Caros colegas,
A oftalmologia é uma especialidade que admite inúmeros pontos de vista, e talvez por isso mesmo seja tão apaixonante. Ela transita com naturalidade entre a clínica e a cirurgia, entre a tecnologia mais avançada e o cuidado profundamente humano com o paciente. Ao mesmo tempo, é uma das áreas da medicina que mais movimenta consultas e exames nos sistemas de saúde, tanto públicos quanto privados. Em diferentes países observamos modelos distintos de organização desse cuidado. Nos Estados Unidos, por exemplo, a assistência ocular possui em muitos contextos circuitos próprios, com a optometria estruturada em convênios específicos. No Brasil, por outro lado, vemos uma confluência de caminhos e oportunidades, em que a oftalmologia se articula com diferentes níveis de atenção, profissionais e modelos de prática.
Esse mosaico também aparece quando observamos o impacto social da especialidade. Iniciativas internacionais como as promovidas pela International Agency for the Prevention of Blindness (IAPB), além de missões em áreas remotas do Brasil e em outros continentes, como a África, mostram o quanto a oftalmologia tem contribuído para aquilo que hoje chamamos de ciência da implementação. Trata-se de compreender quais são as barreiras e os facilitadores para que tecnologias já dominadas cheguem efetivamente às pessoas que delas necessitam. Nesse sentido, inovação não significa apenas desenvolver novos dispositivos, mas também criar caminhos para que soluções já existentes alcancem a população.
Paralelamente, existe o ecossistema da prática especializada em grandes centros urbanos, onde a oftalmologia dialoga diretamente com o desenvolvimento tecnológico e com a indústria. Cada vez mais, médicos participam de processos de inovação, avaliação e difusão de tecnologias. Nesse contexto, ganha relevância o papel do chamado Key Opinion Leader, ou KOL, o formador de opinião que contribui para a discussão científica e para a disseminação responsável de novos conhecimentos. Muitos de nós já exercemos essa função sem necessariamente nos identificarmos dessa forma. Em outros casos, essa liderança ocorre de maneira informal, quando poderia ser estruturada de modo transparente, inclusive como uma atividade profissional legítima, sempre respeitando os princípios éticos e os mecanismos de compliance que hoje também fazem parte da cultura das empresas e das instituições médicas.
Nos últimos anos, amadurecemos muito também no campo da regulação e da organização profissional. No Brasil, entidades como o Conselho Brasileiro de Oftalmologia desempenham papel fundamental não apenas na defesa da especialidade, mas também na ampliação da educação continuada, na qualificação dos novos especialistas e na discussão permanente sobre qualidade na formação. Mesmo os congressos da área vêm experimentando novos formatos de ensino, reconhecendo que a forma de aprender e de compartilhar conhecimento está em transformação. Tecnologias digitais, modelos híbridos de educação e ferramentas baseadas em grandes modelos de linguagem e inteligência artificial colocam novos desafios e também novas oportunidades para a formação médica.
Talvez essa seja uma boa reflexão também para cada um de nós. Em meio às múltiplas possibilidades que a oftalmologia oferece (clínicas, cirúrgicas, tecnológicas, sociais ou acadêmicas), é importante não perder de vista aquilo que nos moveu no início da trajetória. Olhar para dentro, reconhecer as próprias motivações e preservar o sentido do trabalho pode ser o que mantém viva a energia necessária para percorrer uma carreira que, sem dúvida, continua sendo uma das mais fascinantes da medicina.
Boa leitura!
Paulo Schor
Editor clínico



