Por Flávia Lo Bello
A IAPB – International Agency for the Prevention of Blindness (Agência Internacional para a Prevenção da Cegueira) – foi fundada em 1975 com uma missão clara e urgente: eliminar a cegueira evitável no mundo. Trata-se de uma aliança global que reúne mais de 150 organizações-membros em mais de 100 países, trabalhando em estreita colaboração com a Organização Mundial da Saúde (OMS), com quem mantém relações oficiais desde sua fundação.

Frank Hida, Co-Chair da IAPB na América Latina
Segundo o engenheiro Frank Hida, Co-Chair da IAPB na América Latina, o propósito da Agência vai além da prevenção clínica da cegueira. “Atuamos como catalisadores de mudança sistêmica, mobilizando governos, setor privado, sociedade civil e comunidade oftalmológica para transformar a saúde ocular em prioridade de desenvolvimento global”, explica, ressaltando que o trabalho da IAPB se baseia em três pilares fundamentais: advocacy político (conjunto de ações estratégicas que tem por objetivo promover mudanças sociais, culturais ou ambientais, defendendo determinadas causas), fortalecimento de sistemas de saúde e mobilização de recursos para garantir que todas as pessoas, independentemente de onde vivam ou de sua condição socioeconômica, tenham acesso a cuidados oftalmológicos de qualidade.

médico oftalmologista Hiran Manuel Gonçalves da Silva, senador do Partido Progressistas (PP) eleito por Roraima (RR)
De acordo com o médico oftalmologista Hiran Manuel Gonçalves da Silva, senador do Partido Progressistas (PP) eleito por Roraima (RR), o Brasil possui políticas importantes dentro do Sistema Único de Saúde (SUS). Há programas de cirurgias de catarata, atendimento especializado e ações voltadas ao diagnóstico e tratamento de doenças, como glaucoma e retinopatia diabética, porém ainda precisa avançar, sobretudo na redução das desigualdades de acesso. “Populações indígenas, comunidades rurais e regiões mais afastadas enfrentam dificuldades para diagnóstico precoce e acompanhamento contínuo. A prevenção precisa estar mais presente na atenção primária. Como médico oftalmologista, eu afirmo com convicção: investir em saúde ocular é investir em dignidade, inclusão e desenvolvimento,” enfatiza o senador.
Conforme explica Hida, o programa 2030 In Sight, estratégia global lançada pela IAPB, é a iniciativa mundial mais ambiciosa promovida até hoje. Lançada em alinhamento com os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da Organização das Nações Unidas (ONU) e com o relatório histórico da OMS, World Report on Vision (Relatório Mundial sobre a Visão, que busca gerar maior conscientização, vontade política e investimento para fortalecer o cuidado oftalmológico globalmente), em 2019, sobre saúde ocular universal, a estratégia estabelece metas claras para a próxima década: 1. 1,1 bilhão de pessoas com deficiência visual evitável devem ter acesso à saúde ocular; 2. Integração da saúde ocular nos sistemas nacionais de saúde de todos os países; 3. Eliminação do tracoma e outras doenças tropicais negligenciadas que causam cegueira; 4. Fortalecimento da força de trabalho em oftalmologia, especialmente em países de baixa e média renda
2030 InSight e Global Summit for Eye Health 2026
Na opinião de Drew Keys, diretor de Engajamento Regional da IAPB, o que torna o 2030 InSight revolucionário é seu reposicionamento da saúde ocular não mais como custo, mas como investimento estratégico em desenvolvimento econômico. “O relatório The Valeu of Vision (O Valor da Visão) demonstra que cada dólar investido em saúde ocular retorna 28 dólares à economia – um dos melhores retornos sobre investimento em toda a área da saúde”, comenta Keys. Ele esclarece que, globalmente, a deficiência visual evitável causa US$ 411 bilhões em perda de produtividade anualmente, conforme estimado pela Comissão Lancet sobre Saúde Ocular Global. “Portanto, 2030 InSight não é apenas sobre restaurar a visão – é sobre restaurar dignidade, produtividade, educação e futuro para bilhões de pessoas”, pontua.
Já a reunião Global Summit for Eye Health 2026 – Cúpula Global para a Saúde Ocular, que será realizada em Antígua e Barbuda, em novembro de 2026 – é um fórum político de alto nível (o “Davos da Saúde Ocular”), que irá reunir ministros da saúde, chanceleres e organizações multilaterais. “Os temas centrais são: compromissos formais de governos, reposicionamento da saúde ocular como investimento econômico, equidade para populações vulneráveis, financiamento sustentável e capacitação profissional”, comenta Keys. Ele revela que o que se busca de resultados para essa reunião são a Declaração de Barbuda com compromissos de 30+ países, mobilização de US$ 500 milhões para Fundo Global, criação de Coalizão de Ministros da Saúde, e documentação de modelos replicáveis.
“Para o Brasil essa é uma oportunidade de liderança regional. Já estamos desenvolvendo uma estratégia nacional pioneira com Grupo de Trabalho (GT) para saúde ocular indígena em parceria com o Conselho Brasileiro de Oftalmologia (CBO). O Brasil pode ser modelo para América Latina”, destaca Hida. Na opinião do senador Gonçalves, a Cúpula Global para a Saúde Ocular configura um marco histórico para a oftalmologia no mundo todo. “A oftalmologia mundial já sabe que a maior parte da cegueira é evitável ou tratável – e o Brasil tem todas as condições técnicas e científicas para se tornar referência regional nessa área, desde que trate o tema como prioridade estratégica. O conhecimento científico existe, as técnicas existem e os tratamentos são altamente eficazes, o que muitas vezes falta é prioridade política”, enfatiza o médico.
Ele afirma que os oftalmologistas de todos os países esperam que essa reunião produza compromissos concretos dos governos. “Esperamos que a saúde ocular deixe de ser vista como pauta secundária e passe a integrar de forma estruturada as políticas nacionais de saúde. E também que haja ampliação de financiamento, cooperação internacional e metas claras”, pontua. Para ele, a saúde ocular não é apenas uma questão médica. É uma questão social e econômica. “A perda de visão impacta produtividade, educação, renda e qualidade de vida. Uma Cúpula desse porte pode consolidar diretrizes globais e transformar a visão em prioridade estratégica de desenvolvimento”, finaliza Gonçalves.
Condições do Brasil e América Latina
De acordo com Frank Hida, a América Latina enfrenta um paradoxo: há expertise oftalmológica de classe mundial, porém desigualdades abissais no acesso. Os principais desafios são:
- Fragmentação dos sistemas de saúde – múltiplos atores trabalhando isoladamente, sem coordenação;
- Invisibilidade política – saúde ocular vista como “problema menor”, resultando em subfinanciamento;
- Desigualdades extremas – no Brasil, muitos indígenas nunca tiveram olhos examinados; crianças indígenas sem exame oftalmológico;
- Transição epidemiológica – tripla carga: doenças infecciosas, crônicas e envelhecimento populacional;
- Força de trabalho mal distribuída – concentração em centros urbanos, áreas remotas desassistidas;
- Falta de dados – ausência de vigilância epidemiológica robusta;
- Financiamento insustentável – dependência de projetos pontuais não estrutural. Oportunidades: Tecnologia (telemedicina, IA), vontade política crescente, sociedade civil forte.
O Co-Chair da IAPB na América Latina diz que, no país, está sendo construída a “Aliança pela Visão no Brasil” – estratégia nacional reunindo governo, setor privado e CBO. “Já criamos GT para Plano Nacional de Saúde Ocular Indígena. O Brasil pode ser referência global em superar esses desafios”, revela.
O que a Cúpula Global para a Saúde Ocular discutirá
Todos os governos, organizações do setor privado, grupos da sociedade civil, instituições de pesquisa e filantropos estão convidados a apresentar e divulgar seus compromissos futuros com a saúde ocular no Global Summit for Eye Health, em Antígua e Barbuda, em novembro de 2026. É um compromisso público formal, assumido por um governo, organização, empresa ou instituição internacional, de tomar medidas específicas, alocar recursos ou atingir metas mensuráveis na busca do objetivo comum de acabar com a perda de visão evitável. A Cúpula reunirá líderes mundiais para:
- Ativar planos de âmbito nacional para promover mudanças e uma abordagem integrada;
- Implementar mudanças nas políticas para abordar a questão da visão, reconhecendo-a como um problema que afeta a vida de todos e que exige uma abordagem governamental abrangente;
- Aumentar os recursos, reconhecendo o retorno do investimento possível a nível nacional e internacional;
- Explorar mecanismos de financiamento inovadores e novas formas de financiar a saúde ocular;
- Promover parcerias com o setor privado;
- Colaborar entre os setores público e privado para aproveitar os benefícios educacionais e sociais;
- Aproveitar a tecnologia e acelerar a pesquisa e o desenvolvimento.
Participação no SIMASP 2026
Frank Hida afirma que foi uma honra participar do SIMASP 2026, um dos eventos mais importantes da oftalmologia brasileira, realizado em São Paulo, SP, entre os dias 4 e 7 de março. “Minha participação teve um foco estratégico: conectar a oftalmologia brasileira com a agenda global de saúde ocular e demonstrar como o Brasil está se posicionando como líder regional”, comenta o Co-Chair da IAPB na América Latina.
O engenheiro conduziu uma sessão especial da IAPB, intitulada “Brasil e o Global Summit for Eye Health 2026“, ao lado de uma delegação internacional de alto nível. “A presença desses líderes globais no SIMASP foi, por si só, um reconhecimento da importância estratégica do Brasil para a agenda mundial de saúde ocular”, avalia, enfatizando que a sessão não foi uma palestra técnica tradicional, mas uma conversa estratégica e interativa. “Apresentamos a iniciativa global 2030 InSight e o Global Summit for Eye Health 2026 não mais como um evento internacional, mas como um momento político decisivo em que países estabelecerão compromissos formais de Estado”, esclarece.
A participação ainda explorou o paradoxo brasileiro: um país com mais de 20.000 oftalmologistas altamente qualificados, tecnologia de ponta e o SUS, mas que ainda convive com milhões de pessoas com cegueira evitável e profundas desigualdades de acesso. “Apresentei também em primeira mão a estratégia ‘Aliança pela Visão no Brasil’, contudo, o ponto central da sessão foi o papel da comunidade oftalmológica”, comenta, apontando que esta não é uma estratégia da IAPB para o Brasil — é uma estratégia do Brasil com a IAPB. “Reservamos 30% a 40% do tempo para diálogo aberto com a audiência, porque queríamos ouvir os oftalmologistas: quais são as barreiras do dia a dia, que soluções práticas enxergam e quem quer se engajar ativamente”, conclui Hida.



