
Paulo Schor
Caros colegas,
A oftalmologia sempre me pareceu especialmente interessante por reunir coisas que, à primeira vista, pareceriam distantes: tecnologia, ciência, ensino, gestão, negócios e, acima de tudo, gente. Sou suspeito para falar, porque construí minha trajetória tentando manter essas frentes juntas, a um custo que não foi pequeno. Ainda assim, talvez por esse percurso, eu possa dizer aos mais jovens que esse caminho existe.
Poucas áreas deixam tão evidente que a formação de um médico não termina na residência. Educação continuada e convivência com grupos ativos, críticos e dispostos a trocar experiências fazem parte da segurança do paciente. Tratamentos que há poucos anos não existiam passaram a fazer parte da rotina, diagnósticos antes difíceis tornaram-se acessíveis, e a inteligência artificial já ocupa espaço no acompanhamento dos pacientes, na elaboração de relatórios e até na criação de pequenas ferramentas pelos próprios oftalmologistas, sem que precisem dominar programação. A relação entre o médico e a tecnologia mudou muito, e vai continuar mudando.
Isso não significa aceitar qualquer novidade apenas porque é nova. Tecnologia precisa vir acompanhada de ciência e de evidência. Mas talvez precisemos rediscutir como produzimos essa evidência. Um único paciente, acompanhado de perto, com um grande número de medidas repetidas ao longo do tempo, pode revelar um sinal clínico relevante antes que um estudo maior, com centenas de pacientes, esteja pronto para confirmá-lo. Não se trata de abandonar a boa ciência, mas de reconhecer que ela também pode nascer da observação rigorosa de um caso só, quando feita com método.
O olho seco ilustra bem esse ponto. É uma das queixas mais comuns no consultório e, ao mesmo tempo, ainda subestimada. Hoje sabemos muito mais sobre superfície ocular, disfunção das glândulas de Meibomius, camada lipídica e blefarites. Temos lágrimas artificiais, mudanças ambientais, higiene, calor, expressão glandular, luz pulsada e diferentes possibilidades terapêuticas. O desafio já não está em saber o que fazer, mas em fazer esse conhecimento chegar ao paciente de um jeito que caiba no seu dia a dia.
Esse conhecimento também precisa circular melhor entre especialidades. A menopausa é um exemplo claro: sintomas de superfície ocular são frequentes nesse período, mas ainda há pouca conversa entre oftalmologistas e ginecologistas sobre o assunto. Quanto mais ferramentas oferecermos para que outros profissionais reconheçam problemas frequentes, e conduzam os casos iniciais, melhor. Cabe a nós receber e tratar o que exige abordagem mais especializada.
A oftalmologia que me interessa é essa: sofisticada tecnologicamente, rigorosa cientificamente, aberta a novas formas de trabalhar, ensinar e empreender, mas sem perder de vista o essencial. No fim, toda essa estrutura existe para melhorar o encontro entre uma pessoa que tem um problema e outra que decidiu estudar o suficiente para tentar ajudá-la.
Boa leitura!
Paulo Schor
Editor clínico


