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Celebrada em 8 de outubro, a data marca os cinco anos da campanha #LoveYourEyes e antecede o encontro que pretende transformar a resolução da ONU sobre visão em compromissos concretos de governos, setor privado e profissionais de saúde

O Dia Mundial da Visão 2026 (World Sight Day) acontece nesta quinta-feira, 8 de outubro. Coordenada pela Agência Internacional para a Prevenção da Cegueira (IAPB), a data é celebrada todos os anos na segunda quinta-feira de outubro e coloca no centro do debate um princípio simples: o cuidado ocular precisa ser acessível, disponível e economicamente viável para todos.

Em 2026, a mobilização mantém o mote #LoveYourEyes (“ame seus olhos”), que completa cinco anos. Lançada em 2021 como um chamado à ação, a campanha se consolidou, segundo a IAPB, como um dos momentos de maior visibilidade da saúde ocular no calendário global, com ações em escolas, ambientes de trabalho, parlamentos e espaços públicos.

Por que 2026 é um ano decisivo para a saúde ocular

A edição deste ano tem um peso adicional. Menos de um mês depois do Dia Mundial da Visão, em 2 de novembro, o governo de Antígua e Barbuda sedia, em colaboração técnica com a Organização Mundial da Saúde (OMS), a primeira Cúpula Global de Saúde Ocular (Global Summit for Eye Health). O encontro vai reunir lideranças de governos, setores público e privado, organizações não governamentais e financiadores com um objetivo declarado: alcançar o 1 bilhão de pessoas que vivem com perda visual evitável.

A escolha do momento não é casual. A cúpula ocorre cinco anos depois da aprovação da primeira resolução da Assembleia Geral das Nações Unidas dedicada ao tema, a “Vision for Everyone” (A/RES/75/310), adotada em 23 de julho de 2021 sem necessidade de votação. Patrocinado por Bangladesh, Antígua e Barbuda e Irlanda, o texto conclama os países a mobilizar recursos para que, até 2030, pelo menos 1,1 bilhão de pessoas com deficiência visual tenham acesso aos serviços oftalmológicos de que precisam.

No mesmo ano, a 74ª Assembleia Mundial da Saúde aprovou duas metas globais para 2030, voltadas às duas principais causas de cegueira e deficiência visual: aumento de 40 pontos percentuais na cobertura efetiva de erros refrativos (eREC) e de 30 pontos percentuais na cobertura efetiva de cirurgia de catarata (eCSC). A proposta da cúpula é tirar esses compromissos do papel e convertê-los em atendimento real.

Os números que sustentam a campanha

De acordo com a OMS, pelo menos 2,2 bilhões de pessoas no mundo têm algum grau de deficiência visual para perto ou para longe. Em ao menos 1 bilhão desses casos, quase metade do total, o problema poderia ter sido evitado ou ainda não recebeu tratamento adequado. Erros refrativos e catarata lideram as causas, e a perda global de produtividade associada à deficiência visual é estimada em cerca de US$ 411 bilhões por ano.

Os dados do Vision Atlas, plataforma da IAPB alimentada pelo Vision Loss Expert Group (VLEG) e pelo estudo Global Burden of Disease, oferecem um recorte epidemiológico complementar. Em 2020, 1,1 bilhão de pessoas viviam com perda visual: 43 milhões com cegueira, 295 milhões com deficiência visual moderada a grave, 258 milhões com deficiência leve e 510 milhões com comprometimento da visão para perto. A projeção para 2050 é de cerca de 1,8 bilhão de pessoas afetadas, sendo 61 milhões com cegueira, em um cenário impulsionado sobretudo pelo envelhecimento populacional e por mudanças no estilo de vida.

Para o oftalmologista, vale observar a distribuição das causas. Entre os casos de cegueira e deficiência visual moderada a grave, o Vision Atlas aponta o erro refrativo não corrigido (161 milhões) e a catarata (100 milhões) muito à frente de glaucoma (8 milhões), degeneração macular relacionada à idade (8 milhões) e retinopatia diabética (4 milhões). Segundo a IAPB, 90% de toda a perda visual é prevenível ou tratável. As diferenças entre as estimativas da OMS e do Vision Atlas refletem metodologias e definições distintas de deficiência visual, e não dados conflitantes.

O valor econômico da visão

Um dos pilares da cúpula é o relatório The Value of Vision: The Case for Investing in Eye Health, lançado em setembro de 2025 durante a Assembleia Geral da ONU. Segundo o documento, investir US$ 7 bilhões em saúde ocular nos países de baixa e média renda entre 2026 e 2030 geraria US$ 199 bilhões em benefícios econômicos, um retorno de 28 para 1, apontado pelos organizadores como um dos mais altos da saúde global.

O estudo também estima ganhos que extrapolam a oftalmologia: 3,3 milhões de anos de escolaridade adicionais, 1,7 milhão de casos de depressão evitados, além de 211 mil lesões e 5,8 mil mortes no trânsito prevenidas. Se o 1 bilhão de pessoas com perda visual evitável fosse alcançado, a economia mundial teria um impulso estimado de US$ 447 bilhões por ano.

Seis aceleradores e o papel do oftalmologista

A IAPB descreve oftalmologistas, optometristas e equipes de apoio como o núcleo clínico da iniciativa e convida sociedades médicas, associações e lideranças a apresentar compromissos formais. Os compromissos registrados serão reconhecidos no documento oficial de resultados da cúpula e devem, preferencialmente, se alinhar a seis aceleradores baseados em evidências:

  • ampliar a triagem visual na comunidade, integrando-a a programas de saúde escolar e comunitária;
  • entregar óculos de leitura prontos no próprio local da triagem;
  • aumentar a capacidade da força de trabalho, com formação de profissionais de nível intermediário e uso de telerrefração;
  • elevar a produtividade cirúrgica e das equipes, com melhorias de fluxo e de equipamentos capazes de ampliar o volume em 40% a 50%;
  • remover barreiras de acesso ligadas a custo, distância e estigma;
  • aprimorar a cirurgia de catarata com inovações de fluxo de trabalho e de kits cirúrgicos que aumentem a produção com segurança.

A organização também destaca o peso da voz clínica junto aos governos: ministérios da saúde tendem a assumir compromissos com mais facilidade quando veem seus próprios especialistas defendendo a causa. Por isso, a IAPB orienta que as ações de advocacy ligadas à cúpula sejam coordenadas por meio da entidade, que oferece briefings de política pública e apoio para apresentar os aceleradores a gestores sem formação clínica. O Conselho Brasileiro de Oftalmologia (CBO) é membro da IAPB.

O retrato da saúde ocular no Brasil

O Dia Mundial da Visão 2026 encontra a oftalmologia brasileira com indicadores expressivos de produção e desafios bem delimitados. Segundo a publicação “Olhares sobre o Brasil”, do CBO, que documenta o VIII Fórum Nacional de Saúde Ocular, o SUS realizou em 2024 mais de 13 milhões de consultas oftalmológicas e 38 milhões de exames. Desde 2015, a especialidade ocupa a quarta posição entre 66 especialidades em número de consultas na rede pública e, na saúde suplementar, é a segunda com maior volume de atendimentos.

A catarata ilustra a capacidade de resposta do sistema: o país passou de 80 mil a 100 mil cirurgias anuais pelo SUS no início dos anos 2000 para mais de 1 milhão por ano. Em 2024, foram realizados ainda 650 mil tratamentos para glaucoma. A publicação é dedicada aos cerca de 22 mil oftalmologistas em atividade no país.

O gargalo mais evidente está na retina. Levantamento preliminar apresentado no fórum estima cerca de 21 milhões de pessoas com diabetes no Brasil, das quais aproximadamente 7,1 milhões teriam retinopatia diabética e 1,6 milhão precisariam de tratamento no SUS. Em 2023, porém, foram registrados cerca de 275 mil procedimentos de fotocoagulação e injeção intravítrea relacionados à doença. Um estudo citado no evento mostrou tempos de espera entre 206 e 1.499 dias no estado de São Paulo, do encaminhamento na atenção básica até o tratamento.

A criação das Ofertas de Cuidado Integrado (OCIs) em oftalmologia, hoje parte do programa Agora Tem Especialistas, do Ministério da Saúde, é apontada pelo CBO como avanço para acelerar o diagnóstico de retinopatia diabética, alterações oculares na infância, glaucoma e catarata. A saúde ocular infantil, aliás, dialoga diretamente com o desafio global deste ano: segundo o CBO, cerca de 10% dos alunos do ensino fundamental público precisam de correção óptica.

Da conscientização à cobrança por resultados

Para a oftalmologia, o Dia Mundial da Visão 2026 funciona como ponte entre a conscientização e a cobrança por resultados. Com as metas de 2030 a pouco mais de quatro anos e uma cúpula dedicada a converter compromissos em financiamento, a participação de oftalmologistas, sociedades e serviços tende a pesar na definição de prioridades nacionais. No Brasil, onde a especialidade já demonstrou capacidade de escala com a catarata, o desafio é repetir esse movimento em doenças crônicas como retinopatia diabética e glaucoma, além de garantir que nenhuma criança chegue à escola sem a correção visual de que precisa.

 

Fontes

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