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A uveíte associada a tatuagens já foi considerada uma condição rara. No entanto, um novo relatório australiano sugere que esse quadro pode estar se tornando um desafio emergente para a saúde ocular, à medida que o número de pessoas tatuadas cresce. O estudo foi conduzido por Ezann Siebert e colaboradores, do Royal Perth Hospital, em Perth, na Austrália.

Segundo os autores, a uveíte relacionada à tatuagem é uma condição potencialmente ameaçadora à visão, desencadeada por uma provável reação imunológica aos pigmentos presentes nas tintas utilizadas. Com a crescente popularização das tatuagens, o número de casos pode estar aumentando.

As tintas utilizadas nesses procedimentos podem provocar diferentes reações inflamatórias. Embora a pele seja o local mais frequentemente afetado, manifestações sistêmicas também podem ocorrer. Entre os sinais cutâneos mais comuns estão pápulas dispersas, nódulos, descamação, induração, prurido e sensibilidade no local tatuado.

Reações granulomatosas associadas a tatuagens também já foram descritas em condições como dermatite alérgica, granuloma de corpo estranho, melanoma, sarcoidose, neoplasias hematológicas e tumores metastáticos.

No olho, a uveíte associada à tatuagem parece resultar de uma resposta imunológica desencadeada pelo pigmento da tinta, especialmente em tatuagens com tinta preta. Até o momento, cerca de 39 casos haviam sido relatados na literatura.

Os autores observam que tatuagens inflamadas estão mais frequentemente associadas à uveíte anterior bilateral, embora também tenham sido descritos casos com envolvimento posterior, incluindo edema de papila, edema macular cistoide e descolamento de retina.

Série de casos amplia compreensão da doença

No estudo atual — descrito pelos pesquisadores como a maior série de casos publicada até o momento — foram coletados dados demográficos, achados clínicos, exames complementares, tratamentos e evolução da doença com o objetivo de caracterizar melhor a uveíte associada a tatuagens e suas implicações clínicas.

A revisão retrospectiva multicêntrica contou com a colaboração de especialistas em uveítes entre janeiro de 2023 e janeiro de 2025.

Ao todo, foram analisados 40 casos (78 olhos), sendo 23 pacientes do sexo masculino. A maioria era composta por adultos jovens entre 21 e 40 anos.

A inflamação nas tatuagens esteve presente em todos os casos, com maior frequência em tatuagens realizadas com tinta preta.

Tratamento frequentemente exige imunossupressão

O estudo demonstrou que o manejo da doença frequentemente requer tratamento sistêmico. Entre os 40 pacientes avaliados:

  • 27 pacientes (67,5%) necessitaram tratamento sistêmico
  • 25 pacientes (62,5%) precisaram de imunossupressores poupadores de corticosteroides, sendo o metotrexato o mais utilizado
  • 17 pacientes (42,5%) necessitaram de terapias biológicas modificadoras da doença

O tratamento tópico isolado foi eficaz em apenas 10 pacientes (25%), enquanto somente 11 pacientes (27,5%) alcançaram remissão sustentada após a suspensão da terapia.

Entre as complicações observadas estavam catarata, edema macular cistoide e glaucoma. Apenas três pacientes não apresentaram perda visual durante o acompanhamento.

A acuidade visual documentada foi inferior a 6/9 em seis pacientes, correspondendo a 15,4% dos olhos avaliados.

Implicações para a prática clínica

De acordo com Siebert e colaboradores, a uveíte associada a tatuagens parece estar emergindo como um problema relevante de saúde pública ocular, especialmente em populações onde a prática de tatuagem é comum.

Na Austrália, estima-se que cerca de 25% da população possua tatuagens, o que pode contribuir para o aumento da incidência desse tipo de inflamação ocular.

Os autores destacam que a condição, antes considerada rara, tem se tornado uma entidade clínica mais frequente nas clínicas de uveítes, com impacto significativo sobre a visão e necessidade frequente de tratamento imunossupressor de longo prazo.

“Esses achados indicam que a uveíte associada a tatuagens pode representar uma questão de preocupação crescente para a saúde ocular”, concluem os pesquisadores.

Referências

Siebert E, Moynihan V, Ali N, et al. Tattoo-associated uveitis: an emerging eye health challenge. Clin Exp Ophthalmol. 2026;54:33-43.
Abdel-Aty A, Apostolopoulos N, Kombo N. Uveitis associated with tattoo granulomas. BMJ Case Rep. 2022;15:e244196.
Bose R, Sibley C, Fahim S. Granulomatous and systemic inflammatory reactions from tattoo ink. SAGE Open Med Case Rep. 2020.
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Radetic M, Khan S, Venkat A, et al. A tattoo granuloma with uveitis (TAGU) without sarcoidosis. Am J Emerg Med. 2020.
Sepehri M, Carlsen KH, Serup J. Papulo-nodular reactions in black tattoos as markers of sarcoidosis. Dermatology. 2016.

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