicos e cooperação internacional. Para muitos participantes da missão, a visita à United Imaging representou um dos momentos mais simbólicos de toda a jornada: a percepção clara de que a China deixou de ser apenas uma grande fabricante mundial para se tornar também protagonista em inovação tecnológica de altíssimo nível na medicina global.

 

CMEF 2026: um grande evento mundial da tecnologia em saúde

O ponto culminante da Missão China Health 2026 foi a participação na China International Medical Equipment Fair (CMEF), realizada em Shanghai entre os dias 9 e 12 de abril. Considerada uma das maiores feiras de tecnologia médica do planeta, a CMEF impressiona não apenas pelo tamanho, mas principalmente pela sensação de estar caminhando dentro do futuro da saúde mundial.

Os números são gigantescos! Mais de 5 mil expositores, mais de 300 mil visitantes profissionais, representantes de mais de 150 países, aproximadamente 320 mil metros quadrados de área de exposição, dezenas de pavilhões temáticos interligados, centenas de conferências e fóruns internacionais de inovação.

Os integrantes da Missão China Health 2026 percorreram enormes pavilhões dedicados exclusivamente à inteligência artificial médica, automação hospitalar, robótica cirúrgica, diagnóstico por imagem, dispositivos vestíveis, telemedicina, terapia intensiva, reabilitação, medicina laboratorial e manufatura avançada em saúde.

Talvez nenhum setor tenha impressionado tanto quanto os pavilhões de robótica cirúrgica. Braços robóticos de altíssima precisão realizavam demonstrações em tempo real diante do público, mostrando procedimentos minimamente invasivos guiados por inteligência artificial, sistemas de navegação cirúrgica e plataformas integradas de visão computacional. Algumas soluções lembravam verdadeiros centros de comando aeroespacial aplicados à medicina.

Em diversos estandes, inteligências artificiais eram capazes de analisar imagens médicas em segundos, gerar apoio diagnóstico automatizado, prever riscos clínicos e integrar informações hospitalares em plataformas centralizadas. A automação também dominava os corredores da feira. Robôs logísticos hospitalares, sistemas autônomos de dispensação de medicamentos, equipamentos automatizados para laboratório, plataformas inteligentes de triagem e soluções robotizadas para reabilitação mostravam como a China vem acelerando a digitalização completa da saúde.

Outro aspecto extremamente relevante foi o acesso direto aos fabricantes. Assessorados pelos integrantes e guias da ChinaLink, os gestores brasileiros puderam circular estrategicamente pelos pavilhões industriais e comerciais da feira, entrando em contato direto com fabricantes chineses de insumos médicos, equipamentos hospitalares, dispositivos tecnológicos e máquinas industriais.

Diferentemente de muitas feiras ocidentais focadas apenas em distribuição, a CMEF permitia conversar diretamente com as próprias indústrias responsáveis pelo desenvolvimento e fabricação das tecnologias. Isso proporcionou aos participantes da missão discussões práticas sobre importação, customização de equipamentos, fabricação OEM, canais de distribuição, certificações internacionais e possibilidades comerciais futuras entre Brasil e China. Para muitos integrantes da missão, a sensação era clara: a CMEF não era apenas uma feira médica. Era uma demonstração concreta da velocidade com que a China está transformando inovação em escala industrial global.

A sensação final era inevitável: o futuro da saúde está sendo desenhado agora, e uma parte importante dele passa diretamente pelos gigantescos pavilhões tecnológicos de Shanghai.

 

Uma missão sobre futuro

A Missão China Health 2026 mostrou que inovação não é apenas tecnologia. É visão de futuro, velocidade de execução, integração entre ciência e mercado e capacidade de transformar conhecimento em soluções reais. Sob coordenação do Prof. Dr. Francisco Irochima Pinheiro, a missão consolidou conexões internacionais, abriu portas para novos negócios e aproximou o Brasil de um dos ecossistemas mais avançados do mundo em saúde e inovação. Mais do que visitar hospitais, centros empresariais e feiras internacionais, o grupo testemunhou um país que decidiu transformar inovação em estratégia nacional.

O impacto e os resultados obtidos pela Missão China Health 2026 já abriram caminho para uma nova etapa ainda mais estratégica: a realização de futuras missões segmentadas por especialidades médicas e áreas específicas da saúde. A proposta agora é aprofundar conexões já estabelecidas durante esta primeira imersão, criando agendas direcionadas para oftalmologia, oncologia, radiologia, cirurgia robótica, medicina diagnóstica, inteligência artificial aplicada à saúde, reabilitação, indústria farmacêutica e manufatura hospitalar avançada. Com uma ponte sólida construída junto a hospitais, universidades, fabricantes e indústrias chinesas, as próximas missões deverão proporcionar visitas altamente direcionadas a centros de excelência, plantas industriais e fabricantes estratégicos, permitindo não apenas intercâmbio científico e tecnológico, mas também a geração concreta de novos negócios, importações, parcerias institucionais e oportunidades comerciais entre Brasil e China. A expectativa é transformar a Missão China Health em uma plataforma permanente de conexão internacional entre inovação, tecnologia e desenvolvimento da saúde brasileira.

E talvez essa tenha sido a principal lição da viagem: o futuro não está chegando. Em muitos lugares da China, ele já começou!

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