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Em entrevista exclusiva à Universo Visual, Maria Auxiliadora Monteiro Frazão fala sobre sua trajetória de 10 anos na entidade, os desafios do mercado atual e as prioridades à frente da presidência do CBO no biênio 2026-2027.

 Por Marina Almeida

A oftalmologia brasileira inicia um novo ciclo institucional. Em cerimônia realizada na sede do Conselho Brasileiro de Oftalmologia, em São Paulo, tomou posse a nova diretoria da entidade, que neste ano completa 85 anos de atuação. À frente da presidência está a Dra. Maria Auxiliadora Monteiro Frazão, segunda mulher a ocupar o cargo máximo do CBO.

Com trajetória consolidada na Santa Casa de São Paulo e uma década de atuação em diferentes comissões da entidade, a nova presidente assume com uma proposta clara: fortalecer a conexão entre lideranças regionais, ampliar a atuação em Brasília e consolidar o papel do CBO como principal representante da oftalmologia nacional.

Em entrevista à Universo Visual, ela fala sobre ensino, mercado de trabalho, inteligência artificial, políticas públicas e o legado que pretende construir nos próximos dois anos.

 

Entrevista | Dra. Maria Auxiliadora Monteiro Frazão

Universo Visual – A senhora completa uma década de atuação no CBO. Como foi essa trajetória até chegar à presidência e quais experiências foram determinantes nessa construção?

Dra. Maria Auxiliadora: Minha trajetória dentro do CBO foi construída de forma gradual e muito consistente. Embora eu esteja há 10 anos atuando formalmente em comissões e cargos internos, minha relação com a entidade começou ainda na residência médica, na Santa Casa de São Paulo. Ter tido contato precoce com o movimento associativo me fez compreender que a formação do oftalmologista não se limita à técnica, mas envolve também representação institucional e defesa profissional.

Iniciei em comissões menores, depois integrei a Comissão Científica e, posteriormente, a Comissão de Ensino, onde permaneci por oito anos — primeiro como integrante e depois como coordenadora. Esse período foi decisivo. Trabalhamos na estruturação e fortalecimento dos cursos credenciados, no acompanhamento mais rigoroso da qualidade do ensino e na valorização da Prova Nacional de Oftalmologia como instrumento de qualificação.

Nos dois anos anteriores à presidência, atuei na diretoria executiva, o que me deu uma visão estratégica mais ampla das frentes política, jurídica e institucional. Essa vivência interna foi fundamental para que eu assumisse a presidência com consciência dos desafios e das responsabilidades envolvidas.

 

UV – A oftalmologia evoluiu intensamente nas últimas décadas. Como a senhora enxerga essa transformação e o impacto dela na formação dos novos especialistas?

Maria Auxiliadora: A transformação foi profunda, tanto do ponto de vista científico quanto tecnológico. Quando iniciei minha carreira, operávamos catarata predominantemente pela técnica extracapsular. Não havia OCT disponível como ferramenta diagnóstica cotidiana, e a facoemulsificação ainda estava em consolidação. Hoje vivemos um cenário de altíssima tecnologia, com plataformas cirúrgicas sofisticadas, exames de imagem avançados e o avanço consistente da inteligência artificial.

Essa evolução exige um novo perfil de formação. O jovem oftalmologista precisa dominar a técnica, evidentemente, mas também precisa entender tecnologia, gestão, posicionamento profissional e mercado de trabalho. O cenário atual é muito mais competitivo e estruturado. Abrir um consultório no dia seguinte ao título, como eu fiz, hoje é uma exceção.

Além disso, precisamos ensinar o médico a interpretar criticamente a inovação. A inteligência artificial, por exemplo, não deve ser vista como ameaça, mas como ferramenta complementar. O desafio é compreender onde ela agrega valor e onde a decisão clínica humana continua insubstituível.

 

UV – Quais são hoje os maiores desafios institucionais do CBO diante desse cenário de transformação?

Maria Auxiliadora: O CBO ampliou significativamente seu escopo de atuação ao longo das últimas décadas. Se no início sua missão estava fortemente ligada ao ensino, hoje ele atua de forma estruturada em defesa profissional, políticas públicas, fiscalização, qualificação científica e representação institucional.

No campo do ensino, temos mais de uma centena de cursos credenciados e acompanhados de forma sistemática. A Prova Nacional de Oftalmologia é um marco de qualidade e tem demonstrado que os cursos credenciados apresentam desempenho superior, o que reforça a importância desse acompanhamento.

Outro desafio relevante é a defesa da boa prática médica. Isso envolve atuação jurídica, enfrentamento de práticas irregulares e acompanhamento de propostas legislativas que impactem a especialidade. Não se trata de proteção corporativa, mas de garantir que a população receba atendimento seguro e qualificado.

Além disso, o CBO organiza um dos maiores congressos da América Latina, com cerca de 4.500 a 5.000 participantes, oferecendo não apenas conteúdo científico de alto nível, mas também fóruns sobre mercado de trabalho, defesa profissional e políticas de saúde.

 

UV – 2026 é um ano eleitoral. Como o CBO pretende se posicionar institucionalmente nesse contexto político?

Maria Auxiliadora: A atuação em Brasília é estratégica e permanente. Criamos a Comissão de Assuntos Parlamentares (CAF) com o objetivo de monitorar e analisar projetos de lei que possam impactar a oftalmologia.

Nosso trabalho não pode ser apenas reativo. Precisamos estabelecer diálogo contínuo com parlamentares, comissões e ministérios. Quando o relacionamento institucional é perene, nossas pautas deixam de ser pontuais e passam a fazer parte da agenda estruturada das políticas públicas.

Estamos atentos a temas que envolvem formação médica, inserção da oftalmologia na atenção primária, regulamentações da saúde suplementar e defesa da prática médica adequada. Essa presença constante permite que atuemos com responsabilidade e legitimidade quando necessário.

 

UV – A senhora mencionou a importância da conexão nacional. Como pretende fortalecer essa rede de representação?

Maria Auxiliadora: O Brasil é um país de dimensões continentais. A presidência sozinha não alcança estados e municípios. Precisamos de lideranças regionais articuladas e alinhadas aos propósitos institucionais.

Nossa chapa se chama “Conexão” porque acreditamos na construção de uma rede nacional coesa. Realizamos recentemente uma convenção estratégica diferente das anteriores, com foco em planejamento participativo, integração das lideranças e definição de metas claras.

Quando fortalecemos essa rede, conseguimos atuar melhor nas assembleias legislativas, nas câmaras municipais, junto a vereadores, deputados estaduais e gestores locais. A defesa da oftalmologia e da saúde ocular precisa acontecer também na base, não apenas em Brasília.

 

UV – Como a senhora define o legado que gostaria de deixar ao final da gestão?

Maria Auxiliadora: O CBO é uma construção histórica de 85 anos. Nenhuma gestão começa do zero e nenhuma termina isoladamente. O que desejo é fortalecer ainda mais essa cultura de continuidade responsável.

Se eu puder contribuir para um CBO mais conectado, com maior presença institucional, inserção ampliada nas políticas públicas e uma rede nacional fortalecida, considerarei que cumprimos um papel importante.

Também queremos avançar em campanhas de conscientização à população e em estratégias que consolidem a inserção da oftalmologia na atenção primária. São projetos de médio e longo prazo, mas cada gestão coloca um tijolo nessa construção.

 

UV – A senhora é a segunda mulher a presidir o CBO. Que reflexão essa posição traz sobre liderança feminina na medicina?

Maria Auxiliadora: O mais importante é falar sobre oportunidade e equidade. Quando mulheres têm acesso igual à formação e à capacitação, elas naturalmente ocuparão posições de liderança.

Não se trata de substituir um modelo por outro, mas de garantir que talento e competência tenham espaço para se desenvolver. Liderança exige preparo, responsabilidade e visão estratégica — atributos que independem de gênero.

Espero que essa trajetória inspire jovens médicas a aspirarem cargos de gestão e liderança sem que isso represente abdicar de outros papéis pessoais. As esferas não são excludentes.

 

UV – Que mensagem final a senhora deixa aos oftalmologistas brasileiros neste início de gestão?

Maria Auxiliadora: O CBO é a maior entidade representativa da oftalmologia brasileira porque construiu credibilidade ao longo de décadas, sempre pautado pela responsabilidade e pela defesa da boa prática.

Vivemos um momento de excesso de informações e, muitas vezes, de ofertas sem respaldo institucional. É fundamental que o oftalmologista reconheça a importância de estar conectado à entidade que o representa legitimamente.

Meu convite é claro: participem ativamente. Fortaleçam essa rede. O CBO não é uma diretoria isolada. O CBO somos todos nós. Quanto mais unidos estivermos, maior será nossa capacidade de enfrentar desafios e de cumprir nossa missão principal, que é oferecer à população brasileira a melhor saúde ocular possível.

 

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