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Dispositivo da Alcon, recém-disponível no Brasil, integra a estratégia das MIGS e pode ser associado à cirurgia de catarata em pacientes selecionados com glaucoma primário de ângulo aberto

A Clínica de Olhos Dr. Moacir Cunha, marca do Grupo Fleury, anunciou a realização de seu primeiro procedimento com o Hydrus® Microstent, tecnologia da Alcon com registro na Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e recentemente disponibilizada no mercado brasileiro. Segundo a instituição, a clínica é a primeira de São Paulo a realizar a intervenção, que amplia as alternativas cirúrgicas para pacientes selecionados com glaucoma.

O procedimento foi realizado pelo Dr. Marcelo Macedo, especialista em glaucoma, e representa um avanço na incorporação das chamadas cirurgias minimamente invasivas para glaucoma (MIGS, na sigla em inglês) à prática oftalmológica brasileira.

Originalmente desenvolvido pela Ivantis, empresa adquirida pela Alcon em 2022, o Hydrus® já é utilizado internacionalmente e conta com evidências clínicas de longo prazo. Seu registro sanitário no Brasil representa uma etapa relevante para ampliar o acesso à tecnologia.

Como funciona o Hydrus® Microstent®

O Hydrus é um microimplante de aproximadamente 8 milímetros, produzido em nitinol, uma liga metálica de níquel e titânio com propriedades de flexibilidade e biocompatibilidade.

Introduzido por via ab interno, o dispositivo é posicionado no canal de Schlemm, onde atua por dois mecanismos complementares: cria uma via de passagem através da malha trabecular e mantém parte do canal dilatada, favorecendo o escoamento do humor aquoso pelos canais coletores.

Ao facilitar a drenagem fisiológica, o dispositivo busca reduzir a pressão intraocular (PIO), principal fator de risco modificável associado à progressão do glaucoma.

A tecnologia pode ser implantada durante a cirurgia de catarata em pacientes selecionados com glaucoma primário de ângulo aberto, especialmente nos estágios leve e moderado. A decisão deve considerar a gravidade da doença, o controle pressórico, a carga medicamentosa e as condições anatômicas e clínicas de cada paciente.

“O glaucoma é uma doença crônica e progressiva que pode provocar perda irreversível da visão. Em muitos casos, a doença evolui durante anos sem apresentar sintomas perceptíveis, o que torna o acompanhamento oftalmológico importante para o diagnóstico e o controle da condição. O tratamento busca principalmente reduzir a pressão intraocular e diminuir o risco de progressão da doença, podendo envolver colírios, laser ou diferentes procedimentos cirúrgicos, de acordo com as características de cada paciente”, explica o Dr. Marcelo Macedo.

Estudo HORIZON demonstra benefícios sustentados após cinco anos

Uma das principais evidências científicas sobre o Hydrus® é o estudo internacional HORIZON, ensaio clínico multicêntrico, prospectivo e randomizado, que avaliou 556 olhos de pacientes com glaucoma primário de ângulo aberto e catarata.

Os participantes foram distribuídos entre cirurgia de catarata associada ao Hydrus Microstent (369 olhos) e cirurgia de catarata isolada (187 olhos).

Os resultados publicados na revista Ophthalmology demonstraram benefícios sustentados ao longo de cinco anos.

Após cinco anos de acompanhamento:

  • 66% dos olhos tratados com Hydrus estavam livres de colírios para glaucoma, contra 46% no grupo submetido apenas à cirurgia de catarata.
  • 49,5% dos olhos com Hydrus apresentaram PIO igual ou inferior a 18 mmHg sem medicamentos, contra 33,8% no grupo controle.
  • 54,2% alcançaram redução de pelo menos 20% da PIO sem medicamentos, frente a 32,8% dos olhos submetidos somente à cirurgia de catarata.
  • A incidência acumulada de cirurgia incisional subsequente para glaucoma foi de 2,4% no grupo Hydrus, contra 6,2% no grupo controle.

Os dados reforçam o potencial da tecnologia para reduzir a dependência de medicamentos e diminuir a necessidade de intervenções cirúrgicas adicionais em pacientes adequadamente selecionados.

Preservação do campo visual amplia relevância clínica

Além do controle pressórico, uma análise posterior dos dados do HORIZON investigou a progressão do campo visual após cinco anos.

Os pesquisadores identificaram uma taxa média de deterioração do índice Mean Deviation (MD) de aproximadamente −0,26 dB/ano no grupo submetido à cirurgia de catarata com Hydrus®, em comparação com −0,49 dB/ano no grupo submetido apenas à cirurgia de catarata.

A diferença sugere uma progressão funcional mais lenta nos olhos tratados com a combinação cirúrgica.

Esse resultado é particularmente relevante porque, embora a redução da pressão intraocular seja o principal objetivo terapêutico, a preservação da função visual constitui um dos desfechos mais importantes no acompanhamento longitudinal do glaucoma.

Por se tratar de uma análise posterior de dados do ensaio clínico, os resultados devem ser interpretados considerando as características da população estudada e os limites metodológicos dessa avaliação.

Evidências de mundo real e segurança do procedimento

Além dos estudos randomizados, pesquisas observacionais vêm ampliando a compreensão do desempenho do Hydrus® em diferentes cenários clínicos.

Uma investigação publicada no Canadian Journal of Ophthalmology em 2026 acompanhou 64 olhos submetidos à implantação do Hydrus® associada à cirurgia de catarata durante cinco anos.

Os resultados demonstraram redução média da PIO de 17,8 mmHg para 13,2 mmHg no período, acompanhada de diminuição do número médio de medicamentos utilizados.

Embora os achados sejam favoráveis, estudos retrospectivos apresentam limitações e não substituem ensaios clínicos randomizados.

Em relação à segurança, o seguimento de cinco anos do HORIZON não identificou diferença estatisticamente significativa na perda de células endoteliais entre os grupos durante o intervalo de três a 60 meses. Entretanto, eventos como sinequias anteriores periféricas, elevações pressóricas transitórias e necessidade de novas intervenções continuam sendo aspectos importantes da avaliação pós-operatória.

A experiência do cirurgião, a seleção dos pacientes e o acompanhamento longitudinal permanecem fundamentais para o sucesso do tratamento.

Uma nova alternativa no manejo individualizado do glaucoma

A chegada do Hydrus® ao mercado brasileiro acompanha uma tendência de ampliação do arsenal terapêutico disponível para o glaucoma, permitindo que diferentes intervenções sejam consideradas de acordo com as necessidades individuais dos pacientes.

Entretanto, os procedimentos classificados como MIGS não substituem necessariamente cirurgias filtrantes tradicionais, como a trabeculectomia, especialmente quando são necessárias reduções pressóricas mais expressivas.

“No glaucoma, não existe um único tratamento adequado para todos os pacientes. Nosso objetivo é ter diferentes recursos disponíveis para escolher a melhor estratégia em cada momento da doença. A chegada do Hydrus® acrescenta uma opção minimamente invasiva, com estudos de longo prazo e resultados interessantes não apenas no controle da pressão e na redução do uso de colírios, mas também na preservação do campo visual”, conclui o Dr. Marcelo Macedo.

Com a incorporação do dispositivo, a Clínica de Olhos Dr. Moacir Cunha amplia suas alternativas de tratamento cirúrgico e acompanha a evolução das tecnologias voltadas à preservação da visão e ao controle individualizado do glaucoma.

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