Um estudo liderado pela Universidade da Califórnia em Los Angeles (UCLA) e publicado na revista científica Cancers sugere que uma técnica cirúrgica originalmente desenvolvida para preservar a visão durante o tratamento do melanoma uveal também pode reduzir o risco de metástase e melhorar a sobrevida dos pacientes.
A descoberta pode influenciar os futuros protocolos de tratamento desse raro câncer intraocular.
Desenho do estudo e população analisada
A pesquisa acompanhou 37 pacientes diagnosticados com melanoma uveal ao longo de um período mediano superior a quatro anos.
A maioria recebeu braquiterapia com placa radioativa, um tratamento de radiação direcionada, associada à vitrectomia com infusão de óleo de silicone — técnica que substitui temporariamente o vítreo por silicone, protegendo as estruturas saudáveis do olho da radiação, enquanto o tumor recebe a dose completa.
Entre os participantes:
- 27 foram tratados com braquiterapia + vitrectomia e óleo de silicone
- 7 receberam apenas braquiterapia
- 3 foram submetidos à enucleação (remoção do globo ocular)
Durante o acompanhamento:
- Mais de 80% permaneceram livres de metástase
- Nenhum olho tratado apresentou recidiva tumoral
- 6 pacientes (16%) desenvolveram metástase
- 1 paciente morreu em decorrência da doença
Esses resultados contrastam fortemente com dados históricos, que apontam taxas de metástase de aproximadamente 30% em cinco anos e baixa sobrevida após a disseminação da doença.
Benefícios inesperados além da preservação da visão
“Sabemos que essa técnica cirúrgica única preserva a visão, mas não esperávamos que influenciasse a metástase e a mortalidade”, afirmou a Dra. Tara McCannel, autora sênior e diretora do Centro de Oncologia Ocular da UCLA.
“Qualquer avanço que melhore a sobrevida no melanoma uveal é um divisor de águas.”
A equipe também realizou análises estratificadas:
- Pacientes classificados como “alto risco” por marcadores genéticos apresentaram taxas surpreendentemente baixas de metástase e mortalidade.
- Fatores tradicionais, como tamanho e estágio tumoral, não se mostraram determinantes consistentes de disseminação metastática.
- Modelos genéticos atuais demonstraram maior precisão em identificar pacientes de baixo risco do que em prever com confiabilidade os casos de alto risco.
Implicações clínicas e próximos passos
Os autores sugerem que a combinação de braquiterapia, vitrectomia e óleo de silicone pode oferecer duplo benefício — preservação da visão e melhora de desfechos sistêmicos.
No entanto, ressaltam a necessidade de novos estudos para compreender quais fatores são determinantes para os resultados positivos observados — se o método cirúrgico em si, a modulação da radiação ou o perfil dos pacientes tratados.
Os pesquisadores também enfatizam a complexidade técnica do procedimento, recomendando a ampliação de treinamentos em oncologia ocular e cirurgia vítreo-retiniana para permitir maior disseminação dessa abordagem.
Referência:
Rivas, A. et al. Unexpectedly Low Rate of Metastasis and Death Among Patients Treated for Uveal Melanoma with Brachytherapy, Vitrectomy, and Silicone Oil. Cancers (2025). DOI: 10.3390/cancers17162683



