Tempo de leitura: 6 minutos

Ensaios clínicos indicam que a cirurgia precoce de catarata reduz quedas, mas também mostram que mudanças bruscas na correção óptica podem elevar o risco em idosos frágeis

A relação entre baixa visão e quedas em idosos voltou ao centro do debate sobre a segurança dessa população. O alerta parte do Hospital CEMA, referência em oftalmologia e otorrinolaringologia com 50 anos de atuação no Brasil, e encontra respaldo em uma literatura que associa déficit visual a quedas, medo de cair e fraturas. Para o oftalmologista, a discussão tem um aspecto prático: parte relevante desse risco está em condições que o consultório diagnostica e trata, como catarata e erro refrativo.

Um estudo publicado na Revista Brasileira de Oftalmologia acompanhou 59 moradores de instituições de longa permanência em Goiânia (GO) entre 2005 e 2007. Do total, 81,4% relataram déficit visual e 54,2% sofreram quedas, mais frequentes entre os que enxergavam mal. Na análise prospectiva de dois anos, porém, a associação não atingiu significância estatística (p = 0,171), o que reflete a amostra pequena e o caráter autorrelatado dos dados. Os números ilustram a sobreposição dos dois problemas entre idosos institucionalizados; as evidências mais robustas vêm de coortes e ensaios internacionais.

O tamanho do problema

Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), cerca de 684 mil pessoas morrem por quedas a cada ano no mundo, o que faz delas a segunda causa de morte por lesão não intencional, atrás apenas dos acidentes de trânsito. As taxas mais altas estão entre pessoas com mais de 60 anos. No Brasil, dados do Ministério da Saúde citados pelo Hospital CEMA apontam 11.801 mortes de idosos por acidentes domésticos entre 2023 e 2024, a maioria por quedas.

A OMS inclui a visão reduzida entre os fatores associados às quedas, ao lado de alterações de mobilidade, equilíbrio e cognição, uso de medicamentos e características do ambiente. Em uma amostra nacional de beneficiários do Medicare com 65 anos ou mais, Ehrlich e colaboradores (J Am Geriatr Soc, 2019) observaram que quedas, medo de cair e limitação de atividades pelo medo de cair eram quase duas vezes mais prevalentes entre idosos com deficiência visual autorrelatada. Após ajuste para idade, sexo e comorbidades, a diferença diminuiu, mas a prevalência continuou pelo menos 25% maior nesse grupo.

Estudos com medidas objetivas acrescentam um ponto importante para a prática: redução da sensibilidade ao contraste, perda de percepção de profundidade e defeitos de campo visual também se associam a quedas. São parâmetros que nem sempre aparecem na tabela de acuidade e que ganham peso em pacientes com glaucoma ou degeneração macular relacionada à idade (DMRI).

Catarata e erro refrativo lideram as causas tratáveis

A Sociedade Brasileira de Oftalmologia (SBO) estima que a catarata atinja entre 70% e 75% dos brasileiros com mais de 70 anos. A condição é tratável, mas segue subdiagnosticada porque a visão embaçada costuma ser atribuída apenas à idade. De acordo com o IBGE, cerca de 6 milhões de pessoas vivem com baixa visão no país, e outras 29 milhões relatam dificuldade permanente para enxergar mesmo com óculos.

Dados brasileiros reforçam o potencial de reversão. Em 150 longevos não institucionalizados, com 80 anos ou mais, avaliados na Escola Paulista de Medicina (Unifesp) e publicados nos Arquivos Brasileiros de Oftalmologia, as principais causas de deficiência visual ou cegueira foram catarata (43,8%), erro refrativo (21,5%) e DMRI (17,7%). Somadas, as duas primeiras respondem por quase dois terços dos casos.

“A queda de um idoso raramente é acaso. É, na maioria das vezes, o resultado de um risco que se acumulou silenciosamente, e a visão é um dos fatores mais negligenciados nesse processo”, afirma o Dr. Luis Eduardo Braz S. Melo, oftalmologista do Hospital CEMA. “Quando o idoso deixa de enxergar bem um degrau ou um desnível no chão de casa, o risco de queda aumenta, especialmente quando essa dificuldade visual se soma a outros fatores, como perda de equilíbrio, fraqueza muscular ou uso de determinados medicamentos. E, na maioria dos casos, a perda visual pode ser identificada e tratada com uma avaliação oftalmológica adequada.”

Cirurgia de catarata e quedas: o que mostram os ensaios

O principal ensaio randomizado sobre o tema, conduzido no Reino Unido por Harwood e colaboradores (Br J Ophthalmol, 2005), incluiu 306 mulheres acima de 70 anos com catarata. Metade foi operada no primeiro olho em cerca de quatro semanas; a outra metade seguiu a espera habitual de 12 meses. A taxa de quedas foi 34% menor no grupo de cirurgia acelerada (RR 0,66; IC 95% 0,45 a 0,96), com melhora da função visual e do estado geral de saúde. O efeito apareceu sobretudo na redução de quedas recorrentes, e não na probabilidade de uma primeira queda.

O mesmo grupo testou a cirurgia do segundo olho em 239 mulheres (Age Ageing, 2006). A redução observada (RR 0,68; IC 95% 0,39 a 1,19) não alcançou significância estatística, embora outras funções binoculares, como a estereopsia, estejam associadas a quedas.

Na escala populacional, Tseng e colaboradores (JAMA, 2012) analisaram mais de 1,1 milhão de beneficiários do Medicare com 65 anos ou mais e diagnóstico de catarata. A cirurgia se associou a menor chance de fratura de quadril no ano seguinte (OR ajustada 0,84; IC 95% 0,81 a 0,87), com benefício mais nítido em pacientes com catarata grave, com 75 anos ou mais e com maior carga de comorbidades. A diferença absoluta, porém, foi pequena (0,20%), e uma análise mais recente do Medicare, com dados de 2019 a 2021 e ponderação por escore de propensão, não encontrou redução significativa de quedas ou fraturas em um ano. Coortes australianas também chegaram a resultados divergentes.

O conjunto sugere que o benefício é mais consistente na cirurgia do primeiro olho e em pacientes com catarata significativa e histórico de quedas, o que faz do tempo de espera cirúrgica uma variável de prevenção, e não apenas de qualidade de vida.

Quando corrigir a visão pode aumentar o risco

Nem toda intervenção visual protege. No ensaio de Cumming e colaboradores (J Am Geriatr Soc, 2007), 616 idosos frágeis com 70 anos ou mais (média de 81 anos) receberam avaliação visual e ocular completa, seguida do tratamento indicado. A estratégia não reduziu quedas nem fraturas e pode até tê-las aumentado. A hipótese mais discutida é a dificuldade de adaptação a óculos novos, especialmente após mudanças refrativas importantes.

Os óculos multifocais são outro ponto de atenção. A adição para perto prejudica a sensibilidade ao contraste de bordas e a percepção de profundidade no campo visual inferior, justamente a região usada para ver degraus e desníveis. No ensaio VISIBLE (Haran et al., BMJ, 2010), 606 usuários regulares de multifocais, com média de 80 anos e risco aumentado de quedas, receberam óculos monofocais para longe, com orientação para usá-los ao caminhar e em atividades externas. A estratégia foi eficaz entre os idosos que saíam de casa com regularidade, mas pode ter sido prejudicial entre os que tinham pouca atividade fora de casa. A prescrição, portanto, precisa considerar o perfil funcional do paciente.

O que levar para a prática clínica

As diretrizes mundiais de prevenção de quedas em idosos, publicadas em 2022 na Age and Ageing (Montero-Odasso et al.), recomendam que todos os profissionais de saúde, incluindo os da área de saúde ocular, perguntem aos idosos sobre quedas e participem da avaliação multifatorial de risco. À luz das evidências, algumas condutas podem ser incorporadas à consulta oftalmológica:

  • Perguntar sobre quedas no último ano e sobre medo de cair, sobretudo em pacientes acima de 65 anos.
  • Considerar o histórico de quedas na priorização da cirurgia de catarata, especialmente do primeiro olho.
  • Evitar grandes mudanças refrativas de uma só vez em idosos frágeis e orientar sobre o período de adaptação aos óculos novos.
  • Discutir óculos monofocais para longe, para deambulação e atividades externas, com usuários ativos de multifocais.
  • Ir além da acuidade visual, com avaliação de sensibilidade ao contraste e campo visual, em especial em glaucoma e DMRI.
  • Encaminhar para avaliação geriátrica e revisão de medicamentos quando houver outros fatores de risco, como alteração de equilíbrio ou polifarmácia.

Para a orientação de pacientes e familiares, o Hospital CEMA recomenda avaliação oftalmológica periódica a partir dos 50 a 60 anos, ou conforme orientação médica; atualização regular do grau dos óculos; reforço da iluminação em corredores, escadas e banheiros; e remoção de tapetes soltos e obstáculos nas rotas de circulação mais usadas pelo idoso.

“Cuidar da visão é, também, cuidar da segurança do paciente. O diagnóstico oftalmológico precoce é uma das formas mais simples e eficazes de reduzir o número de quedas e preservar a autonomia do idoso”, conclui o Dr. Luis Eduardo Braz S. Melo.

Referências

  1. Condições visuais autorrelatadas e quedas em idosos institucionalizados. Rev Bras Oftalmol. https://www.scielo.br/j/rbof/a/Vf5vym3KP3m8JsR6CJTRdLx/?lang=pt
  2. World Health Organization. Falls: fact sheet. Genebra: OMS; 2021. https://www.who.int/news-room/fact-sheets/detail/falls
  3. Ehrlich JR, Hassan SE, Stagg BC. Prevalence of falls and fall-related outcomes in older adults with self-reported vision impairment. J Am Geriatr Soc. 2019;67(2):239-245. https://doi.org/10.1111/jgs.15628
  4. Jin H, Zhou Y, Stagg BC, Ehrlich JR. Association between vision impairment and increased prevalence of falls in older US adults. J Am Geriatr Soc. 2024. https://doi.org/10.1111/jgs.18879
  5. Cypel MC, et al. Vision status, ophthalmic assessment, and quality of life in the very old. Arq Bras Oftalmol. https://www.scielo.br/j/abo/a/wvS4nZ9pGKB6FtmZhSYQt4b/abstract/?lang=pt
  6. Harwood RH, Foss AJ, Osborn F, Gregson RM, Zaman A, Masud T. Falls and health status in elderly women following first eye cataract surgery: a randomised controlled trial. Br J Ophthalmol. 2005;89(1):53-59. https://doi.org/10.1136/bjo.2004.049478
  7. Foss AJ, Harwood RH, Osborn F, Gregson RM, Zaman A, Masud T. Falls and health status in elderly women following second eye cataract surgery: a randomised controlled trial. Age Ageing. 2006;35(1):66-71. https://doi.org/10.1093/ageing/afj005
  8. Tseng VL, Yu F, Lum F, Coleman AL. Risk of fractures following cataract surgery in Medicare beneficiaries. JAMA. 2012;308(5):493-501. https://doi.org/10.1001/jama.2012.9014
  9. Effect of cataract surgery on risk of falls or fractures in Medicare beneficiaries with cataracts. Innov Aging. 2025. https://doi.org/10.1093/geroni/igaf122.1620
  10. Cumming RG, Ivers R, Clemson L, Cullen J, Hayes MF, Tanzer M, Mitchell P. Improving vision to prevent falls in frail older people: a randomized trial. J Am Geriatr Soc. 2007;55(2):175-181. https://doi.org/10.1111/j.1532-5415.2007.01046.x
  11. Haran MJ, Cameron ID, Ivers RQ, et al. Effect on falls of providing single lens distance vision glasses to multifocal glasses wearers: VISIBLE randomised controlled trial. BMJ. 2010;340:c2265. https://doi.org/10.1136/bmj.c2265
Compartilhe esse post