No contexto do Julho Turquesa, o mês da saúde ocular, a atenção às doenças da retina precisa ultrapassar os casos mais conhecidos, como a catarata, e se voltar com mais intensidade para condições crônicas de alto impacto funcional, como a Degeneração Macular Relacionada à Idade (DMRI) e o Edema Macular Diabético (EMD). Ambas estão entre as principais causas de perda visual central em adultos e idosos, exigindo do oftalmologista uma abordagem que vá além do tratamento pontual — incorporando estratégias de engajamento, acompanhamento multidisciplinar e reabilitação visual.
A DMRI é uma doença progressiva e multifatorial que compromete a mácula, afetando diretamente tarefas de precisão como leitura, identificação facial e direção. Sua forma exsudativa, embora menos prevalente, demanda intervenções frequentes e acompanhamento rigoroso — o que desafia a capacidade de adesão do paciente, sobretudo no longo prazo. Já o EMD, frequentemente silencioso até estágios avançados, é uma das complicações mais incapacitantes da retinopatia diabética, exigindo vigilância constante do oftalmologista, especialmente frente ao crescimento da população com diabetes tipo 2.
Um levantamento conduzido pela FGV/CPDOC e Retina Brasil, com apoio da Roche Farma Brasil, evidenciou que 29% dos pacientes com DMRI ou EMD relataram ter abandonado o tratamento ao menos uma vez, o que acende um alerta importante sobre barreiras não apenas clínicas, mas também logísticas, emocionais e socioeconômicas no manejo dessas condições.
“A dificuldade de adesão — seja por medo da aplicação intravítrea, deslocamento, falta de rede de apoio ou questões emocionais — pode culminar em perda visual irreversível. Cabe ao oftalmologista identificar esses riscos precocemente e articular soluções em rede”, reforça Patrícia Kakizaki, especialista em retina clínica e cirúrgica pela UNIFESP.
Outro dado preocupante diz respeito à baixa adesão aos serviços de reabilitação: apenas 20% dos entrevistados tiveram acesso a recursos de apoio funcional e psicossocial após a perda visual. Os demais enfrentam barreiras estruturais, como ausência de centros especializados em suas cidades e custos associados, que dificultam a continuidade do cuidado.
Para o oftalmologista, isso representa uma oportunidade de atuação ampliada, em parceria com outras especialidades, associações de pacientes e redes de apoio. “O desenvolvimento de novas tecnologias e terapias tem avançado, mas é fundamental garantir que essas soluções estejam integradas à jornada real do paciente”, pontua Rogério Mauad, gerente executivo de estratégia médica em oftalmologia.
O alerta é claro: não basta tratar, é preciso acompanhar. Diagnóstico precoce, adesão terapêutica, acesso à reabilitação e suporte contínuo devem caminhar juntos para preservar a visão e a autonomia funcional do paciente. E o oftalmologista está no centro dessa transformação assistencial, com um papel estratégico tanto na clínica quanto na construção de políticas de acesso e educação em saúde ocular.


