Reduzir a pressão intraocular ainda é a única estratégia comprovadamente eficaz para desacelerar ou conter a progressão do glaucoma. Mas um conjunto crescente de evidências sugere que hábitos de vida também podem contribuir para melhores desfechos quando somados ao tratamento convencional. Uma revisão de literatura conduzida por pesquisadores da Índia, publicada no World Journal of Methodology, avaliou o papel de mudanças comportamentais na prevenção e no manejo da doença, com foco especial em seu potencial como complemento às terapias já consagradas de redução pressórica.
Os autores analisaram como fatores como alimentação, prática de atividade física, exercícios de ioga, postura durante o sono e uso de suplementos nutricionais se relacionam ao desenvolvimento e à evolução do glaucoma. O achado central é que atividade física regular, práticas de atenção plena, higiene do sono e o abandono do tabagismo podem reforçar de forma consistente os efeitos das terapias tradicionais.
Atividade física e proteção do nervo óptico
O exercício aeróbico se destacou como um dos componentes mais benéficos entre os hábitos avaliados. Uma sessão isolada de 30 minutos de caminhada moderada em esteira já foi suficiente para reduzir temporariamente a pressão intraocular em até 3,5 mmHg. Mais relevante ainda, um programa supervisionado de exercícios aeróbicos ao longo de 12 meses produziu uma queda sustentada de 1,5 mmHg na pressão intraocular e reduziu em quase 45% o afinamento da camada de fibras nervosas da retina em comparação a grupos controle, um indício de proteção estrutural duradoura.
Do ponto de vista fisiológico, a prática regular de exercícios parece favorecer a perfusão da cabeça do nervo óptico, elevar os níveis endógenos de neurotrofinas como o BDNF e reduzir o estresse oxidativo, mecanismos diretamente relacionados à fisiopatologia do glaucoma. Assim, incorporar exercício aeróbico moderado à rotina do paciente não apenas ajuda no controle pressórico, como também traz ganhos neuroprotetores e cardiovasculares mais amplos.
Atenção plena, sono e controle do estresse
Intervenções baseadas em atenção plena para redução do estresse também mostraram resultados promissores como terapia adjuvante. Dois ensaios clínicos randomizados registraram reduções de 1,8 a 2,3 mmHg na pressão intraocular, acompanhadas por diminuições de 20% a 30% nos escores de ansiedade, ganhos na qualidade de vida relacionada à visão e queda em marcadores inflamatórios de estresse, como cortisol, interleucina 6 e fator de necrose tumoral alfa.
Esses resultados reforçam a participação do eixo hipotálamo hipófise adrenal e de mediadores inflamatórios na modulação da pressão intraocular e na vulnerabilidade das células ganglionares da retina. Em coortes de pacientes com apneia do sono, o uso de CPAP foi associado a uma progressão 10% mais lenta da perda de campo visual ao longo de um ano, sugerindo que a oxigenação noturna também interfere na resiliência do nervo óptico.
O impacto do tabagismo
A cessação do tabagismo já era associada, em estudos anteriores, a uma menor velocidade de declínio do campo visual, e a revisão atual confirma esse achado, com uma taxa 15% mais lenta de afinamento da camada de fibras nervosas da retina entre ex-fumantes. O provável mecanismo envolve o comprometimento vascular e o dano oxidativo induzidos pelo cigarro, ambos implicados na progressão da doença.
Um complemento, não um substituto
Os autores são categóricos ao afirmar que essas mudanças de hábito não substituem medicamentos, laser ou cirurgia, mas podem somar benefícios clinicamente relevantes a esse arsenal terapêutico. Uma redução sustentada de 1 a 3 mmHg na pressão intraocular pode diminuir o risco de progressão do glaucoma entre 10% e 20%, um efeito comparável ao de um agente tópico adicional. Além disso, os efeitos neuroprotetores que independem da pressão intraocular, como o aumento da perfusão, a indução de neurotrofinas e o controle da inflamação, atuam sobre vias fisiopatológicas que as terapias atuais não alcançam diretamente.
Os pesquisadores destacam ainda que essas intervenções trazem ganhos que vão além do olho: melhoram a saúde cardiovascular, reduzem comorbidades e elevam a qualidade de vida geral, um ponto especialmente relevante diante da alta prevalência de transtornos de humor e da carga de tratamento enfrentada por pacientes com glaucoma.
Fonte: Aggarwal S, Morya AK, Kaur R, et al. Role of lifestyle modifications in glaucoma: A systematic review. World Journal of Methodology, março de 2026.


