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Por Renato Antunes Schiave Germano – Médico formado pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo – FMUSP; Residência Médica em Oftalmologia e Doutorado pela FMUSP; Chefe do Setor de Glaucoma do Hospital das Clínicas da USP; Médico da Clínica CEO Bauru – Diretor da Comissão de Residência Médica (CNRM/MEC); Membro da Sociedade Latinoamericana de Glaucoma (SLAG) e da Sociedade Americana de Catarata e Cirurgia Refrativa

Entre os dias 25 de janeiro e 1º de fevereiro de 2026, estive em Luanda, capital de Angola, no Instituto Oftalmológico Nacional de Angola (IONA), para realizar um treinamento teórico e prático intensivo em glaucoma, com ênfase no Implante de Susanna UF, direcionado a médicos oftalmologistas angolanos.

Foi uma experiência única e extraordinariamente gratificante. Mais do que ensinar uma técnica cirúrgica, tratou-se de compartilhar uma estratégia concreta de enfrentamento à cegueira por glaucoma em um cenário onde, para muitos pacientes, o diagnóstico ainda é percebido quase como sinônimo de perda visual inevitável.

A missão surgiu a partir da indicação do Prof. Remo Susanna Jr. à Dra. Luisa Filomena de Castro Paiva Peralta, diretora-geral do IONA. O professor relatou que, em Angola, o número de pacientes cegos por glaucoma é tão expressivo que o diagnóstico frequentemente é associado à cegueira futura. Após avaliar publicações, vídeos e webinars sobre o Implante de Susanna UF, a Dra. Luisa entrou em contato com o Prof. Remo para discutir a possibilidade de levar ao país não apenas informação, mas capacitação prática estruturada.

O Prof. Remo esteve inicialmente em Angola por três dias, ministrando cursos sobre estratégias para prevenir e reduzir a cegueira pelo glaucoma, com ênfase nas indicações e na técnica do implante por ele desenvolvido. Em comum acordo com a direção do IONA, com o Ministério da Saúde de Angola e sob liderança da Ministra Dra. Sílvia Lutucuta, optou-se por um modelo de treinamento in loco: um cirurgião com ampla experiência prática no implante e sólido conhecimento científico em glaucoma permaneceria alguns dias no país, operando ao vivo e treinando simultaneamente múltiplos médicos. Fui honrado com a indicação para essa missão.

O Glaucoma em Angola

O IONA é o maior hospital oftalmológico do país, responsável por aproximadamente 95 mil atendimentos anuais. Trata-se de um centro de referência nacional que concentra grande volume de casos avançados. Impressiona a quantidade de pacientes jovens, muitos com menos de 50 anos, já com cegueira unilateral — e, não raramente, bilateral.

Observei inúmeros casos de trabeculectomias não funcionantes, com bolhas planas e fibrose conjuntival acentuada. Os resultados locais da trabeculectomia são desanimadores, em grande parte pela alta taxa de falência e pela dificuldade de seguimento pós-operatório prolongado — fatores que resultam em apenas cerca de 25 procedimentos por ano. Existe ainda a disponibilidade de um implante de origem indiana, cujos dados internos demonstravam taxa de insucesso de aproximadamente 30% em três meses e complicações em até 70% dos casos, possivelmente relacionadas ao maior trauma cirúrgico e à intensa resposta fibrótica frequentemente observada em populações negras.

Havia, portanto, uma necessidade clara: um implante mais eficiente, menos invasivo, com menor índice de complicações, curva de aprendizado factível e custo aceitável. O Implante de Susanna UF apresentava-se como resposta direta a esses critérios — e com sua recente aprovação para uso no continente africano, Angola tornou-se o primeiro país a implantá-lo.

O Implante de Susanna UF: Conceito, Design e Indicações

O que é o Implante de Susanna UF?

O Implante de Susanna UF é um dispositivo de drenagem do humor aquoso desenvolvido pelo Prof. Remo Susanna Jr., professor emérito de Oftalmologia da Universidade de São Paulo. O dispositivo é confeccionado em silicone e foi projetado para reduzir a pressão intraocular (PIO) por meio da drenagem controlada do humor aquoso para o espaço subconjuntival, onde uma cápsula fibrosa ao redor da placa funciona como reservatório de drenagem.

É um dispositivo com características únicas: placa ultra flexível e de perfil extremamente baixo, com apenas 0,5 mm de espessura — significativamente mais fina que os implantes convencionais. Possui contorno que se adapta à curvatura do olho e apresenta menos irregularidades na superfície do prato comparados com outros implantes. Essas características reduzem a elevação conjuntival, o desconforto ao paciente e o risco de extrusão ou exposição do dispositivo. Além disso, pode ser fixado a 6 mm do limbo, devido aos dois pequenos pés anteriores de 4 mm de comprimento, tornando a técnica cirúrgica mais fácil e menos invasiva.

Indicações Clínicas

O Implante de Susanna UF está indicado principalmente em casos de glaucoma avançado e refratário, incluindo:

  • Glaucoma não controlado após trabeculectomia prévia;
  • Glaucoma neovascular;
  • Glaucoma após ceratoplastia penetrante;
  • Glaucoma secundário a uveítes crônicas;
  • Casos em que a trabeculectomia tem risco elevado de falha, como pacientes de origem africana ou com conjuntiva comprometida por cirurgias prévias.

No cenário angolano, grande parte desses critérios estão presentes na população atendida, o que tornava o implante especialmente pertinente.

No Brasil, mais de 5.000 implantes já foram realizados, consolidando uma base de dados clínica robusta que sustenta sua indicação em diferentes perfis de pacientes.

A Semana em Angola: Treinamento Teórico e Prático

Durante a preparação da viagem, a Dra. Luisa solicitou que, além do treinamento cirúrgico, eu ministrasse um curso teórico completo sobre glaucoma. Ao longo da semana, no período da manhã, realizei aulas abordando campimetria, OCT, gonioscopia, laser em glaucoma, teste de sobrecarga hídrica e discussão de casos clínicos e cirúrgicos. Participaram das atividades 70 médicos angolanos, provenientes de diferentes regiões do país.

À tarde, eram realizados os atendimentos ambulatoriais e os procedimentos cirúrgicos. Na parte prática, 10 médicos participaram diretamente das cirurgias no centro cirúrgico. Foram realizadas cirurgias de implante de Susanna UF, trabeculectomias, cirurgias combinadas de catarata e glaucoma, trabeculoplastias seletivas a laser (SLT) e iridotomias a laser.

Operei os primeiros casos explicando detalhadamente cada etapa técnica. A partir do segundo dia, os próprios colegas passaram a operar sob minha supervisão direta. Todos os procedimentos transcorreram sem intercorrências relevantes, com boa evolução inicial dos pacientes.

Todas as cirurgias foram gravadas, permitindo que o conteúdo seja posteriormente retransmitido a médicos de outras regiões. Essa estratégia amplia o alcance do treinamento e reforça o principal objetivo da missão: criar autonomia local.

Continuidade e Perspectivas

Ao final do curso, os médicos já se encontravam aptos a realizar o procedimento de forma independente. Desde então, mantenho contato contínuo com os colegas angolanos, que enviam imagens dos casos operados e discutem situações desafiadoras. Essa continuidade talvez seja o indicador mais consistente de que a missão cumpriu seu propósito.

Com a aprovação do Implante de Susanna UF para uso na África e o estabelecimento de um programa de capacitação estruturado, abre-se a possibilidade real de ampliar o acesso ao tratamento cirúrgico do glaucoma de forma eficiente no continente africano e, consequentemente, reduzir a taxa de cegueira associada à doença.

Ao final da semana, entreguei à Dra. Luisa uma cópia assinada do livro Progressão em Glaucoma, publicado na última gestão da Sociedade Brasileira de Glaucoma sob a presidência do Dr. Emilio Suzuki, como símbolo da integração científica entre nossas instituições.

Agradecimentos

Registro aqui meu agradecimento ao Prof. Remo Susanna Jr. pela confiança e pela visão que tornou essa missão possível; à Dra. Luisa Paiva pela liderança, parceria e acolhida calorosa; e ao Ministério da Saúde de Angola, sob condução da Ministra Dra. Sílvia Lutucuta, pelo apoio institucional fundamental. Sou profundamente grato aos colegas angolanos pelo comprometimento e pela disposição em aprender e transformar a realidade local.

Agradeço também a oportunidade de representar a oftalmologia brasileira na África. Foi uma honra poder contribuir com a formação dos colegas e, consequentemente, com o cuidado da população africana. Esse é, afinal, o nosso objetivo maior: formar médicos, compartilhar conhecimento e ampliar o acesso ao tratamento adequado do glaucoma.

Referências

  1. Pereira ICF, van de Wijdeven R, Wyss HM et al. Conventional glaucoma implants and the new MIGS devices: a comprehensive review of current options and future directions. Eye. 2021;35:3202–3221. https://doi.org/10.1038/s41433-021-01595-x

 

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