Os oftalmologistas Botond Roska e José-Alain Sahel ao Prémio Champalimaud 2026 são reconhecidos por duas décadas de pesquisa translacional que restaurou parcialmente a visão em pacientes cegos por distrofias hereditárias da retina, usando canais iônicos sensíveis à luz para reativar neurônios remanescentes
O médico e investigador húngaro Botond Roska e o oftalmologista francês José-Alain Sahel foram anunciados nesta terça-feira como vencedores do Prêmio António Champalimaud 2026, dotado de um milhão de euros. Em comunicado, a Fundação Champalimaud descreve a dupla como dois dos investigadores mais criativos e produtivos do mundo no desenvolvimento de tecnologias voltadas à recuperação da visão, com uma trajetória apresentada como exemplo de pesquisa translacional, que liga achados de biologia fundamental à prática clínica.
O reconhecimento chega dois anos depois de a mesma dupla ter recebido o Prêmio Wolf de Medicina, em 2024, e reafirma a relevância clínica de uma linha de pesquisa que já demonstrou, em ensaio clínico, recuperação parcial da função visual em pacientes com retinose pigmentar avançada.
A lacuna terapêutica
O trabalho premiado responde a uma limitação ainda persistente na retina: cerca de 43 milhões de pessoas no mundo são cegas e 295 milhões vivem com deficiência visual, parcela relevante por distrofias hereditárias da retina e por degeneração macular relacionada à idade. Apesar do avanço no diagnóstico genético e no acompanhamento dessas condições, os recursos terapêuticos capazes de restabelecer uma visão funcional após a perda de fotorreceptores seguem escassos, o que situa a optogenética entre as frentes mais promissoras para o estágio avançado da doença retiniana, quando a terapia gênica de reposição já não se aplica.
O princípio optogenético
A abordagem consiste em tornar sensíveis à luz células retinianas que normalmente não desempenham função fotorreceptora, reativando-as como substitutas dos fotorreceptores perdidos por dano genético ou degenerativo. Em modelos animais de distrofias hereditárias, a ativação de células ganglionares, bipolares ou de cones dormentes, os responsáveis pela percepção de cores, permitiu restabelecer algum grau de função visual. A transposição para ensaios clínicos em humanos confirmou ser possível recuperar visão parcial em pacientes previamente cegos, incluindo a capacidade de localizar e manipular objetos.
As contribuições de cada laureado
Botond Roska, da Universidade de Basileia e diretor fundador do Instituto de Oftalmologia Molecular e Clínica de Basileia (IOB), na Suíça, é neurobiólogo da retina. Mapeou circuitos retinianos por meio de vírus transsinápticos e desenvolveu métodos genéticos para introduzir canais iônicos sensíveis à luz em células bipolares ON da retina, base técnica da terapia optogenética de restauração visual.
José-Alain Sahel, da Universidade de Pittsburgh, nos Estados Unidos, e diretor fundador do Institut de la Vision, em Paris, conduziu estudos pioneiros sobre a neuropatia óptica hereditária de Leber (LHON). Demonstrou em ensaio clínico que a expressão do gene mitocondrial ND4 pode prevenir a cegueira nessa doença, e identificou uma proteína retiniana relevante para a sobrevivência dos fotorreceptores do tipo cone, responsáveis pela visão diurna.
Sobre o prêmio
Criado em 2006, o Prémio Champalimaud é atribuído anualmente pela Fundação Champalimaud, sediada em Lisboa. Em anos pares, distingue descobertas científicas voltadas à compreensão ou preservação da visão; em anos ímpares, reconhece organizações e iniciativas colaborativas com impacto na prevenção da cegueira e da deficiência visual, sobretudo em regiões de renda baixa e média.
Fontes
- Fundação António Champalimaud. Comunicado sobre o Prémio Champalimaud de Visão 2026. Disponível em: https://www.champalimaud.org
- Wolf Foundation. Botond Roska, Wolf Prize Laureate in Medicine 2024. Disponível em: https://wolffund.org.il/?p=15935
3. Universidade de Basileia. Botond Roska and José-Alain Sahel win the Wolf Prize 2024 in the field of medicine. Disponível em: https://unibas.ch/en/News-Events/Awards-Honors/Article/Botond-Roska-and-Jos–Alain-Sahel-win-the-Wolf-Prize-2024-in-the-field-of-medicine.html


