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As mudanças climáticas deixaram de ser uma preocupação apenas ambiental e se tornaram também uma questão de saúde pública global.
O último relatório da Organização Meteorológica Mundial (OMM) indica que as concentrações de gases de efeito estufa atingiram níveis recordes, elevando as temperaturas médias globais e intensificando a radiação ultravioleta (UV) que atinge a superfície terrestre

Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), até 20% dos casos de catarata — doença responsável por 51% da cegueira mundial e 49% no Brasil — estão diretamente relacionados à exposição excessiva à radiação UV

A OMS também projeta que, até 2050, a população global com 60 anos ou mais (faixa etária de maior incidência da catarata) deve dobrar, passando de 1 bilhão para 2 bilhões de pessoas. Esse cenário aponta para um aumento significativo do impacto socioeconômico e de demanda por cirurgias oftalmológicas.

 

Fatores de risco associados

O risco de desenvolvimento precoce da catarata é potencializado por condições metabólicas e hábitos de vida. Entre os principais fatores estão:

  1. Exposição crônica à radiação UV sem proteção adequada;
  2. Tabagismo, que aumenta a peroxidação lipídica e reduz a glutationa;
  3. Ingestão excessiva de álcool, que agrava o estresse oxidativo;
  4. Diabetes mellitus, pela glicosilação das proteínas do cristalino;
  5. Uso prolongado de corticoides sem orientação médica.

Esses fatores, somados ao aquecimento global, criam um ambiente de risco cumulativo que antecipa o surgimento da catarata e amplia sua prevalência nas próximas décadas.

 

Prevenção: o papel da fotoproteção ocular

Embora o envelhecimento seja o principal determinante da catarata, medidas preventivas podem retardar a progressão da opacificação do cristalino.

“O uso de óculos com filtro 100% UV (UV400) é a medida mais eficaz de proteção ocular”, reforça o Dr. Queiroz Neto. “É fundamental verificar se o acessório possui selo ABNT NBR ISO 12312-1, garantindo conformidade com os padrões de segurança.”

Outras medidas recomendadas incluem:

  • Evitar exposição solar intensa entre 10h e 16h;
  • Usar chapéus ou viseiras em ambientes externos;
  • Adotar dieta rica em antioxidantes, como vitaminas C e E, carotenoides e zinco;
  • Controlar doenças sistêmicas (diabetes, dislipidemia e hipertensão);
  • Não fumar e reduzir o consumo de álcool.

 

Diagnóstico e tratamento cirúrgico

Nos estágios iniciais, a catarata pode ser assintomática ou causar discretas alterações visuais. À medida que evolui, surgem sintomas como:

  • Dificuldade para dirigir à noite;
  • Trocas frequentes de grau dos óculos;
  • Halos ao redor de luzes;
  • Cores desbotadas e redução do contraste

O diagnóstico é feito durante o exame oftalmológico de rotina, com auxílio de biomicroscopia de lâmpada de fenda, tomografia de retina e biometria ocular para o cálculo da lente intraocular (LIO).

A cirurgia de facoemulsificação — procedimento padrão-ouro — é realizada sob anestesia tópica e sedação leve, com incisão de 2 mm e substituição do cristalino opaco por uma LIO dobrável, implantada no saco capsular.

Com taxa de sucesso superior a 98%, a cirurgia é considerada uma das mais seguras e eficazes da medicina moderna.

“Como a lente intraocular é permanente, é essencial discutir com o cirurgião o tipo de lente ideal para o perfil visual de cada paciente”, ressalta Queiroz Neto.

 

Conclusão

O aquecimento global representa uma nova ameaça silenciosa à saúde ocular. O aumento da radiação UV e das temperaturas ambientais acelera a degeneração do cristalino e antecipa o aparecimento da catarata.

O desafio para as próximas décadas será combinar políticas ambientais e estratégias de prevenção ocular, garantindo acesso à informação, proteção solar e rastreamento oftalmológico regular, especialmente em populações mais vulneráveis.

 

Referências bibliográficas

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