Campanha amplia formato, terá ações em todos os estados e será encerrada em Brasília, com atividade na Câmara dos Deputados e audiência pública no Senado
O Conselho Brasileiro de Oftalmologia (CBO) apresentou, em coletiva de imprensa, a nova edição da campanha nacional de conscientização sobre o glaucoma, que em 2026 deixa de ser concentrada em “24 Horas pelo Glaucoma” e passa a se estruturar como “24 Dias pelo Glaucoma”. A mudança amplia o alcance da iniciativa e reforça a necessidade de uma comunicação contínua sobre a doença, considerada a principal causa de cegueira irreversível no mundo.
A apresentação foi conduzida pela presidente do CBO, Maria Auxiliadora Frazão, com participação do Roberto Murad Vessani, presidente da Sociedade Brasileira de Glaucoma (SBG), do Marcelo Hatanaka e do Lisandro Sakata, que participou de forma online. A coletiva reuniu veículos de imprensa e instituições ligadas à deficiência visual e reabilitação, reforçando o papel da comunicação qualificada na ampliação do acesso à informação.
Logo na abertura, Maria Auxiliadora destacou que a atuação do CBO passa por diferentes frentes, da formação médica à defesa profissional e à interlocução com o poder público. “O CBO precisa estar junto para desenhar políticas públicas de saúde e dar mais acesso à população”, afirmou. Segundo ela, a imprensa tem papel essencial nesse processo. “A imprensa tem uma responsabilidade extremamente contundente em passar a informação séria, técnica, responsável e verdadeira.”
Por que 24 dias?
A ampliação da campanha tem como objetivo aumentar a capilaridade da mensagem. Ao longo de 24 dias, o CBO prevê uma programação com podcasts, entrevistas, conteúdos educativos, participação de médicos, pacientes, especialistas, autoridades e sociedades estaduais de oftalmologia.
“Por 24 dias nós teremos toda uma programação de podcasts, entrevistas com poder público, pacientes, médicos e especialistas para informar e conscientizar melhor a todos”, explicou a presidente do conselho brasileiro de oftalmologia.
A campanha será encerrada em Brasília, nos dias 27 e 28 de maio, com duas ações institucionais: uma atividade na Câmara dos Deputados, no dia 27, e uma audiência pública no Senado Federal sobre glaucoma, no dia 28. A proposta é sensibilizar também gestores e parlamentares para a importância de políticas públicas que garantam diagnóstico, tratamento e acompanhamento adequado.
Doença silenciosa e diagnóstico ainda tardio
Durante a coletiva, os especialistas reforçaram que o glaucoma evolui, em grande parte dos casos, sem sintomas nas fases iniciais. Por isso, muitos pacientes só chegam ao consultório em estágios avançados.
“O glaucoma é uma doença que começa sem trazer muitos sintomas. Naturalmente, isso faz com que o indivíduo não procure o médico oftalmologista se ele não tiver conhecimento da doença e dos grupos de risco”, afirmou o Dr. Roberto Murad Vessani.
Ele destacou que, no mundo ocidental, cerca de 50% das pessoas com glaucoma não sabem que têm a doença. No Brasil, estudos citados durante a coletiva apontam que esse desconhecimento pode chegar a índices ainda mais altos. “É um número gritante, assustador e extremamente perigoso em termos de impacto de saúde pública”, disse.
Dados do SUS mostram avanço nos exames, mas desigualdades persistem
O levantamento apresentado pelo CBO, com base no Sistema de Informações Ambulatoriais do SUS (SIA/SUS), mostrou que entre 2019 e 2025 foram realizados mais de 12 milhões de exames específicos para diagnóstico do glaucoma no país. O volume passou de 1.377.397 exames em 2019 para 2.269.919 em 2025, crescimento de 65%.
Quando a análise considera a população acima de 40 anos, faixa etária em que o glaucoma é mais prevalente, o Brasil passou de 1.703 exames por 100 mil habitantes em 2019 para 2.452 em 2025.
Apesar do avanço, os dados revelam diferenças regionais importantes. Em 2025, o Sul liderou proporcionalmente, com 3.561 exames por 100 mil habitantes acima de 40 anos, seguido pelo Sudeste, com 2.429, e pelo Nordeste, com 2.364. Já o Norte, com 1.804, e o Centro-Oeste, com 1.246, ficaram abaixo da média nacional. Entre os estados, Pernambuco teve a maior taxa proporcional, com 7.055 exames por 100 mil habitantes, seguido pelo Rio Grande do Sul, com 5.506, e por São Paulo, com 3.054. Na outra ponta, estados como Amapá e Mato Grosso do Sul apresentaram índices mais baixos.
Diagnóstico é só o começo – reforçar a importância da adesão ao tratamento também é uma necessidade
Questionados pela Universo Visual sobre adesão ao tratamento, os especialistas reforçaram que o cuidado com o glaucoma depende de acompanhamento contínuo e participação ativa do paciente.
“O sucesso do tratamento depende desse paciente. Muitas vezes eles têm dificuldade de utilizar a medicação, de aplicar o colírio e de saber fazer a técnica correta”, explicou Dr. Vessani.
Segundo ele, a adesão é um dos pontos críticos porque o glaucoma pode continuar progredindo mesmo quando o paciente acredita estar tratando adequadamente. “O colírio tem uma técnica de aplicação. Se o paciente aplica errado, o remédio não funciona direito.”
A campanha também deverá abordar as diferentes opções terapêuticas, incluindo colírios, laser e cirurgias, além da importância de manter o acompanhamento mesmo quando não há sintomas.
Reabilitação visual entra no debate
Outro ponto relevante da coletiva foi a participação de instituições como a Fundação Dorina Nowill e a Laramara, que trouxeram ao debate a importância da reabilitação visual para pacientes que já apresentam perda funcional.
A representante da Fundação Dorina, Daniela Freitas, destacou que muitos pacientes demoram a chegar aos serviços de reabilitação, mesmo quando já convivem com baixa visão ou cegueira. O tema foi acolhido pelos especialistas como uma frente essencial do cuidado integral. Dr. Vessani afirmou que a Sociedade Brasileira de Glaucoma tem trabalhado cada vez mais a relação entre glaucoma, qualidade de vida, risco de quedas, autonomia, ansiedade, depressão e impacto funcional. “É uma frente que estamos desenvolvendo e que esperamos ampliar cada vez mais junto ao CBO e às sociedades ligadas à visão subnormal.”
A discussão também contou com a contribuição da médica Maria Aparecida Onuki Haddad, representante da Laramara — Associação Brasileira de Assistência à Pessoa com Deficiência Visual e ex-presidente da Sociedade Brasileira de Visão Subnormal, que reforçou a importância de integrar prevenção, tratamento e reabilitação no cuidado oftalmológico, ela destacou que a reabilitação é decisiva para preservar autonomia, qualidade de vida e inclusão: “Preparar a população para a prevenção, estipular o caminho para o referenciamento ao tratamento pertinente, ao acompanhamento e, se necessário, à reabilitação, é um caminho muito importante.”
A coletiva também contou com o depoimento de Martim, paciente da Fundação Dorina, que relatou sua trajetória com glaucoma congênito, perda visual progressiva e reabilitação. “O uso do medicamento é muito importante. A presença do médico e o acompanhamento do glaucoma também são muito importantes”, afirmou.
Um chamado à classe oftalmológica
Mais do que uma campanha voltada ao público leigo, o “24 Dias pelo Glaucoma” também convoca os oftalmologistas a atuarem como multiplicadores da informação no consultório, nas redes sociais, nas sociedades regionais e junto às comunidades.
Maria Auxiliadora reforçou que conscientizar é apenas uma parte do processo.
“Não basta conscientizar. É preciso conscientizar e dar acesso. Não basta dar acesso ao diagnóstico. É preciso dar acesso ao diagnóstico e formar uma rede para que o paciente também tenha tratamento.”
Com ações nacionais, participação das sociedades estaduais e encerramento em Brasília, a campanha busca transformar o mês de maio em um período de mobilização ampla pela saúde ocular, conectando prevenção, diagnóstico precoce, tratamento, adesão, reabilitação e políticas públicas.
Como resumiu a presidente do CBO, o objetivo é fazer a mensagem chegar mais longe: “A nossa missão é evitar que pacientes evoluam para a cegueira.”


