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Estudos apontam risco relativo cerca de duas vezes maior com semaglutida, mas o risco absoluto segue baixo e ensaios randomizados não confirmam a associação. CBO recomenda cautela sem alarmismo

A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) investiga 13 notificações de suspeita de neuropatia óptica isquêmica anterior não arterítica (NOIA-NA) em usuários de agonistas do receptor de GLP-1 no Brasil. Doze casos envolvem medicamentos à base de semaglutida (cinco com Ozempic, cinco com Wegovy, incluindo a apresentação FlexTouch, e dois com Rybelsus) e um envolve a tirzepatida (Mounjaro). As notificações ainda estão em análise e não confirmam relação causal.

Diante da repercussão, o Conselho Brasileiro de Oftalmologia (CBO) recomendou “cautela sem alarmismo”. A orientação é que pacientes com queixa visual procurem o oftalmologista, que usuários discutam com o médico prescritor a necessidade de acompanhamento oftalmológico e que ninguém inicie ou suspenda o tratamento por conta própria.

A investigação atual não parte do zero. Em junho de 2025, a Anvisa já havia determinado a inclusão da NOIA-NA nas bulas da semaglutida como reação adversa muito rara, depois de registrar cerca de 52 notificações de distúrbios oculares associados ao fármaco.

Uma neuropatia rara em uma população de alto risco

A NOIA-NA é a neuropatia óptica aguda mais comum em adultos acima de 50 anos e a segunda neuropatia óptica mais frequente depois do glaucoma. Manifesta-se por perda visual súbita e indolor, geralmente monocular, com edema de disco óptico e defeito de campo frequentemente altitudinal. Não há tratamento com eficácia comprovada, e o dano costuma ser permanente.

A incidência estimada na população geral varia de 2,3 a 10,2 casos por 100 mil pessoas ao ano. Os fatores de risco clássicos se sobrepõem ao perfil de quem usa agonistas de GLP-1: diabetes, hipertensão, obesidade, apneia obstrutiva do sono não tratada, hipotensão noturna e o disco óptico pequeno e “cheio”, com escavação reduzida (disc at risk). Essa sobreposição é justamente o que torna difícil separar o efeito do medicamento do efeito da doença de base.

O sinal inicial: Massachusetts Eye and Ear

O alerta surgiu em julho de 2024, com o estudo de Hathaway e colaboradores publicado na JAMA Ophthalmology. Em uma coorte retrospectiva de pacientes atendidos no serviço de neuroftalmologia do Massachusetts Eye and Ear, em Boston, o uso de semaglutida se associou a risco maior de NOIA-NA tanto em pacientes com diabetes tipo 2 (HR 4,28; IC 95% 1,62 a 11,29) quanto em pacientes com sobrepeso ou obesidade (HR 7,64; IC 95% 2,21 a 26,36). Em 36 meses, a incidência cumulativa foi de 8,9% contra 1,8% no grupo diabético e de 6,7% contra 0,8% no grupo com obesidade, com maior risco no primeiro ano de uso.

Os próprios autores ressaltaram as limitações. A amostra foi pequena, com 194 e 361 usuários de semaglutida em cada coorte, e veio de um centro de referência em neuroftalmologia, o que introduz viés de encaminhamento e explica incidências muito acima das observadas na população geral. Também não houve ajuste completo para variáveis como gravidade do diabetes e apneia do sono.

Estudos populacionais confirmam o sinal, em menor magnitude

Coortes maiores, com comparador ativo, reduziram a estimativa de risco, mas mantiveram a associação. Na coorte dinamarquesa e norueguesa de Simonsen e colaboradores (Diabetes, Obesity and Metabolism, 2025), que comparou cerca de 61 mil iniciadores de semaglutida com 119 mil iniciadores de inibidores de SGLT2, todos com diabetes tipo 2, o HR ajustado foi de 2,81 (IC 95% 1,67 a 4,75). A incidência foi de 2,19 contra 1,18 casos por 10 mil pessoas-ano na Dinamarca e de 2,90 contra 0,92 na Noruega, o que representa 1,41 caso adicional por 10 mil pessoas-ano.

Resultado semelhante apareceu em fevereiro de 2026, na JAMA Ophthalmology. Heberer e colaboradores emularam um ensaio-alvo com 102.361 veteranos norte-americanos com diabetes tipo 2 em uso de metformina, comparando iniciadores de semaglutida e de inibidores de SGLT2. Em mediana de 2,1 anos, o risco de NOIA-NA foi 2,33 vezes maior com semaglutida (IC 95% 1,54 a 3,54), com incidência cumulativa de 0,29% contra 0,13%.

Em maio de 2026, uma metanálise de estudos observacionais publicada na PLOS Medicine (Chrzanowski et al.) reuniu cerca de 1 milhão de pacientes com diabetes tipo 2 e encontrou HR combinado de 2,17 (IC 95% 1,73 a 2,74), sem heterogeneidade relevante. O efeito se manteve na comparação direta com inibidores de SGLT2 (HR 1,96; IC 95% 1,28 a 2,99). Os autores estimam um caso adicional de NOIA-NA a cada 7 mil pacientes tratados por ano, mas classificam a certeza da evidência como baixa.

O secretário-geral do CBO, Mauro Goldbaum, resumiu a magnitude do efeito ao comentar uma metanálise de especialistas da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp): “Alguns estudos sugerem que ela não dobra. Ao invés de ter um paciente a cada 10 mil, um caso a cada 10 mil, teríamos 1,5 ou 1,7 a cada 10 mil.” Segundo ele, o caráter retrospectivo dos trabalhos, baseados em bancos de dados que nem sempre registram tabagismo e hipertensão, impede conclusões definitivas.

Ensaios randomizados não confirmam a associação

O contraponto vem dos dados randomizados. Uma metanálise de 20 ensaios clínicos com 83.288 participantes, 76,4% com diabetes tipo 2 e seguimento médio de quase três anos, publicada na Diabetes Care em 2026 (Li et al.), não encontrou aumento de eventos graves do nervo óptico ou que ameaçam a visão com agonistas de GLP-1 (OR 1,20; IC 95% 0,73 a 1,97). Para neuropatia óptica isquêmica, especificamente, o OR foi de 1,50, com intervalo de confiança amplo (0,49 a 4,63).

A leitura cuidadosa é que os ensaios não foram desenhados para detectar um evento tão raro, e o intervalo largo não exclui nem confirma um aumento de risco da ordem do observado nas coortes. Por outro lado, a ausência de sinal em dados randomizados reforça que, se o efeito existe, ele é pequeno em termos absolutos.

Mecanismo ainda é hipótese

Nenhum mecanismo foi confirmado. Entre as hipóteses discutidas na literatura estão a presença de receptores de GLP-1 no nervo óptico e na retina, com possível efeito sobre a perfusão da cabeça do nervo óptico; a queda rápida da glicemia, fenômeno que já explica a piora transitória da retinopatia diabética com terapias intensivas; e alterações hemodinâmicas, como hipotensão e redução de volume associadas à perda de peso acelerada e aos efeitos gastrointestinais. Em olhos com disco óptico cheio, pequenas variações de perfusão podem ser suficientes para desencadear o infarto.

Vale lembrar que a semaglutida já tinha um alerta oftalmológico anterior. No ensaio SUSTAIN-6 (Marso et al., New England Journal of Medicine, 2016), as complicações da retinopatia diabética foram mais frequentes com semaglutida do que com placebo (3,0% contra 1,8%; HR 1,76; IC 95% 1,11 a 2,78), efeito atribuído principalmente à redução rápida da hemoglobina glicada em pacientes com retinopatia prévia.

Posição das agências e sociedades

Em junho de 2025, o Comitê de Avaliação de Risco em Farmacovigilância (PRAC) da Agência Europeia de Medicamentos (EMA) concluiu que a NOIA-NA é um efeito adverso muito raro da semaglutida, que pode afetar até 1 em cada 10 mil usuários. A agência estimou risco aproximadamente duas vezes maior que o de não usuários, o que corresponde a cerca de um caso adicional a cada 10 mil pessoas-ano de tratamento, e recomendou suspender o medicamento se o diagnóstico for confirmado. A Organização Mundial da Saúde (OMS) emitiu alerta no mesmo sentido.

A Academia Americana de Oftalmologia (AAO) e a Sociedade Norte-Americana de Neuroftalmologia (NANOS) publicaram em maio de 2026 uma declaração de consenso mais conservadora. O documento reconhece uma possível elevação de cerca de duas vezes no risco relativo, mas afirma que a causalidade não foi estabelecida. As entidades não recomendam exame oftalmológico de rotina apenas para avaliar risco de NOIA-NA antes de iniciar o tratamento e defendem decisão compartilhada, e não suspensão automática, quando a neuropatia ocorre em pacientes com obesidade grave, diabetes ou doença cardiovascular, nos quais interromper a terapia também tem riscos.

Em nota, a Novo Nordisk, fabricante de Ozempic, Wegovy e Rybelsus, afirmou que a relação causal entre agonistas do receptor de GLP-1 e a NOIA-NA não pode ser confirmada com os dados disponíveis. A Eli Lilly, fabricante do Mounjaro, informou que segue monitorando os dados de segurança.

O que levar para a prática clínica

Com base nas evidências e nas recomendações do CBO, da EMA e do consenso AAO/NANOS, algumas condutas se aplicam ao consultório oftalmológico:

  • Perguntar ativamente sobre uso de agonistas de GLP-1 na anamnese, inclusive uso sem prescrição, e registrar o tempo de tratamento.
  • Diante de perda visual súbita e indolor em usuário de GLP-1, investigar NOIA-NA com fundoscopia, campo visual e OCT de camada de fibras nervosas, e descartar a forma arterítica em pacientes acima de 50 anos.
  • Em caso confirmado, comunicar o médico prescritor para decisão compartilhada sobre a continuidade do tratamento e notificar a Anvisa pelo VigiMed.
  • Em pacientes com NOIA-NA prévia em um olho, discutir o risco para o olho contralateral antes do início ou da manutenção da terapia.
  • Identificar e tratar fatores de risco modificáveis, como apneia do sono, hipotensão noturna e hipertensão, em conjunto com o clínico.
  • Em diabéticos com retinopatia, especialmente moderada a grave, programar acompanhamento mais próximo nos primeiros meses de queda rápida da glicemia.

“O paciente com queixa visual procure o oftalmologista”, reforça Goldbaum. Para quem não tem sintomas, a recomendação do CBO é discutir com o médico prescritor a necessidade de monitoramento, sem interromper o tratamento por conta própria.

Referências

  1. Anvisa investiga 13 casos de doença ocular após uso de caneta emagrecedora. CNN Brasil, 28 set 2026. https://www.cnnbrasil.com.br/saude/anvisa-investiga-13-casos-de-doenca-ocular-apos-uso-de-caneta-emagrecedora/
  2. Conselho de oftalmologia se pronuncia sobre perda de visão associada a canetas emagrecedoras. O Tempo, 29 set 2026. https://www.otempo.com.br/saude-e-bem-estar/2026/9/29/conselho-de-oftalmologia-se-pronuncia-sobre-perda-de-visao-associada-a-canetas-emagrecedoras
  3. Hathaway JC, Shah R, Hamill EB, et al. Risk of nonarteritic anterior ischemic optic neuropathy in patients prescribed semaglutide. JAMA Ophthalmol. 2024;142(8):732-739. https://doi.org/10.1001/jamaophthalmol.2024.2296
  4. Simonsen E, et al. Use of semaglutide and risk of non-arteritic anterior ischemic optic neuropathy: a Danish-Norwegian cohort study. Diabetes Obes Metab. 2025. https://doi.org/10.1111/dom.16316
  5. Heberer K, Bress AP, Cogill S, et al. New-onset nonarteritic anterior ischemic optic neuropathy and initiators of semaglutide in US veterans with type 2 diabetes. JAMA Ophthalmol. 2026. https://jamanetwork.com/journals/jamaophthalmology/fullarticle/2844873
  6. Chrzanowski J, Walicka M, Burzyński J, et al. Semaglutide-associated risk of nonarteritic anterior ischemic optic neuropathy in patients with type 2 diabetes: a systematic review and meta-analysis of observational studies. PLOS Med. 2026. https://doi.org/10.1371/journal.pmed.1005064
  7. Li HY, Chan TK, Shih KC, et al. GLP-1 receptor agonists and risk of optic nerve or vision-threatening events in patients with type 2 diabetes or cardiometabolic diseases: a meta-analysis of randomized controlled trials. Diabetes Care. 2026;49(3):526. https://doi.org/10.2337/dc25-1929
  8. Marso SP, Bain SC, Consoli A, et al. Semaglutide and cardiovascular outcomes in patients with type 2 diabetes (SUSTAIN-6). N Engl J Med. 2016;375:1834-1844. https://doi.org/10.1056/NEJMoa1607141
  9. European Medicines Agency. PRAC concludes eye condition NAION is a very rare side effect of semaglutide medicines Ozempic, Rybelsus and Wegovy. Jun 2025. https://www.ema.europa.eu/en/news/prac-concludes-eye-condition-naion-very-rare-side-effect-semaglutide-medicines-ozempic-rybelsus-wegovy
  10. World Health Organization. The use of semaglutide medicines and risk of NAION. 27 jun 2025. https://www.who.int/news/item/27-06-2025-27-06-2025-semaglutide-medicines-naion
  11. American Academy of Ophthalmology; North American Neuro-Ophthalmology Society. Glucagon-like peptide-1 receptor agonists and the risk of non-arteritic anterior ischemic optic neuropathy: a consensus statement. 2026. https://www.aao.org/education/clinical-statement/glucagon-like-peptide-1-receptor-agonists-risk-of-
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