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Com impressoras a partir de algumas centenas de dólares, o gargalo da tecnologia deixou de ser o equipamento e passou a ser o projeto, o material e a regulação.

A impressão 3D na medicina existe desde o início dos anos 1990, mas só recentemente ficou acessível: hoje há equipamentos na faixa de 200 a 1.000 dólares, conforme as especificações. Para Cristos Ifantides, MD, MBA, oftalmologista da Tyson Eye (Flórida) e ex-pesquisador do NIH na área, o desafio migrou do hardware para o processo de desenho, que vai da ideia ao modelo tridimensional e termina no pós-processamento, quando é preciso lixar a peça e remover os suportes.

Onde a tecnologia já entrega valor

Kevin Yang Wu, MD, residente na Universidade de Sherbrooke (Canadá) e coautor de revisões sobre o tema, aponta a oculoplástica e a cirurgia orbitária como as áreas de maior benefício atual, justamente por dependerem da anatomia individual. Os usos incluem planejamento de fraturas orbitárias, implantes orbitários customizados, reabilitação de cavidade anoftálmica, próteses oculares, conformadores, guias de reconstrução de parede orbitária e suportes palpebrais para ptose.

No dia a dia do consultório, o terreno seguro são itens externos, de baixo risco e não implantáveis: oclusores, organizadores de colírios, proteções para lâmpada de fenda, adaptadores para retinografia com smartphone, acessórios ergonômicos e ferramentas de ensino. Ifantides patenteou uma armação impressa em 3D para pacientes com olho seco, desenhada para retenção de umidade. Modelos anatômicos também se destacam, por oferecerem compreensão tátil difícil de reproduzir em tela, servirem para ensaio cirúrgico e explicação ao paciente, além de serem reutilizáveis e de acesso mais simples que peças cadavéricas.

Onde parar

Wu recomenda cautela com qualquer tentativa de substituir instrumentos que exijam precisão óptica, esterilidade, alta confiabilidade mecânica ou aprovação regulatória. A leitura dele é que a impressão 3D serve para customizar, prototipar e melhorar o fluxo de trabalho, não para substituir o instrumental padrão.

O material é decisivo. Filamentos comuns de FDM, como o PLA, resolvem modelos sem finalidade clínica, mas próteses cosméticas pedem tecnologias como material jetting ou PolyJet, com melhor controle de cor e textura. Para o que contata o paciente ou é implantado, a exigência é material de grau médico, biocompatível e validado, como resina fotocurável em implantes orbitários, malha de PCL em reparo de parede orbitária e PEEK em faixa macular customizada. As desvantagens são tempo, complexidade do fluxo e limitações de material, incluindo superfícies rugosas e resistência anisotrópica em peças de FDM.

O alerta central: a partir do momento em que a peça é usada no cuidado ao paciente, ela precisa ser tratada como dispositivo médico, com atenção a biocompatibilidade, esterilização, durabilidade, precisão de ajuste, regulação e responsabilidade civil. No Brasil, isso significa observar as normas sanitárias da Anvisa e consultar as áreas regulatória e jurídica antes de levar qualquer item impresso ao paciente.

Como começar e o que esperar da bioimpressão

A orientação dos dois especialistas é começar por um problema clínico simples e de baixo risco, evitando itens implantáveis ou de contato com a superfície ocular, e buscar parceria com engenheiros biomédicos, protesistas e laboratórios de impressão 3D de hospitais e universidades. Partir de uma necessidade clínica clara funciona melhor do que partir da tecnologia.

Já a bioimpressão, que combina impressão 3D e biomateriais para produzir tecidos, segue restrita à pesquisa. A córnea é a frente mais promissora, por ser relativamente estruturada e avascular; a retina impõe dificuldade muito maior, dada a arquitetura neural em camadas. O potencial de médio prazo está em abordagens personalizadas com células do próprio paciente e em modelos que mimetizem doenças melhor que a cultura celular tradicional.

 

Dr. Ifantides integra o conselho consultivo e é investidor da Eye to Eye Telehealth. Dr. Wu declara não haver conflitos de interesse relevantes.

Conteúdo adaptado com créditos a partir de: BEERS, Andrew. 3D Print Your Practice. Review of Ophthalmology, 10 de junho de 2026. Disponível em: https://www.reviewofophthalmology.com/article/3d-print-your-practice

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