Alcon reforça aposta no Brasil com Mayra Rodriguez na liderança cirúrgica e novos lançamentos a caminho
Por Marina Almeida
Engenheira eletrônica de formação, com quase três décadas de companhia e oito anos vividos no Brasil, executiva equatoriana fala sobre trajetória, sobre os lançamentos previstos para o próximo BRASCRS e sobre o que considera o maior diferencial da Alcon, que, segundo ela, não está no equipamento.
Mayra Rodriguez começou na Alcon antes mesmo de se formar. A companhia foi procurá-la na Escola Politécnica do Equador, onde cursava engenharia eletrônica, para ajudar a abrir, ainda nos anos 1990, a primeira filial do país. Eram oito pessoas, contando, segundo ela, quem abria a porta e fazia a faxina. Quase 28 anos depois, e após passagens pela gestão da unidade cirúrgica do Equador, pelo cluster Equador-Peru e por uma posição regional de serviço técnico para a América Latina, Mayra acaba de assumir a liderança da área cirúrgica da Alcon no Brasil, mercado considerado top global pela companhia.
A chegada se dá em um momento de inflexão. A Alcon, que já foi parte do grupo Nestlé e depois da Novartis, hoje opera de forma independente, com sede na Suíça, presença em mais de 140 países, investimento de cerca de US$ 1 bilhão por ano em pesquisa e desenvolvimento, mais de 2 mil colaboradores dedicados exclusivamente à inovação e cerca de 80 projetos rodando em paralelo. A companhia se aproxima dos 80 anos de mercado.
Em conversa com a Universo Visual, Mayra falou sobre a trajetória que a trouxe ao Brasil, sobre os lançamentos previstos, sobre o que considera o maior diferencial da Alcon e sobre como pretende garantir que cada inovação chegue de forma adequada ao oftalmologista brasileiro, em um país de dimensões continentais e realidades muito distintas. Falou ainda sobre liderança feminina, sobre a cirurgia de catarata recente do próprio pai e sobre por que decidiu colocar o rosto em uma comunicação institucional recente da companhia. Confira.
Revista Universo Visual – Sua trajetória na Alcon começou ainda na universidade, no Equador. Como foi esse início?

UV – A formação em engenharia teve peso nessa escolha?
Mayra – Teve. Fiz engenharia eletrônica na Politécnica do Equador, e naquela época, em uma turma de 50 estudantes, havia uma ou duas mulheres engenheiras, no máximo. A Alcon procurava um perfil que combinasse parte técnica e parte comercial, porque a equipe era pequena e cada pessoa precisava cobrir várias frentes. Eu também era presidente da associação de estudantes e tinha um bom desempenho acadêmico, então acabei sendo procurada. Depois fiz MBA em marketing, o que ajudou a transitar entre o técnico e o estratégico. Tenho viés de engenheira, e tecnologia me apaixona. Isso ajuda muito no segmento em que estamos hoje.
UV – Depois veio o cluster Equador-Peru, sob a era Novartis. Como foi esse capítulo?
Mayra – Quando a Novartis chegou, eu já era gestora da área cirúrgica do Equador. A Novartis tinha como prática agrupar países menores em clusters, e o Equador foi unido ao Peru. Foram cinco anos à frente desse cluster. Brincadeiras à parte sobre a comida peruana, foi uma escola: aprendi a gerenciar mercados culturalmente diferentes e a desenvolver flexibilidade para outras realidades, depois de uma carreira inteira em um Equador onde eu conhecia todo mundo.
UV – E a vinda para o Brasil?
Mayra – A Alcon na América Latina identificou que a região não tinha uma gerência dedicada à parte de pós-venda técnica. Como meu background combinava engenharia com visão comercial, fui convidada a vir para o Brasil para liderar essa área para toda a América Latina, com base em São Paulo. Cheguei há oito anos. Cheguei solteira, sem falar português, e aprendi aqui. Hoje sou casada com brasileiro. Como cheguei? Com muito mais perguntas que respostas. Um país continental, uma cultura muito particular, em um momento em que eu nem sequer entendia o que se falava.
UV – E como tem sido, agora, assumir a liderança cirúrgica do Brasil?
Mayra – É um desafio alto, e estou contente com ele. O Brasil é um país continental, são vários mercados em um só. Estou tentando aprender e me adaptar de forma acelerada, e estar em campo com os médicos é prioridade. Tenho uma equipe muito comprometida, e sou grata pela parceria com a sociedade e com a imprensa especializada. A Alcon tem responsabilidade de oferecer um serviço e uma atenção adequados, e meu papel é garantir que cada inovação chegue de forma oportuna e seja, de fato, aproveitada pelo médico e pelo paciente.
UV – A Alcon hoje opera de forma independente. O que muda?
Mayra – A Alcon foi da Nestlé, depois passou pela Novartis e agora é uma empresa de capital aberto, com sede na Suíça. Estamos livres para construir nossa própria cultura, que sempre foi muito particular, mesmo dentro dos grupos anteriores. Hoje temos liberdade para investir muito em inovação. São quase US$ 1 bilhão por ano em pesquisa e desenvolvimento, mais de 2 mil colaboradores dedicados exclusivamente a desenvolver novas tecnologias e cerca de 80 projetos rodando paralelamente em diferentes áreas. A Alcon está chegando aos 80 anos de mercado, e quer se manter líder. Em um segmento que se reinventa rápido, isso é, sim, um desafio.
UV – E como esse investimento se traduz em produto, especialmente olhando para o próximo BRASCRS?
Mayra – A nossa marca Unity® é uma das grandes apostas. É um guarda-chuva que reúne soluções de microscópio, refrativa, catarata, tudo dentro do mesmo conceito. No ano passado lançamos o Unity® VCS. Para o BRASCRS, vamos lançar o Unity® CS, voltado a catarata. Mas o que nos deixa mais empolgados é o Panoptix Pro, na área de lentes premium.
UV – Por que demorou quase oito anos entre o PanOptix® e o PanOptix® Pro?
UV – O nível de pesquisa exigido foi enorme. A Alcon montou cerca de 30 equipes paralelas para desenvolver candidatas a uma nova lente, com o cuidado de preservar a plataforma original do PanOptix®, que já tinha bom desempenho. As equipes concorreram entre si e, no fim, chegamos a duas finalistas. A escolhida foi a que mais preservava os benefícios da plataforma e trazia ganho em transmissão de luminosidade e aproveitamento de energia. É o PanOptix® Pro. Estamos bem empolgados com o lançamento no BRASCRS, que, aliás, está ganhando proporção mundial.
UV – Você costuma dizer que o maior diferencial da Alcon não está no equipamento. Como assim?
Mayra – Hoje, sinceramente, não há equipamento ruim no mercado. Há gaps, claro, e a Alcon investe muito para se manter à frente, mas a diferença não está dez vezes acima da concorrência no equipamento. Ela está dez vezes acima, sim, no serviço. E digo isso sem nenhuma dor na consciência, porque sei que é verdade.
Para fazer a manutenção de um equipamento Alcon, nossas ferramentas são calibradas todos os anos, sempre nos Estados Unidos ou em afiliadas locais sob padrão americano, dentro dos requisitos da FDA. Um engenheiro não consegue sequer abrir o equipamento se a calibração estiver vencida. Parece detalhe, mas para nós é fundamental. E treinamos nossos engenheiros internamente, não terceirizamos esse serviço, o que é raro no segmento. A venda não termina quando o médico recebe o equipamento. É um relacionamento de longo prazo. E o médico percebe a diferença, sobretudo no momento em que algo dá problema, anos depois da compra. É aí que o relacionamento se prova.
UV – O Brasil tem realidades muito distintas. Como a Alcon equaciona atender mercados tão diferentes?
Mayra – Há médicos no Brasil, e fico contente porque são muitos, que querem saber não só o que vem agora, mas o que vem daqui a dois ou três anos, e eles sabem que a Alcon estará lá. E há médicos que trabalham com volumes grandes de pacientes, em áreas mais distantes, com necessidades distintas. Não pode haver segmento descartado. Estratégia de marketing é uma coisa, operação é outra. No operacional, todos precisam ser atendidos, porque os pacientes desses médicos também precisam de uma solução adequada.
UV – E como entra a parte de educação nessa estratégia?
A educação é uma das primícias da relação que a Alcon tem com o oftalmologista. Há cerca de cinco anos temos o Alcon Experience Center, em São Paulo, um dos aproximadamente 20 centros que a companhia mantém no mundo. No ano passado dobramos o espaço. Mais importante do que a estrutura é o time: são pessoas dedicadas exclusivamente a treinar oftalmologistas, não pessoas de venda nem de operação. Estamos pensando em projetos para aproximar esse modelo de hospitais escola.
E há a parceria com a Universo Visual no curso de orientação cirúrgica, um exemplo desse esforço. Mais de 2 mil orientadoras passaram pela formação ao longo de cerca de quatro anos, e a Alcon abriu consultórios e centros cirúrgicos para a gravação. Isso só faz sentido porque a companhia entende que o oftalmologista brasileiro gosta de educação, gosta de pesquisa, e cabe a nós oferecer isso de forma consistente.
UV – Você é uma voz feminina em uma posição de liderança importante na indústria, em um momento em que mulheres começam a ocupar cargos como a presidência do CBO e do BRASCRS. Como vê esse movimento?
Mayra – Vejo com muita alegria. Quando estudei engenharia, há quase três décadas, em uma turma de 50, havia uma ou duas mulheres. Hoje a oftalmologia tem cada vez mais mulheres se formando, virando referência em subespecialidades, ocupando o lugar de speaker na indústria e chegando à liderança das entidades. O equilíbrio entre homens e mulheres só faz sentido quando vem por mérito, pois a capacidade é igual para ambos.
UV – Para encerrar, qual a mensagem que gostaria de deixar para o oftalmologista brasileiro? E por que decidiu colocar o seu rosto em uma comunicação institucional recente da Alcon, algo pouco usual no setor?
Mayra – A mensagem é a de que a Alcon quer ser parceira do médico no longo prazo. Isso significa trazer as inovações que desenvolvemos não para virar manchete, mas para chegar nas mãos do oftalmologista, com o serviço e o suporte adequados. A Alcon é uma multinacional, mas precisa funcionar como uma empresa próxima, capaz de adaptar a estratégia global à necessidade local. Não vamos ter sucesso se nossos médicos não tiverem sucesso em entregar uma boa solução ao paciente. A melhor publicidade de um médico, costumo dizer, é um paciente satisfeito.
E por isso colocar o rosto na comunicação faz sentido. Relacionamento se faz com pessoas, não com nomes de empresas. Cada médico tem o seu jeito, cada paciente é único. Atrás de cada cirurgia há uma família inteira envolvida, um paciente que muitas vezes levou meses ou anos até decidir operar, que enfrentou receio, que pediu para alguém acompanhar. E atrás de cada lente que falhou, de cada problema que aconteceu, há alguém que provavelmente passou a noite anterior sem dormir. Não dá para encarar essa cirurgia como mais um número. Por mais que a Alcon esteja em mais de 140 países, no fim somos pessoas atendendo pessoas. E é isso que eu quero manter como prioridade, internamente e na relação com o oftalmologista brasileiro.


