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Campanha criada em 2017 pela TFOS chega a 2026 com uma disease redefinida, um algoritmo diagnóstico atualizado e um consenso latino-americano voltado à realidade do oftalmologista geral

Todo mês de julho, consultórios, sociedades médicas e associações de pacientes se unem em torno de uma mesma cor. É o Julho Turquesa, campanha dedicada à conscientização sobre a síndrome do olho seco, uma das queixas mais frequentes nos consultórios de oftalmologia. Neste ano, a data ganha um pano de fundo científico relevante: a publicação do terceiro relatório do TFOS DEWS (Dry Eye Workshop), que atualiza a definição, o diagnóstico e a classificação da doença quase uma década depois do DEWS II, e a consolidação do LUBOS, primeiro consenso latino-americano voltado especificamente ao uso racional de lubrificantes oculares.

A origem da campanha

O Julho Turquesa nasceu em 2017, nos Estados Unidos, por iniciativa da TFOS (Tear Film Ocular Surface Society), entidade internacional dedicada ao estudo do filme lacrimal e da superfície ocular. Três anos depois, a iniciativa chegou ao Brasil pelas mãos do oftalmologista José Álvaro Pereira Gomes, professor adjunto livre docente do Departamento de Oftalmologia e Ciências Visuais da Escola Paulista de Medicina da Unifesp, em parceria com a Associação dos Portadores de Olho Seco (APOS).

A escolha da cor remete à lágrima e reforça o papel central da lubrificação ocular na manutenção da visão, um simbolismo que a campanha carrega desde sua criação.

Uma doença mais comum do que parece

As estimativas de prevalência variam conforme a metodologia de cada estudo, mas convergem para um cenário expressivo. Levantamentos citados por diferentes entidades médicas apontam que a síndrome do olho seco atinge entre 13% e 34% da população brasileira, o equivalente a algo entre 18 milhões e 20 milhões de pessoas segundo a Apos. Em escala global, o TFOS DEWS III mantém a estimativa de prevalência de 5% a 50%, variação que depende da faixa etária, da região estudada e, sobretudo, dos critérios diagnósticos utilizados em cada estudo.

A condição é mais frequente em mulheres, especialmente após os 50 anos, mas o perfil de pacientes vem se ampliando, muito em função do uso intenso de telas.

O que muda com o TFOS DEWS III

Publicado em 2025 no American Journal of Ophthalmology, o relatório de metodologia diagnóstica do TFOS DEWS III revisa a definição vigente desde 2017 e reforça três pontos centrais: o olho seco é multifatorial, é uma doença e não uma síndrome, e é sempre sintomático. Essa última característica tem peso prático, já que separa o olho seco de outros quadros da superfície ocular que cursam com sinais sem sintomas, ou vice-versa.

O documento também formaliza um novo fluxo de rastreio. A triagem passa a ser feita pelo questionário OSDI-6, versão reduzida do tradicional OSDI, com ponto de corte de escore igual ou superior a 4 para indicar sintomas compatíveis. Diante de um resultado positivo, o diagnóstico se confirma quando pelo menos um dos três sinais de perda de homeostase está presente: tempo de ruptura do filme lacrimal não invasivo abaixo de 10 segundos, hiperosmolaridade lacrimal igual ou superior a 308 mOsm/L (ou diferença entre os olhos maior que 8 mOsm/L), ou coloração da superfície ocular acima dos limites definidos para córnea, conjuntiva e margem palpebral.

Um ponto discutido por especialistas da superfície ocular na região é a chamada dissociação entre sinal e sintoma. Em doenças graves e crônicas, como Sjögren e Stevens-Johnson, a perda progressiva de sensibilidade corneana pode levar o paciente a relatar melhora justamente no momento em que o risco de complicação é maior, quadro descrito como “stain without pain”. No extremo oposto, sintomas intensos com exame praticamente normal, o chamado “pain without stain”, direcionam a investigação para dor neuropática, associada a alterações do plexo nervoso subbasal da córnea e, com frequência, a comorbidades como fibromialgia.

Os pilares que orientam o tratamento individualizado

Uma das principais contribuições do TFOS DEWS III é abandonar a divisão simples entre olho seco aquoso e evaporativo, hoje considerada insuficiente, já que ao menos dois terços dos pacientes apresentam a forma evaporativa e entre 18% e 29% não se encaixam claramente em nenhuma das duas. O relatório propõe reavaliar, em cada consulta, um conjunto mais amplo de possíveis fatores causais: deficiências do filme lacrimal (componente lipídico, aquoso ou de mucina), alterações palpebrais (piscar incompleto, disfunção das glândulas de Meibômio, blefarite), anormalidades da superfície ocular (disfunção neural, dano celular, inflamação primária) e fatores sistêmicos associados, como doenças autoimunes, hormonais e metabólicas.

Na prática, isso significa que dois pacientes com o mesmo diagnóstico de olho seco podem precisar de condutas completamente diferentes, dependendo de qual driver predomina no quadro individual. Um piscar incompleto crônico, por exemplo, responde a estratégias diferentes de uma disfunção de Meibômio isolada ou de uma superfície comprometida por deficiência de mucina.

O consenso latino-americano LUBOS

Enquanto o TFOS DEWS III estabelece a base conceitual global, o Consenso Latino-Americano sobre Lubrificantes Oculares e Olho Seco, conhecido pela sigla LUBOS, traduz esse conhecimento para a realidade do oftalmologista geral da região. Publicado em 2024 na revista Oftalmología Clínica y Experimental, o documento reuniu especialistas de Argentina, Brasil, Chile, Colômbia e México, sob coordenação de María Ximena Núñez, Alejandro Rodríguez García, Manuel Garza, José Álvaro Pereira Gomes, Alejandro Aguilar e María Alejandra Henríquez, com o objetivo declarado de construir um algoritmo diagnóstico e terapêutico focado no uso apropriado de lágrimas artificiais.

O LUBOS propõe uma tabela de gravidade que cruza os principais sinais e drivers, entre eles OSDI, tempo de ruptura lacrimal, padrões de coloração e avaliação das glândulas de Meibômio, e reforça um fluxo diagnóstico semelhante ao do DEWS III: sintomas sem sinais apontam para dor neuropática, sinais sem sintomas para ceratopatia neurotrófica, e só a presença conjunta de ambos autoriza avançar para a investigação completa dos drivers.

Um dos pontos mais práticos do consenso é a definição de critérios para a lágrima artificial ideal, que deveria reunir pH neutro, conservantes mínimos ou ausentes, polímeros com ação mucomimética, componentes demulcentes e osmoprotetores, e fração lipídica quando o driver predominante for evaporativo. O documento também chama atenção para o fato de que a escolha do princípio ativo isolado não garante eficácia clínica: a formulação completa, a composição e a interação entre os componentes é que determinam o resultado sobre a superfície ocular.

Também merece destaque, segundo especialistas latino-americanos que integram o painel do LUBOS, a importância da história clínica detalhada, incluindo medicamentos sistêmicos de uso recente. Casos de piora expressiva do olho seco associados ao início de medicações para outras finalidades, como certos agentes usados no controle de peso e da glicemia, ilustram como um fator inteiramente modificável pode ser a causa real por trás de um quadro refratário ao tratamento tópico convencional.

Sintomas que costumam ser normalizados

Ardor, sensação de areia nos olhos, vermelhidão, coceira, lacrimejamento excessivo, visão borrada ao final do dia, sensibilidade à luz e cansaço visual estão entre os sinais mais comuns. Grande parte dos pacientes convive com esses sintomas por meses ou anos antes de procurar avaliação especializada, muitas vezes por acreditar que se trata de um incômodo passageiro ou natural do uso de telas.

Um dos equívocos mais frequentes é associar o lacrimejamento excessivo à boa lubrificação ocular. Na prática, esse sintoma pode indicar o chamado olho seco reflexo, quadro em que a superfície ocular ressecada estimula uma produção aumentada de lágrima, mas de composição inadequada e sem eficácia na hidratação.

Diagnóstico exige avaliação especializada

Especialistas reforçam a importância de não recorrer à automedicação. Por se tratar de uma condição multifatorial, o mesmo sintoma pode ter origens distintas, e o uso indiscriminado de colírios sem orientação médica pode mascarar quadros mais graves ou atrasar o diagnóstico correto. O diagnóstico da síndrome do olho seco é sempre clínico e deve ser conduzido por um oftalmologista, que investiga tanto a quantidade quanto a qualidade do filme lacrimal, seguindo protocolo padronizado que vai do exame menos invasivo ao mais invasivo.

Tratamento é individualizado e, em geral, contínuo

Por ser uma condição predominantemente crônica, o manejo do olho seco costuma exigir acompanhamento de longo prazo e combinação de estratégias. As opções terapêuticas incluem lágrimas artificiais em diferentes formulações, géis lubrificantes, anti-inflamatórios tópicos, suplementação com ômega-3, oclusão dos pontos lacrimais, soro autólogo e terapias mais avançadas, como luz pulsada intensa e dispositivos termopulsáteis, indicadas principalmente para casos associados à disfunção das glândulas de Meibômio.

Mudanças de hábito também fazem parte do protocolo preventivo e complementar ao tratamento, entre elas pausas regulares durante o uso de telas, seguindo a regra dos 20 minutos, 20 segundos e 20 pés (cerca de seis metros), hidratação adequada, uso de umidificadores em ambientes secos e atenção redobrada ao uso de lentes de contato.

Conscientização ganha força institucional

Ao longo dos últimos anos, o Julho Turquesa tem conquistado visibilidade crescente. Sociedades como a Sociedade Brasileira de Córnea e a Sociedade Brasileira de Oftalmologia promovem lives, cartilhas educativas e ações de iluminação de monumentos, como já ocorreu com o Cristo Redentor, no Rio de Janeiro. Em 2026, o município de Vitória (ES) aprovou projeto de lei incluindo o Julho Turquesa no calendário oficial de datas comemorativas da cidade, formalizando a campanha como política pública municipal de saúde ocular.

Para a classe médica, o mês também funciona como oportunidade de reforçar, junto ao público, um ponto central: o olho seco não é frescura nem apenas desconforto passageiro. É uma doença da superfície ocular que, sem diagnóstico e tratamento adequados, pode evoluir com dano à córnea e comprometimento da visão.

Baixe aqui o relatório completo do TFOS DEWS III

Baixe aqui o Consenso Latino-Americano sobre Lubrificantes Oculares e Olho Seco (LUBOS)
Para aprofundar:

O relatório completo do TFOS DEWS III: Diagnostic Methodology (2025), publicado no American Journal of Ophthalmology em acesso aberto, pode ser consultado e baixado em: ajo.com/article/S0002-9394(25)00275-2/fulltext. A TFOS também disponibiliza resumos e materiais de apoio em: tearfilm.org (TFOS DEWS III summaries).

O Consenso Latino-Americano sobre Lubrificantes Oculares e Olho Seco (LUBOS), publicado na revista Oftalmología Clínica y Experimental (2024;17:S1, eS1-eS103), está disponível para download em: revistaoce.com/index.php/revista/article/view/360/595.

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