Especialistas norte-americanos comentam quadros raros, mas em ascensão, que exigem diagnóstico preciso e planejamento cirúrgico de longo prazo.
O que caracteriza uma complicação nova em uma cirurgia praticada, em suas diferentes formas, há mais de mil anos? Ao ouvir cirurgiões experientes sobre o tema, a Review of Ophthalmology encontrou duas leituras: quadros descritos e estudados apenas neste século e situações tão raras que muitos cirurgiões passam anos sem enfrentar. Kevin Miller, chefe da divisão de catarata e cirurgia refrativa do Stein Eye Institute, em Los Angeles, ilustra o segundo caso ao lembrar que levou seis ou sete anos de prática até o primeiro caso de endoftalmite e cerca de dez anos até a primeira síndrome tóxica do segmento anterior. Para o cirurgião em início de carreira, portanto, o inédito pode ser justamente o clássico.
Pseudoexfoliação: planejar hoje pensando em vinte anos
Que a pseudoexfoliação complica a cirurgia de catarata não é novidade, mas as decisões tomadas na sala cirúrgica determinam o cenário de décadas depois. Uday Devgan, de Los Angeles, defende que a conduta seja calibrada pela gravidade da doença somada à idade e à anatomia do paciente. Em um paciente de 94 anos com quadro leve, uma lente acrílica de peça única atende ao horizonte esperado. Em um paciente mais jovem com doença severa, ele considera prudente implantar um anel de tensão capsular e optar por uma lente de três peças, porque o anel oferece um ponto de fixação para sutura caso ocorra luxação futura, e o desenho de três peças viabiliza técnicas de fixação escleral que não são possíveis com o modelo de peça única.
Luxação tardia do complexo LIO saco capsular
Douglas Wisner, diretor do serviço de catarata e atenção oftalmológica primária do Wills Eye Hospital, na Filadélfia, aponta esse quadro como o mais relevante em termos de aumento de incidência. O primeiro relato data de 1993, e o risco estimado após a cirurgia de catarata é de 0,1% em dez anos e de 1,7% em 25 anos. A explicação para o crescimento dos casos é demográfica: os pacientes operam mais cedo e vivem mais tempo, o que amplia o período em estado pseudofácico. Além da pseudoexfoliação, principal fator de risco, o trauma prévio, a alta miopia e outras cirurgias intraoculares aumentam a probabilidade.
Wisner ressalta que esse raciocínio deveria pesar já na escolha do implante, e cita como exemplo a decisão de indicar uma lente multifocal a um paciente com pseudoexfoliação, escolha que tende a cobrar seu preço se o paciente viver o suficiente. O anel de tensão capsular não previne a luxação, lembra ele, mas oferece ao cirurgião do futuro algo a que fixar. Quanto à conduta, se a luxação for parcial, não houver prolapso vítreo e a arquitetura da lente favorecer a sutura, é possível fixar o complexo existente e evitar a vitrectomia, que eleva as taxas de complicação. Havendo prolapso vítreo, sua opção é explantar o conjunto, realizar a vitrectomia e implantar uma lente com fixação escleral.
Síndrome do saco morto
Descrita no início dos anos 2000, a chamada dead bag syndrome é entidade distinta da exfoliação verdadeira e da pseudoexfoliação. Nick Mamalis, diretor do laboratório de patologia ocular da University of Utah Health, em Salt Lake City, explica que o nome faz jus ao mecanismo: as células epiteliais que permanecem no fórnice do saco capsular após a facectomia morrem, e a cápsula se torna extremamente frágil, chegando a fissurar.
O achado é paradoxalmente limpo. Sem proliferação celular, não há material cortical residual nem anel de Soemmerring, e a cápsula aparece praticamente translúcida. A fragilidade se estende à ancoragem zonular, de modo que a luxação arrasta todo o saco capsular junto com a lente. Por isso, adverte Mamalis, não há espaço para reposicionamento focal da LIO: o tratamento exige a remoção completa da cápsula e do implante, seguida da técnica de escolha para olhos sem suporte capsular. Ele acrescenta que posicionar a lente no sulco ciliar não evita o quadro, e reforça a diferença em relação às fraquezas zonulares, que são localizadas, enquanto o saco morto compromete difusamente toda a cápsula.
Quando o problema está no material da lente
Com o ritmo acelerado de inovação em lentes intraoculares, novas complicações podem surgir do próprio material. Wisner relata ter acompanhado pacientes com opacidade anular na lente ajustável por luz, associada à exposição ultravioleta no pós-operatório imediato, antes do travamento, e também após o tratamento. Ele valoriza a possibilidade de ajuste, mas pondera que nenhuma tecnologia disponível reproduz um cristalino humano jovem e saudável. Devgan relata experiência semelhante com opacificação do óptico e observa que o material não tem a resistência mecânica de uma lente convencional, a ponto de poder ser dividido apenas com duas pinças, sem tesoura.
Outro ponto de atenção é a degradação do material ao longo do tempo. Alguns modelos acrílicos hidrofóbicos desenvolvem glistenings de tamanhos e localizações variáveis, que espalham luz e podem gerar queixa subjetiva, ainda que a quantificação objetiva seja difícil. Para pacientes jovens no momento da cirurgia, Wisner prefere lentes com histórico consolidado de ausência desse fenômeno.
Vasculite retiniana oclusiva hemorrágica
A vancomicina praticamente saiu da profilaxia da endoftalmite pelo risco de vasculite retiniana oclusiva hemorrágica, reação de hipersensibilidade tardia identificada apenas na última década. Miller descreve o quadro típico: visão satisfatória no primeiro dia de pós-operatório e, duas ou três semanas depois, uma retina tomada por hemorragias com perda visual importante. Ele observa que a transição para o moxifloxacino foi lenta, porque cirurgiões que nunca haviam presenciado o quadro relutavam em abandonar um antibiótico eficaz contra um risco muito mais frequente, a própria endoftalmite.
TASS, endoftalmite e síndrome UGH: reconhecer é o desafio
Mamalis argumenta que endoftalmite e síndrome tóxica do segmento anterior merecem espaço nessa discussão justamente por serem raras o suficiente para gerar dúvida diagnóstica. Ambas cursam com baixa de visão, inflamação, edema corneano e hipópio, mas o tratamento é radicalmente diferente: a suspeita de endoftalmite exige punção vítrea imediata, cultura e injeção intravítrea de antibiótico, enquanto a TASS é conduzida com corticoide tópico.
O tempo de instalação é o principal fator de diferenciação. A TASS se manifesta entre 12 e 48 horas após a cirurgia, e a endoftalmite costuma aparecer por volta do décimo ao décimo terceiro dia. O aspecto corneano ajuda: a TASS produz edema difuso, de limbo a limbo, enquanto a endoftalmite tende a apresentar áreas focais. O envolvimento vítreo, visível à ultrassonografia, é característico da endoftalmite e excepcional na TASS.
A síndrome uveíte glaucoma hifema também entra na lista dos quadros pouco vistos. Mamalis explica que ela é classicamente associada a lentes projetadas para o saco capsular, com borda afiada e hápticas espessas, que acabam total ou parcialmente no sulco ciliar. O atrito com a face posterior da íris libera pigmento, o que pode gerar glaucoma pigmentar, inflamação e sangramento na câmara anterior. A prevenção passa por dilatar amplamente a pupila ao final do procedimento e confirmar que a lente está de fato no saco capsular.
Fonte: Beers A. Novel Complications Following Cataract Surgery. Review of Ophthalmology, 10 de agosto de 2026. Conteúdo adaptado e produzido pela redação da Universo Visual.
Declaração dos entrevistados na publicação original: Dr. Miller é consultor da Alcon e Dr. Mamalis é consultor da Bausch + Lomb. Dr. Devgan e Dr. Wisner informaram não ter interesses financeiros a declarar.


