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Estudo sul-coreano usa eletrodos ultrafinos integrados a lentes maleáveis para aplicar estimulação elétrica transcorneal — sem cirurgia, sem medicação. Resultados em camundongos se aproximaram dos obtidos com fluoxetina.

Uma plataforma bioeletrônica vestível desenvolvida por pesquisadores da Universidade Yonsei, na Coreia do Sul, abriu uma via inédita para o tratamento de transtornos cerebrais a partir de um componente oftalmológico cotidiano: a lente de contato. Publicado na revista Cell Reports Physical Science, o trabalho demonstrou, em modelo animal, que é possível reverter sintomas depressivos por meio de estimulação elétrica aplicada diretamente pela córnea, sem nenhuma intervenção cirúrgica ou uso de medicamentos.
O princípio que sustenta a proposta já é bem conhecido na oftalmologia: anatomicamente, a retina é uma extensão do tecido cerebral. O que os autores fizeram foi explorar essa conexão de forma sistemática, usando a via retiniana como porta de entrada para alcançar regiões do cérebro diretamente envolvidas na regulação do humor, como o hipocampo e o córtex pré-frontal.

Interferência temporal: dois sinais, um efeito terapêutico
A técnica empregada é chamada de interferência temporal (TI-TES, na sigla em inglês). Ela combina dois sinais elétricos de alta frequência que, individualmente, não ativam neurônios. Quando esses sinais se encontram na retina, geram um campo de baixa frequência capaz de excitar células nervosas e propagar o estímulo pelos circuitos cerebrais subjacentes.
As lentes foram fabricadas com eletrodos ultrafinos de óxido de gálio e platina, escolhidos por serem transparentes e suficientemente flexíveis para se adaptar à superfície ocular sem comprometer a visão. Toda a estrutura de estimulação está integrada em uma única lente maleável.
Segurança ocular avaliada in vivo e in vitro
As avaliações de segurança nos animais não identificaram danos estruturais na córnea ou na retina, tampouco sinais de inflamação ou morte celular nos tecidos oculares. Em teste complementar, córneas humanas cultivadas em laboratório foram expostas ao líquido de imersão das lentes durante 24 horas: 99,25% das células permaneceram viáveis.

Resultados comportamentais e bioquímicos
Para validar a técnica, os pesquisadores induziram depressão em camundongos com injeções de corticosterona e dividiram os animais em quatro grupos: controle saudável, sem tratamento, tratado com as lentes e tratado com fluoxetina (princípio ativo do Prozac). As sessões de estimulação com as lentes duravam 30 minutos por dia, ao longo de três semanas, com sinais de 20 Hz e amplitude de 200 mV.
Os animais tratados com as lentes apresentaram 76% mais locomoção, 132% mais tempo em zonas abertas e cerca de 45% menos imobilidade em relação ao grupo sem tratamento. No plano bioquímico, a serotonina subiu 47%, a corticosterona sérica recuou 48% e os níveis da proteína BDNF, essencial para a plasticidade sináptica, foram restaurados em 131%. Marcadores inflamatórios no hipocampo também diminuíram de forma expressiva.

Inteligência artificial confirma a eficácia
Para tornar a análise mais objetiva, os pesquisadores aplicaram um algoritmo de machine learning à integração de dados comportamentais, eletrofisiológicos e biológicos. O modelo classificou os camundongos tratados com as lentes no mesmo grupo dos animais saudáveis, separando-os do grupo deprimido sem tratamento.
Os registros eletrofisiológicos revelaram ainda a restauração da sincronização entre hipocampo e córtex pré-frontal, um circuito frequentemente comprometido na depressão. Essa recuperação da conectividade neural foi apontada pelos autores como um dos achados mais relevantes do estudo.

Perspectivas: outros transtornos no horizonte
O autor sênior do estudo, Jang-Ung Park, cientista de materiais da Universidade Yonsei, afirmou que os próximos passos incluem tornar a lente completamente sem fio, realizar testes de segurança de longo prazo em animais de maior porte e personalizar os parâmetros de estimulação antes de avançar para ensaios clínicos em pacientes.
A perspectiva dos autores é que, no futuro, a tecnologia possa ser adaptada para outros transtornos cerebrais, como ansiedade, dependência química e declínio cognitivo, uma vez que a retina se conecta a diferentes circuitos do encéfalo. Para a oftalmologia, a pesquisa consolida o interesse crescente no papel terapêutico da interface retina-cérebro, além dos limites tradicionais da especialidade.

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