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Paulo Schor – Diretor de Pesquisa e Desenvolvimento Tecnológico da Unifesp e Professor Chefe do Setor de Óptica Cirúrgica da Escola Paulista de Medicina.

 
Pense num horizonte distante, com veleiros ao fundo, nuvens, ondas, um azul profundo e o sol poente. Agora confesse que você visualizou (https://www.dicio.com.br/visualizar/) tudo isso na tela do seu laptop/desktop/ipad/tablet/phablet/celular/televisor?! O mundo está ficando menos distante e mais próximo.
A constatação epidemiológica clássica de que antes da dita “revolução cultural na Coreia do Sul havia 20% de míopes, que se “transformaram em 80% nos tempos recentes, vai nessa direção. Explicar tal fenômeno ultrarrápido com a ajuda da teoria evolucionista não é tarefa fácil (e para mim mais difícil ainda é usar o desenho inteligente), e com certeza temos muitos fatores concorrendo para tal comportamento.
A constante contração do corpo ciliar com relaxamento da zônula e aumento do volume cristaliniano, que comprimindo o humor vítreo estiraria a esclera alongando o olho, é uma tentativa intuitiva de explicar o fato parcialmente. Há lógica, mas não há experimentação que comprove o fato. Ser índio no Brasil é um fator de proteção contra a miopia! Será somente por viver ao ar livre, por olhar ao longe ou também por ter genes com certa similaridade, que não permitam o crescimento da esclera posterior após certa idade?
Darwin deve ser confirmado a longuíssimo prazo, mas a passos de gigante já estamos definitivamente ficando mais míopes, e claro que como não gostamos de sair da zona de conforto, lutamos contra isso.
Experimentos que tentam bloquear o avanço da miopia com relaxamento da acomodação via colírios e óculos em crianças conseguem resultados insignificantes como 0,25 D de decréscimo na progressão do vício refracional ao longo de décadas.
Alguns “tratamentos preconizam aumentar a resistência da esclera com a indução de ligações covalentes (o crosslinking) e há observações de que pessoas mais expostas ao ar livre desenvolvem menos miopia (talvez ação da radiação UV?).
A sociedade como um todo deveria se rebelar menos e refletir mais sobre essa questão, que irá impactar decisões médicas, pessoais e de marketing.
Você investiria numa empresa de grandes anúncios de rua (outdoor) ou nos pop-ups do waze? Os jogos interativos baseados em realidade virtual trazem o ambiente para a tela. Academias compram capacetes e bicicletas com “back-force para simular treinos em terrenos “nunca d´antes navegados . Crianças brincam com iPads antes de brincar de boneca, e adultos présbitas se apegam a “telonas de 6 polegadas como a do Galaxy A9 ou iPhone Plus.
Há vários anos decidimos que ter um dos olhos míopes era uma boa alternativa para pacientes, principalmente após as cirurgias de catarata e refrativa. Por que não os dois olhos míopes? Estamos rumando para isso? Para propor ao ser humano o foco adaptado à distância dos seus braços? Quem antes preferia enxergar bem para longe e não se incomodava em usar óculos para perto, pode bem estar começando a mudar o pensamento e preferir enxergar bem para perto e usar óculos eventual para longe. Estamos atentos a isso? Perguntamos isso aos nossos pacientes?
Quanto tempo por dia usamos nossa visão “para longe ? Por quanto tempo mais vamos dirigir carros? E antes disso& por quanto tempo mais vamos prescindir de uma tela de alta resolução (quem sabe 3D) e dirigir através desse “acessório ?
Vários lasers terapêuticos, como os de femtossegundo, já vêm com telas no lugar de lentes oculares. Os microscópios ópticos vão ser substituídos pela realidade cirúrgica virtual? Será somente uma questão de costume e tempo? Quem é o bem adaptado, que vai sobreviver com vantagem competitiva?
Em cada escolha que fazemos antes de implantar lentes intraoculares monofocais, induzir a monovisão, optar por lentes bi ou trifocais, ou preferir as lentes de foco estendido, julgamos e determinamos arbitrariamente o modo de vida dos nossos pacientes. E fazemos isso eventualmente a partir de dados de assistentes que colheram a informação em poucos minutos, nos apresentando o paciente durante a cirurgia. Ou movidos a impressões dos “meus últimos casos que ouvimos durante palestras.
A natureza nos deu uma maleabilidade de foco que é rapidamente retirada no decorrer da presbiopia e brutalmente congelada após as cirurgias com lentes plásticas imóveis. Não se muda de opinião após uma facoemulsificação. O novo termo é mesmo a neurorresignação. Determinamos o conforto visual baseado no que achamos adequado ao paciente, que pode ter de mudar sua rotina por conta disso. Quem tem esse poder “todo deve ter essa responsabilidade e conhecimento “todo .
Iniciativas recentes, como o uso da inteligência artificial para grandes dados agrupados na “nuvem , como o MINE (microsoft network inteligence for the eye), buscam responder qual será a miopia do seu filho, e provavelmente indicarão essa tendência geográfica de nos tornarmos mais míopes.
O brilhante livro de Eduardo Gianetti – O valor do amanhã – induz ao equilíbrio entre o que quer tudo agora (míope) e o que guarda tudo para o futuro (hipermétrope), e a emetropia ocuparia esse espaço. Não ter vício de refração (ser emétrope) é um luxo que se perde rumo aos 45 anos de idade. A emetropia é efêmera, e será que em um tempo de enorme apelo ao cristal líquido (telas de LCD) não ser míope nem hipermétrope ainda é o equilíbrio ideal?
Sejamos críticos em relação ao passado, onde filmes eram vistos nos cinemas e não no Netflix, quando usávamos os espelhos e visores para enquadrar as fotos e havia buraco na fechadura.
Há poucos anos realizamos um estudo onde seguimos as atividades de pacientes antes de optar por uma estratégia ou outra no implante de lentes após cirurgia de catarata, mas os pacientes já tinham opacidade de cristalino e redução na autonomia com limitação de visão, já tendo mudado de hábitos “sem escolha . Podemos manter o comportamento registrado de algum modo, e estar mais próximos da rotina e gostos dos “clientes , eventualmente retroagindo a um tempo adequado, quando uma ou outra atividade era realizada nessa ou naquela distância? Ou esse é um sonho tão distante que é melhor manter o status quo e usar óculos para perto?
Welcome to the future!

Fonte: Universo Visual

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