Um estudo multicêntrico publicado no JAMA Ophthalmology mostra que pacientes com menor poder aquisitivo — especialmente aqueles que vivem em áreas rurais — têm probabilidade significativamente menor de receber cuidados padrão para glaucoma quando comparados a pacientes mais ricos. Os resultados reforçam a necessidade urgente de abordar desigualdades socioeconômicas no atendimento a pacientes recém-diagnosticados nos Estados Unidos.
Fatores não médicos influenciando a qualidade do cuidado
A pesquisa foi conduzida por diversas instituições e contou com a participação de Dustin French, PhD, professor de Oftalmologia e Ciências Sociais Médicas na Northwestern Medicine. O estudo analisou dados de mais de 1.400 pacientes atendidos em sistemas acadêmicos de saúde vinculados ao consórcio SOURCE (Sight Outcomes Research Collaborative), abrangendo o período de 2010 a 2022.
Foram examinados fatores não clínicos, incluindo:
- raça e etnia autodeclaradas
- residência urbana ou rural
- nível de riqueza da comunidade
- composição familiar (como presença de crianças no domicílio)
A média de idade dos participantes era de 70 anos; 54% eram mulheres. A amostra incluía 32% de pacientes negros, 7% latinos, 3% asiático-americanos e 57% brancos.
Como a qualidade do tratamento de glaucoma foi medida
O desfecho primário analisado foi a probabilidade de atingir uma redução ≥15% da pressão intraocular (PIO) entre 12 e 18 meses após o diagnóstico — indicador estabelecido pelo U.S. National Quality Forum. Esse controle é geralmente alcançado por meio de colírios hipotensores ou intervenções cirúrgicas.
Entre os 1.030 pacientes que retornaram para acompanhamento no período previsto, 76% atingiram a meta de redução da PIO. Porém, a análise revelou disparidades marcantes:
Pacientes de comunidades mais pobres foram de 5 a 9 vezes menos propensos a alcançar a redução adequada da PIO quando comparados a indivíduos provenientes de áreas de maior riqueza.
Renda se destaca como principal preditor — acima da raça
Embora desigualdades raciais no tratamento do glaucoma sejam amplamente documentadas, os autores descobriram que a riqueza — e não a raça — foi o fator mais fortemente associado à qualidade do cuidado.
Segundo French: “Sabemos que raça costuma ser um preditor de desfechos em saúde, mas o que estamos observando agora é que riqueza e renda têm peso ainda maior. A condição financeira é o melhor indicador sobre quem recebe cuidado adequado e mantém os retornos clínicos.”
A perda de seguimento (falta ao retorno) foi 61% menor entre pacientes mais ricos. Já indivíduos que vivem em áreas rurais mostraram maior risco de descontinuidade do cuidado quando comparados aos moradores de áreas urbanas.
Impacto para a prática clínica
Os resultados sugerem que desigualdades econômicas e geográficas podem contribuir para taxas mais elevadas de perda visual por glaucoma em determinados grupos raciais e étnicos. Os autores recomendam que profissionais de saúde considerem o contexto socioeconômico dos pacientes ao elaborar planos de tratamento e reforçam a necessidade de reduzir barreiras estruturais ao seguimento clínico.
Soluções possíveis: o papel da inteligência artificial
Para mitigar desigualdades, French destaca o potencial de ferramentas de inteligência artificial capazes de identificar pacientes com maior risco de faltas ou abandono do tratamento. “A chave é reconhecer quem está mais vulnerável e direcionar esforços adicionais para garantir que esses pacientes retornem para o cuidado.”
Os resultados podem subsidiar estratégias futuras de cuidado equitativo, garantindo acesso uniforme a tratamentos eficazes independentemente da condição financeira.
Referência
Maryam O. Ige et al, Quality of Care in Patients With Newly Diagnosed Glaucoma, JAMA Ophthalmology (2025). DOI: 10.1001/jamaophthalmol.2025.2995



