Estudos indicam que a melhora da captação luminosa após a facoemulsificação aumenta a produção de melatonina e favorece a qualidade do sono em idosos. Sono alterado é um grave problema de saúde pública — e a cirurgia de catarata pode ajudar
A qualidade do sono é um dos principais determinantes da saúde global. A Organização Mundial da Saúde (OMS) reconhece a privação e fragmentação do sono como fatores de risco para doenças cardiovasculares, metabólicas e neurodegenerativas. No Brasil, dados da Fundação Oswaldo Cruz (FIOCRUZ) mostram que 58,6% da população com 60 anos ou mais apresentam algum distúrbio do sono, como insônia, dificuldade de iniciar o sono, má qualidade de descanso e sonolência diurna.
Segundo o oftalmologista Leôncio Queiroz Neto, diretor executivo do Instituto Penido Burnier, parte dessa relação está diretamente ligada à opacificação do cristalino, típica da catarata. “A catarata é muito mais do que visão embaçada. Ao reduzir a passagem da luz azul natural do dia até a retina, há diminuição da produção de melanopsina, um fotopigmento essencial presente nas células ganglionares da retina, responsável por sincronizar o ritmo circadiano”, explica o especialista.
Essa menor estimulação luminosa diurna reduz a secreção de melatonina noturna, hormônio central na regulação do sono. “Quando o estímulo de luz natural é insuficiente, todo o organismo perde o ritmo biológico adequado, resultando em fadiga, distúrbios metabólicos e aumento de radicais livres que prejudicam o cristalino”, complementa Queiroz Neto.
Evidências clínicas: melhora do sono após a cirurgia de catarata
Um estudo conduzido em Nara, Japão, publicado no JAMA Ophthalmology (American Academy of Ophthalmology), analisou 169 pacientes com média de 75 anos e catarata avançada, sem comorbidades oculares que interferissem no resultado cirúrgico.
Após a facoemulsificação com implante de lente intraocular, o grupo foi comparado a controles quanto à excreção urinária de melatonina, medida três meses após a cirurgia. O resultado foi marcante:
- O grupo operado apresentou níveis de melatonina duas vezes maiores do que o grupo controle;
- Houve melhora significativa na qualidade do sono, tempo total de descanso e sensação de bem-estar;
- Os pacientes relataram também melhor humor e maior disposição diurna.
Esses achados sugerem que restaurar a transparência do cristalino permite maior entrada de luz azul nos fotorreceptores intrínsecos da retina, reajustando o ciclo circadiano e beneficiando não apenas a visão, mas também a saúde sistêmica.
Estudos complementares confirmam que a melhora da iluminação retiniana após a cirurgia aumenta a secreção de melatonina e reduz distúrbios de sono em idosos.
Por que o impacto varia entre pacientes
Segundo o Dr. Queiroz Neto, “a Medicina não é matemática”. A resposta individual à cirurgia depende de fatores fisiológicos, genéticos e comportamentais.
A catarata nuclear, por exemplo, é a que mais interfere no sono, por bloquear de forma mais intensa a passagem da luz azul. Já os tipos subcapsular posterior e cortical permitem maior transmissão luminosa, com menor impacto no ritmo circadiano.
Além disso, pacientes com núcleo supraquiasmático mais adaptável podem compensar a redução da luminosidade, e a exposição solar matinal — entre 7h e 9h — também estimula naturalmente a produção de melatonina noturna. O uso de moduladores do sono, como suplementos de melatonina, pode auxiliar, mas deve ser sempre orientado por um médico.
Sintomas e diagnóstico precoce da catarata
Nos estágios iniciais, a catarata tende a passar despercebida devido à neuroadaptação cerebral. Entre os principais sintomas, destacam-se:
- Troca frequente de óculos e visão embaçada;
- Perda da sensibilidade ao contraste, sobretudo em ambientes com pouca luz;
- Fotofobia e aumento do ofuscamento;
- Alteração na percepção de cores;
- Dificuldade para dirigir à noite.
O diagnóstico é feito por meio do exame biomicroscópico com lâmpada de fenda, complementado pela avaliação do cristalino e medida de acuidade visual. Recomenda-se acompanhamento oftalmológico anual a partir dos 50 anos.
Quando operar e como é realizada a cirurgia
A decisão cirúrgica deve ser individualizada. Não há “idade ideal” para operar, mas sim o momento em que a catarata passa a interferir na qualidade de vida e nas atividades diárias — como leitura, direção e uso de dispositivos eletrônicos.
A cirurgia de catarata moderna é minimamente invasiva e uma das mais seguras da medicina, com taxa de sucesso superior a 98%.
É realizada sob anestesia tópica (colírio) e sedação leve.
O procedimento consiste em:
- Incisão de 2 mm na córnea;
- Aspiração do cristalino opaco;
- Implante de lente intraocular dobrável (LIO), posicionada no saco capsular.
Complicações graves, como endoftalmite, são extremamente raras quando há controle rigoroso de esterilização e adesão ao protocolo pós-operatório, que inclui uso de colírios antibióticos e anti-inflamatórios.
O sono e a oftalmologia como indicadores sistêmicos
O estudo japonês reforça o papel da oftalmologia integrativa, que enxerga o olho não apenas como órgão da visão, mas como janela do equilíbrio sistêmico. A catarata, ao reduzir a luminosidade retiniana, interfere na regulação circadiana — e, portanto, sua correção cirúrgica não apenas restaura a visão, mas também o sono e o metabolismo.
“A luz que entra pelos olhos é o principal sincronizador do nosso relógio biológico. Restaurar essa entrada é restaurar a vida em ritmo natural”, resume Queiroz Neto.
Referências bibliográficas
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- Ayaki M, et al. Sleep and quality of life after cataract surgery: A prospective study. BMC Ophthalmol. 2022;22(1):45.
- Lundström M, Barry P, Henry Y, Rosen P. Global registry-based analysis of cataract surgery outcomes. Acta Ophthalmol. 2021;99(7):e1082–e1089.


