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Infecções transmitidas de animais para humanos podem se manifestar no olho e reforçam o papel do oftalmologista na vigilância de doenças emergentes

As zoonoses, doenças transmitidas de animais para seres humanos, vêm ganhando atenção crescente na medicina. O tema, tradicionalmente associado à infectologia, à saúde pública e à medicina veterinária, também passa a ocupar espaço importante na oftalmologia. Isso porque diferentes agentes infecciosos podem apresentar manifestações oculares, desde conjuntivites e ceratites até uveítes, retinites, neurites ópticas e complicações neuro-oftalmológicas.

O alerta foi reforçado recentemente em publicação do Jornal da USP, a partir da coluna Fique de Olho, do professor Eduardo Rocha. A discussão destaca como novas zoonoses podem impactar a saúde ocular e reforça a importância do conceito de saúde única, ou One Health, que integra saúde humana, animal e ambiental.

Esse olhar se torna ainda mais relevante diante da descrição, na revista Nature Microbiology, de uma doença ocular emergente associada ao covert mortality nodavirus (CMNV), vírus identificado em animais aquáticos. A condição foi descrita como uma uveíte anterior viral hipertensiva ocular persistente, relacionada à exposição a animais aquáticos crus ou vivos, ao manuseio sem proteção e, em alguns casos, ao consumo de produtos aquáticos crus.

Embora ainda seja necessário cautela na interpretação epidemiológica, o caso traz uma mensagem importante para a prática clínica: doenças infecciosas emergentes podem se manifestar inicialmente, ou de forma relevante, nos olhos.

O olho como sentinela clínica

A relação entre infecções sistêmicas e manifestações oculares não é nova. Toxoplasmose, toxocaríase, tuberculose, sífilis, HIV, herpesvírus, esporotricose, leptospirose e arboviroses já fazem parte do raciocínio diagnóstico em diferentes contextos da oftalmologia.

O que muda, agora, é a velocidade com que novos agentes infecciosos passam a ser reconhecidos. Mudanças climáticas, desmatamento, urbanização desordenada, maior circulação internacional e contato mais frequente entre humanos, animais e ambientes modificados ampliam as oportunidades de transmissão entre espécies.

Na prática, sinais oftalmológicos aparentemente localizados podem, em determinados casos, representar a primeira pista de uma condição infecciosa mais ampla. Uveítes atípicas, hipertensão ocular inflamatória recorrente, conjuntivites persistentes, ceratites incomuns, retinites, vasculites retinianas e quadros neuro-oftalmológicos associados a sintomas sistêmicos devem estimular uma anamnese ampliada.

Além de febre, viagens, imunossupressão e contato com pessoas doentes, passa a ser relevante investigar exposição a animais, contato com água contaminada, manipulação de carnes, pescados ou crustáceos, consumo de alimentos crus, presença de pets com lesões cutâneas ou oculares e atividades em áreas rurais, fluviais ou costeiras.

CMNV e uveíte anterior hipertensiva

O caso do CMNV chama atenção por envolver um vírus de origem aquática com possível manifestação ocular em humanos. No estudo publicado na Nature Microbiology, pesquisadores associaram o vírus a quadros de uveíte anterior viral hipertensiva persistente.

Para o oftalmologista, o achado é relevante porque pode se sobrepor a diagnósticos mais conhecidos, como uveítes herpéticas hipertensivas. A elevação persistente da pressão intraocular associada à inflamação anterior, especialmente em casos recorrentes ou de resposta terapêutica incompleta, deve estimular uma investigação cuidadosa da história epidemiológica.

Isso não significa incorporar o CMNV como hipótese rotineira em toda uveíte anterior hipertensiva. O ponto central é reconhecer que novos agentes podem emergir com tropismo ocular ou manifestações inflamatórias relevantes, exigindo integração entre oftalmologia, infectologia, microbiologia, veterinária e vigilância epidemiológica.

Zoonoses conhecidas seguem no radar

Além dos agentes emergentes, zoonoses já estabelecidas continuam relevantes para a oftalmologia. A toxocaríase ocular, por exemplo, pode causar inflamação intraocular, granuloma retiniano, tração vitreorretiniana e perda visual, especialmente em crianças.

A esporotricose, frequentemente associada à transmissão por gatos em algumas regiões, também pode apresentar manifestações oculares, como conjuntivite, dacriocistite, síndrome oculoglandular de Parinaud e acometimento palpebral.

Outras infecções recentes reforçam esse cenário. Em casos de mpox, já foram descritas manifestações como conjuntivite, blefarite, ceratite, úlcera de córnea e, raramente, perda visual.

Esses exemplos mostram que o raciocínio oftalmológico precisa ir além da localização anatômica da lesão. Em alguns casos, é necessário compreender também a cadeia epidemiológica que pode explicar aquele acometimento.

O que observar na prática clínica

Para o oftalmologista, a principal mudança está na ampliação da anamnese. Em quadros infecciosos ou inflamatórios atípicos, algumas perguntas podem ser decisivas:

O paciente teve contato recente com animais domésticos, silvestres, de criação ou aquáticos? Houve arranhadura ou mordedura? Manipulou pescados, crustáceos, carnes ou animais vivos? Consumiu alimentos crus ou malcozidos? Esteve em áreas rurais, ribeirinhas, costeiras ou com surtos infecciosos recentes? Apresenta febre, linfadenopatia, lesões cutâneas, sintomas neurológicos, respiratórios ou gastrointestinais?

Essas informações podem redirecionar a hipótese diagnóstica, orientar exames complementares, indicar encaminhamento para infectologia e, quando necessário, apoiar notificações aos serviços de vigilância.

O desafio é equilibrar cautela e atenção clínica. Nem todo quadro atípico será uma zoonose emergente, mas recorrência, bilateralidade incomum, inflamação persistente, hipertensão ocular desproporcional, resposta terapêutica inadequada e associação com sintomas sistêmicos devem funcionar como sinais de alerta.

Saúde única também é pauta da oftalmologia

O conceito de saúde única reforça que muitas doenças humanas não podem ser compreendidas sem considerar a relação com animais e ambiente. Para a oftalmologia, isso significa reconhecer que algumas manifestações oculares podem ter origem em cadeias ambientais, alimentares, ocupacionais ou zoonóticas.

No Brasil, essa discussão é especialmente importante. A combinação de biodiversidade, produção agropecuária, convivência próxima com animais domésticos, desigualdades sanitárias e mudanças ambientais cria um cenário favorável à emergência e reemergência de doenças infecciosas.

Nesse contexto, o oftalmologista pode ocupar uma posição estratégica. O olho pode ser alvo direto de infecções, marcador de doença sistêmica ou primeira pista de um problema coletivo. Reconhecer esse papel contribui para reduzir atrasos diagnósticos, evitar sequelas visuais e fortalecer a vigilância integrada.

As novas zoonoses não são apenas um alerta para a saúde pública. São também um convite para que a oftalmologia amplie seu olhar sobre o paciente, considerando não apenas o olho, mas o ambiente, os hábitos e as exposições que podem estar por trás de uma doença ocular.

 

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