Desenvolvida ao longo de 15 anos na Unifesp, tecnologia busca combinar melhor visualização das estruturas intraoculares e potencial proteção contra os efeitos da iluminação cirúrgica. Estudos clínicos e experimentais reforçam perspectivas para a cromovitrectomia.

O projeto é resultado de aproximadamente 15 anos de investigação científica conduzida no Departamento de Oftalmologia e Ciências Visuais da Escola Paulista de Medicina (EPM/Unifesp), com participação do oftalmologista Prof. Dr. Maurício Maia, um dos pesquisadores envolvidos no desenvolvimento da tecnologia.
A linha de pesquisa teve início com a avaliação de pigmentos naturais, incluindo compostos derivados do açaí, e evoluiu para formulações que utilizam a luteína, um carotenoide naturalmente presente na mácula humana e reconhecido por suas propriedades antioxidantes e pela capacidade de absorver parte da luz azul.
Segundo informações divulgadas pela Unifesp, o desenvolvimento envolveu análises laboratoriais, estudos pré-clínicos, avaliações em olhos humanos de cadáveres e ensaios clínicos com pacientes, além de comparações com corantes já empregados na prática cirúrgica.
Mais contraste para estruturas delicadas
Na cirurgia vitreorretiniana, a identificação precisa da membrana limitante interna (MLI), da hialoide posterior e de outras estruturas da interface vitreorretiniana é fundamental para a realização de manobras como o descolamento do vítreo posterior e o peeling de membranas.
A cromovitrectomia utiliza substâncias capazes de destacar esses tecidos, ampliando o contraste e facilitando sua manipulação durante a vitrectomia via pars plana.
Nesse contexto, as formulações contendo luteína apresentam características relevantes. Ao interagir com estruturas intraoculares, o pigmento pode contribuir para a diferenciação visual dos tecidos. Em formulações combinadas com azul brilhante, os estudos observaram contraste em tonalidades azul-esverdeadas, especialmente na identificação da MLI.
Além da capacidade de visualização, determinadas formulações apresentam densidade superior à da solução salina balanceada, favorecendo a deposição do corante no polo posterior e reduzindo a necessidade de aplicações sob maior pressão.
Essas características podem facilitar etapas particularmente delicadas de cirurgias de buraco macular, membrana epirretiniana e outras doenças que exigem manipulação da interface vitreorretiniana.
Pesquisas brasileiras demonstraram resultados promissores
Parte importante da fundamentação científica da tecnologia está documentada em publicações internacionais realizadas por pesquisadores brasileiros.
Um estudo publicado em 2012 na revista Retina avaliou diferentes concentrações de luteína e zeaxantina, isoladamente ou associadas ao azul brilhante, em 60 olhos humanos de cadáveres. Os pesquisadores observaram que as formulações facilitaram a identificação do vítreo, da hialoide posterior, da membrana limitante interna e de estruturas do segmento anterior, dependendo da composição utilizada.
Em 2014, um estudo clínico prospectivo publicado no Graefe’s Archive for Clinical and Experimental Ophthalmology avaliou 18 olhos submetidos à cirurgia para buraco macular ou membrana epirretiniana com uma combinação de luteína/zeaxantina solúvel a 1% e azul brilhante a 0,025%.
Todos os cirurgiões relataram coloração azul-esverdeada da membrana limitante interna, e 94,4% consideraram adequada a remoção da membrana com auxílio do produto. Não foram identificados sinais de toxicidade durante os 30 dias de acompanhamento, embora o tamanho da amostra e o período de observação limitem conclusões sobre segurança de longo prazo.
Outra publicação, na revista Retina, também em 2014, acompanhou 12 olhos submetidos a vitrectomia com formulação à base de luteína. Os resultados indicaram melhora na identificação intraoperatória da hialoide posterior e da MLI, sem evidências clínicas de toxicidade durante o acompanhamento de até seis meses.
Potencial antioxidante pode representar um benefício adicional
Um dos aspectos mais interessantes dessa linha de investigação é a possibilidade de associar a função de contraste cirúrgico à fotoproteção retiniana.
A luteína pertence ao grupo das xantofilas, carotenoides que participam da composição do pigmento macular e apresentam capacidade de absorção de determinados comprimentos de onda da luz visível, especialmente na faixa azul. A substância também está associada à neutralização de espécies reativas de oxigênio.
Durante a cirurgia vitreorretiniana, a exposição prolongada à iluminação endocular pode favorecer processos fotoquímicos e estresse oxidativo, particularmente quando a fonte luminosa está próxima à retina.
Um estudo experimental publicado em novembro de 2025 na revista Frontiers in Pharmacology investigou o comportamento de corantes azuis contendo luteína diante da exposição a fontes de luz LED e xenônio.
Os pesquisadores observaram redução da produção de espécies reativas de oxigênio em células do epitélio pigmentar da retina previamente tratadas com formulações contendo luteína, em condições experimentais de exposição luminosa.
Os achados reforçam a hipótese de que esses compostos possam oferecer proteção adicional durante procedimentos intraoculares. Entretanto, a comprovação de um benefício fotoprotetor clinicamente relevante ainda depende de estudos em pacientes, com amostras maiores e acompanhamento adequado.
Evidências clínicas internacionais ampliam a discussão
O interesse científico pelas formulações com luteína também se reflete em pesquisas realizadas fora do Brasil.
Um ensaio clínico randomizado publicado em 2018 no Graefe’s Archive for Clinical and Experimental Ophthalmology comparou três formulações de corantes em 45 pacientes submetidos à cirurgia de membrana epirretiniana.
Os participantes foram distribuídos entre grupos que utilizaram uma combinação de azul tripan, azul brilhante e luteína; uma formulação de azul tripan e azul brilhante com polietilenoglicol; ou indocianina verde.
Os resultados mostraram melhor acuidade visual e sensibilidade macular nos primeiros três meses no grupo tratado com a formulação contendo luteína. A análise histopatológica também identificou menor expressão de marcadores relacionados à presença de componentes gliais e neuronais nos tecidos removidos, sugerindo menor trauma associado ao peeling.
Após seis meses, entretanto, as diferenças funcionais entre os grupos deixaram de ser estatisticamente significativas.
Mais recentemente, um estudo piloto italiano publicado em 2025 na Frontiers in Medicine analisou 18 pacientes submetidos à vitrectomia por membrana epirretiniana idiopática com auxílio de um corante à base de luteína.
Os autores relataram visualização satisfatória do vítreo e da hialoide posterior, além de melhora da acuidade visual e redução da espessura retiniana central durante o acompanhamento de seis meses. Por se tratar de um estudo retrospectivo, sem grupo comparador, não é possível atribuir esses resultados funcionais exclusivamente ao corante utilizado.
Em conjunto, as publicações demonstram a continuidade do interesse científico pelo emprego da luteína em formulações destinadas à cirurgia vitreorretiniana.
Novas perspectivas para a cirurgia oftalmológica
Além das aplicações em cirurgias de retina e vítreo, os pesquisadores consideram possibilidades de utilização desses compostos em outros procedimentos oftalmológicos.
Estudos experimentais já demonstraram afinidade de determinadas formulações com estruturas do segmento anterior, incluindo a cápsula do cristalino, o que abre perspectivas de investigação em cirurgias de catarata.
Outras possibilidades, como aplicações em glaucoma, traumas oculares e doenças proliferativas, ainda exigem desenvolvimento e validação específicos.
Uma revisão científica publicada em junho de 2026 no Graefe’s Archive for Clinical and Experimental Ophthalmology identificou as formulações à base de luteína entre as tecnologias emergentes da cromovitrectomia, destacando seu potencial para combinar contraste, seletividade tecidual e fotoproteção.
Apesar dos resultados positivos, a escolha de um corante intraocular continua dependendo de fatores como afinidade pelo tecido-alvo, concentração, osmolaridade, tempo de exposição, perfil de segurança e evidências clínicas disponíveis para cada formulação.
Pesquisa brasileira terá destaque no PanRetina 2026
A trajetória de desenvolvimento do corante e os resultados das diferentes etapas de investigação deverão integrar as discussões científicas do 11º Congresso da Sociedade Pan-Americana de Retina e Vítreo, que será realizado de 29 de outubro a 1º de novembro de 2026, no Grand Hyatt São Paulo.
Presidido pelo Prof. Dr. Maurício Maia, o encontro reunirá especialistas nacionais e internacionais para debater avanços em diagnóstico, tratamento e cirurgia vitreorretiniana.
A Universo Visual, mídia oficial do PanRetina 2026, acompanhará a programação e os principais avanços apresentados durante o congresso.
A pesquisa desenvolvida na Unifesp evidencia o papel da produção científica brasileira na evolução das técnicas cirúrgicas e no desenvolvimento de soluções que buscam conciliar precisão, inovação e segurança para os pacientes.
Fonte: Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), com informações complementares de estudos publicados nas revistas Retina, Graefe’s Archive for Clinical and Experimental Ophthalmology, Frontiers in Medicine e Frontiers in Pharmacology.



