A digitalização da gestão em saúde ampliou a capacidade dos hospitais de coletar dados, mas coletar não é o mesmo que usar. Indicadores de qualidade fazem parte da rotina assistencial há décadas, porém a comparação entre instituições ainda esbarra em metodologias diferentes, ausência de padronização e pouca transparência na divulgação dos resultados.
O avanço dos modelos de remuneração baseada em valor, somado à pressão por eficiência operacional e segurança do paciente, tem levado o setor a repensar essa lógica. Os indicadores deixam de servir apenas ao monitoramento interno e passam a orientar decisões estratégicas de gestão.
Um exemplo desse movimento é o Panorama Ahfip, iniciativa da Associação dos Hospitais Filantrópicos Privados de Excelência que reúne indicadores padronizados, auditados e comparáveis de qualidade e segurança hospitalar. A primeira edição traz dados de dez hospitais filantrópicos associados referentes ao primeiro semestre de 2025, com auditoria independente conduzida pelo Consórcio Brasileiro de Acreditação, responsável por validar tanto a metodologia quanto as bases primárias utilizadas pelas instituições.
Para Wilson Pedreira, CEO da Ahfip, a proposta representa uma mudança na forma de mensurar e usar a qualidade assistencial como ferramenta de gestão. Segundo ele, de 50% a 60% dos eventos adversos em hospitais são evitáveis, e o panorama nasce para dar visibilidade a esses processos, permitindo que a transparência guie a melhoria contínua e a sustentabilidade do setor.
Benchmarking qualificado muda a lógica da gestão
Historicamente, cada hospital constrói seus próprios indicadores e mecanismos de acompanhamento da qualidade. Esse monitoramento é importante, mas isolado, ele nem sempre revela se um resultado é de fato bom quando comparado a instituições com perfil semelhante.
Sandra Cristine, gerente de qualidade, gestão de risco assistencial e Same do A.C.Camargo Cancer Center e líder do grupo de trabalho de qualidade e segurança da Ahfip, explica que a padronização metodológica cria uma linguagem comum para analisar a assistência. Com dados homogeneizados, auditados e comparáveis, os indicadores passam a apoiar processos estruturados de benchmarking e aprendizado coletivo.
Segundo ela, o principal ganho é sair de uma visão isolada para uma gestão orientada por benchmarking qualificado, o que permite comparar o desempenho entre hospitais de alta excelência. A proposta não é ranquear instituições, mas entender por que algumas obtêm melhores resultados e como essas experiências podem ser compartilhadas para elevar o desempenho de toda a rede.
Pertinência assistencial amplia o conceito de qualidade
Um dos pontos mais inovadores do Panorama Ahfip é a incorporação do conceito de pertinência assistencial, ainda pouco explorado em levantamentos nacionais. Enquanto os indicadores tradicionais concentram-se em desfechos como mortalidade, infecções e tempo de permanência, o panorama também avalia se os recursos utilizados foram apropriados ao perfil clínico de cada paciente.
Isso significa observar não apenas quantos dias um paciente permaneceu internado em UTI, mas se havia indicação clínica para essa internação. Para Sandra, essa abordagem aproxima a gestão hospitalar de uma lógica baseada em valor, na qual eficiência e qualidade caminham juntas.
A executiva destaca que avaliar a pertinência permite identificar desperdícios, reduzir intervenções de baixo valor e fortalecer a sustentabilidade financeira das instituições sem comprometer a excelência assistencial. Para Pedreira, o diferencial da iniciativa está justamente em avaliar a adequação do cuidado, e não apenas seu resultado final.
Indicadores ganham sentido quando analisados em conjunto
O panorama reúne métricas de segurança do paciente, qualidade clínica e eficiência operacional, entre elas densidade de infecção de corrente sanguínea associada a cateter venoso central em UTI adulto, taxa de infecção de sítio cirúrgico, lesão por pressão adquirida durante a internação, quedas com dano, média de permanência hospitalar, permanência em UTI e razão de mortalidade padronizada, o SMR.
Mais do que observar cada indicador isoladamente, a proposta da Ahfip é analisar o conjunto das informações considerando o perfil assistencial de cada instituição. O SMR, por exemplo, compara a mortalidade observada com a esperada para pacientes de determinado nível de gravidade. Resultados abaixo de 1 indicam mortalidade menor que a esperada, sugerindo melhor desempenho após o ajuste de risco. Segundo a associação, os hospitais participantes ficaram abaixo desse patamar, o que reforça o padrão de qualidade das instituições e estabelece uma base para metas futuras de melhoria contínua.
Transparência também é letramento do paciente
Além de apoiar a gestão hospitalar, o Panorama Ahfip busca ampliar a transparência para pacientes, familiares, empresas e operadoras de saúde. Para Sandra, indicadores técnicos só cumprem seu papel quando traduzidos em informações claras, contextualizadas e relevantes para diferentes públicos, o que passa por traduzir métricas como SMR ou taxas de infecção em conteúdo compreensível para apoiar a tomada de decisão. A associação pretende reforçar esse processo por meio de ações educativas e eventos voltados à saúde corporativa.
Aprendizado contínuo entre instituições
O panorama foi concebido também como instrumento permanente de aprendizado entre hospitais. Embora a publicação seja anual, os dados serão acompanhados continuamente nas reuniões do grupo de trabalho de qualidade e segurança da Ahfip, permitindo disseminar rapidamente experiências bem-sucedidas entre os hospitais associados.
Para Pedreira, o maior valor do projeto está na capacidade de acelerar a evolução coletiva do setor. Quando um hospital do grupo atinge excelência em um indicador no qual outro precisa avançar, abre-se espaço para troca de conhecimento, boas práticas, tecnologia e processos, o que ele descreve como o setor filantrópico privado elevando a régua da saúde brasileira.
O Panorama Ahfip evidencia uma mudança na forma de avaliar a qualidade hospitalar: dados comparáveis, auditados e contextualizados passam a ser a base de uma gestão orientada por valor, aprendizado coletivo e melhoria contínua.
Fonte: Saúde Business


